11 fevereiro 2018

A civilização ocidental está à beira do colapso?

Há um conjunto de notícias que dá de que pensar, pois o assunto interessa todos: é a poluição, é a 
destruição sistemática do nosso ambiente. E, ainda assim, continuamos a não focar a questão como deveria ser preciso fazer.

O editorial do semanal científico New Scientist põe uma pergunta: "A civilização ocidental está à beira do colapso?". Começamos mal: pergunta errada, não é apenas a ocidental.

Verdade, uma série de estudos publicados nos últimos meses começam a explorar o impacto mais amplo que os poluentes podem ter. Um desses estudos, publicado no British Medical Journal, indica que a exposição pré-natal das crianças à poluição do ar nas cidades está a causar "algo que é quase uma catástrofe para a Saúde Pública". A poluição, se atinge o útero materno, pode causar perda de peso no nascimento, interrupção no desenvolvimento dos pulmões, do cérebro e uma série de doenças debilitantes e fatais na velhice.
Outro relatório, publicado no Lancet, indica que o número de mortes causadas pela poluição é três vezes maior do que os danos causado por AIDS, malária e tuberculose juntos. Poluição, notam os autores da pesquisa, que "ameaça a sobrevivência da sociedade humana".

Uma série de artigos da revista PLOS Biology revela que, ao examinar a maioria dos 85.000 produtos químicos sintéticos aos quais podemos estar expostos, não foram encontrados dados confiáveis ​​sobre a segurança em termos de saúde pública. Enquanto centenas desses produtos químicos "contaminam o sangue e urina de quase todas as pessoas testadas" e a quantidade aumenta a cada ano, não temos ideia de quais possam ser os futuros impactos provocados por esses elementos, isolados ou combinados. 

New Scientist, British Medical Journal, Lancet, PLOS Biology: não são propriamente revistas cor de rosa à procura de "furos". Doutro lado, tais publicações já chegam atrasadas: há ambientalistas sérios (poucos, diga-se) que há anos são ignorados enquanto alertam que o problema não é apenas o Aquecimento Global (a propósito: três metros de neve nos Alpes, -24º C em Italia Central, o terceiro Janeiro mais frio dos últimos 40 anos...).  

Mas estes problemas não estão limitados apenas ao "Oeste". A desintegração ambiental está a acelerar em todo o mundo: a aniquilação das populações de vertebrados, o desaparecimento dos insectos, o assassinato das florestas tropicais, do terreno, das águas subterrâneas, a degradação de inteiros ecossistemas (atmosfera, oceanos...) procedem a ritmos surpreendentes. Estas crises afectam todos, mas serão os Países mais pobres a ser atingidos em primeiro lugar. São problemas bem conhecidos.

Mas também as forças que ameaçam destruir o nosso bem estar são conhecidas e estão em todos os lugares: a capacidade de pressionar (lobby) das grandes empresas e dos grandes capitais, que olham para as Administrações dos Estados como um impedimento; os think tanks financiados secretamente, os jornalistas vendidos, os professores domesticados... estas são as forças que ameaçam dominar a Democracia e destruir o ambiente.

A conectividade aumenta a resiliência. Por exemplo, numa altura em que há escassez de alimentos, os mercados regionais ou globais permitem explorar a produção de outros locais. Mas se essa conectividade e se essa complexidade excederem um certo nível, ameaçam tornar-se incontroláveis. As características emergentes do sistema globalizado, combinadas com a incapacidade do cérebro humano para compreendê-las, podem ampliar as crises em vez de as conter. Então, corremos o risco de matar o ambiente no qual vivemos. O que, em última análise, significa um suicídio.

Talvez a pergunta do New Scientist deveria ser "a nossa sociedade complexa viaja à beira do colapso?".

Sociedades complexas já colapsaram no passado, muitas vezes. Aliás, uma das primeiras lições da História é que tudo acaba, inclusive não há sistemas eternos. Vivemos numa espécie de civilização interglacial, uma pequena pausa da revolução típica da Natureza e da entropia social. O problema não é "se" mas "quando". E esse "quando" começa a parecer cada vez mais como "em breve".

Ao falar da queda de Estados, temos que frisar como o colapso de sociedades humanas nem sempre foi uma coisa negativa. A dissolução de Estados baseados na escravidão e na coerção, representou para multidões uma ocasião de liberdade e emancipação. Quando o poder centralizado começa a vacilar, devido a epidemias, fome, inundações, erosão do solo ou perversão auto-destrutiva do governo, o que está preso na gaiola tem a oportunidade de fugir e recomeçar, a partir dum plano inferior (social, tecnológico) mas livre. O chamado "primitivismo secundário" pode ​​revelar-se uma melhoria em termos de segurança, nutrição e ordem social. A "idade das trevas" que inexoravelmente vem após a era da glória e a grandeza do Estado pode paradoxalmente representar o momento melhor para estar vivo: pensamos só nas oportunidades que se apresentam.

Mas hoje já não há espaço para isso. As terras selvagens e os ricos ecossistemas que uma vez alimentavam caçadores-coletores, nómadas e refugiados hoje quase não existem. Apenas uma pequena parte da população mundial de hoje poderia sobreviver ao retorno a uma vida primitiva: estamos a comprometer não apenas a nossa sociedade e as próximas gerações, mas também a capacidade de sobrevivência da nossa espécie.

Nesta era nominalmente democrática, a complexidade do sistema é agora a única coisa que fica entre nós e o desastre. Precisamos de mais sintomas para entender que estamos à beira do abismo?


Ipse dixit.

Fontes: New Scientist, The British Medical Journal, The Lancet, PLOS Biology, Monbiot
A ideia de "primitivismo secundário" é do livro de James C. Scott Against The Grain, vivamente aconselhado (não encontro a versão em português, é normal que não tenha sido traduzido pois é um livro bastante original e inteligente).

3 comentários:

  1. Chaplin11.2.18

    O 1º passo é ir no dicionário, ler o significado de PLUTOCRACIA e deixar de acreditar na falácia da "Democracia"!!!

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  2. Anónimo12.2.18

    Como já passou para o esquecimento a torneira Fukushima, vamos contentando com a nova moda de enviar carros para o espaço, a ver se serve de sinalização para quem queira se aproximar planeta.

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  3. Não fica difícil imaginar que em condições de escassez alimentar decorrente da manipulação assassina do clima e da terra de muitos lugares do mundo, a exemplo da África,boa parte da humanidade está sendo vítima da genocídio e desaparecerá, como tantas espécies vegetais e animais que foram e estão sendo extintas neste momento. A grande diferença é que a extinção da espécie humana não é programada pelos ciclos naturais do planeta, como outrora.Hoje é sabido que quem controla o clima, controla o mundo, e a extinção dos humanos é programada por cérebros humanos que atuam de forma seletiva e científica.Assim sendo, me parece que a degeneração do planeta é uma questão política, de relações de poder. Se alguém pretender fazer algo pela ecologia, plante ideias que se transformem em ações de boicote na origem do problema: os interesses financeiros dos grandes conglomerados empresariais.

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