07 maio 2018

Os EUA suportam 73% das ditaduras mundiais

Rich Whitney é um advogado, escritor e político dos Estados Unidos que decidiu fazer uma pesquisa curiosa: pegou no sistema de classificação dos direitos políticos utilizado por Freedom House em 2015 e comparou-o com o fornecimento de assistência militar do governo dos EUA (treino militar, venda de armas, etc.) a nações estrangeiras naquele mesmo ano.

O objectivo declarado de Whitney era determinar se o governo dos EUA realmente luta contra as ditaduras e defende a democracia, como é frequentemente alegado.

A análise descobriu que os EUA fazem exactamente o oposto de quanto afirmado, ao fornecer assistência militar a 36 das 49 ditaduras do mundo. Em outras palavras, mais de 73% das ditaduras mundiais recebem assistência militar dos Estados Unidos. Para a sua análise, Whitney usou uma definição normalmente aceite de ditadura:
Um sistema de governo no qual uma pessoa ou um pequeno grupo possui o poder estatal absoluto, gerindo todas as políticas nacionais e os principais actos, deixando o povo impotente para alterar essas decisões ou substituir aqueles que estão no poder por qualquer método que não seja uma revolução ou um golpe.
O que, de facto, é uma boa descrição dum regime ditatorial.

Whitney escolheu os relatórios anuais da Freedom House, citando-os como a melhor fonte para uma lista abrangente de ditaduras e sociedades “livres”.

A opção de utilizar os dados de Freedom House torna os resultados da análise ainda mais contundentes porque a organização (supostamente independente) é financiada por uma combinação de fontes governamentais ocidentais e de organizações não-governamentais, incluindo a fundação Open Society financiadas por George Soros; pelo que, a categorização dos Países como ditaduras ou como sociedades livres é análoga à forma como o Departamento de Estado dos EUA classifica tais Países. O que significa que o apoio monetário americano a tais ditaduras é um repúdio deliberado e consciente da promoção da democracia no exterior.

Além disso, muitos dos Países rotulados como "ditaduras" pela Freedom House são rivais dos Estados Unidos e, portanto, tendem a ser categorizadas como ditaduras mesmo que não sejam. Por exemplo, tanto o Irão quanto a Síria foram rotuladas de ditaduras, embora o Irão tenha realizado eleições democráticas no início deste ano e o Presidente sírio, Bashar al-Assad, tenha sido reeleito em 2014 com a grande maioria dos votos. A Rússia, o eterno rival dos Estados Unidos, também é considerada uma ditadura de acordo com Freedom House, apesar do facto das eleições decorrerem com regularidade.

Portanto: se esses três Países fossem (justamente) removidos da lista, os EUA apoiariam mais de 78% das ditaduras mundiais.

Além disso, outros Países decididamente antidemocráticas que recebem grandes quantidades de ajuda militar dos EUA não são vistos como ditaduras no relatório da Freedom House e, consequentemente, nem na análise de Whitney. Por exemplo: israel recebe mais de 10 milhões de Dólares em ajuda militar norte-americana todos os dias, apesar do facto de todos os palestinianos que vivem dentro das suas fronteiras serem privados dos direitos e submetidos a condições típicas dum regime militar imposto.

Embora essa análise dos dados tenha revelado o amplo apoio dos EUA a ditaduras em todo o mundo, nada irá mudar no modus operandi de Washington. É claro que o apoio americano aos ditadores não constitui uma novidade: muitos ditadores da época da Guerra Fria, particularmente na América Latina e na Ásia, foram instalados e apoiados pelo governo dos EUA apesar do despotismo, para permitir que os EUA “contivessem” o Comunismo e a influência soviética.

Mas se no tempo da Guerra Fria o lema era "Será mau mas é sempre melhor do que os comunistas", agora parece ser "Será mau mas paciência". E isso apesar de Washington continuar a defender as suas intervenções como interesse das Nações Unidas.

Voltando a falar de democracia: no ano passado, Foreign Policy publicou um artigo intitulado “Porque a América é tão má na promoção da democracia nos outros países?”, onde o professor de Harvard Stephen M. Walt observava que a maioria dos esforços na promoção da democracia no estrangeiro termina regularmente num fracasso, com quase um quarto das democracias mundiais que degradaram-se nos últimos 30 anos. O professor Walt culpa a história das confusas intervenções militares dos EUA para justificar o fracasso, mas a suspeita (e este é um eufemismo) é que a razão para essa preocupante tendência não é que a democracia não foi promovida da forma "certa", mas que não foi promovida de todo.

E a suspeita é reforçada pela análises das notáveis ​​intervenções militares durante as últimas décadas, em particular no Afeganistão, no Iraque e na Líbia: estas foram vendidas ao público ocidental como nascidas da necessidade de “restaurar” a democracia, mas os resultados estão à vista.

Resumindo: os Estados Unidos suportam três em cada quatro ditadores do planeta. Um resultado "estranho" este quando alcançado por um País que justifica consistentemente as suas intervenções no estrangeiro para "promover a democracia" e impedir "as ditaduras do mal".


Ipse dixit.

Fontes: Freedom House, Foreing Policy, MPN News, Medium, If Americans Knew, Congressional Research Service: U.S. Foreign Aid to Israel (ficheiro Pdf, inglês).

4 comentários:

  1. Chaplin7.5.18

    É estranho para a grande maioria da população mentalmente servil. Para quem investiga a história não oficialista imposta pela academia, fica evidenciado o quanto dois fatores são decisivos mas desprezados, e mais do que tudo, imprescindíveis para o entendimento do funcionamento mundo, pois se desdobram em praticamente todos processos históricos, direta ou indiretamente. Quais são? Dominação e o fator judeu. Fora disso, é faz de conta, e serve para que a roda se mantenha rodando para o mesmo lado...

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  2. Interessante a pesquisa (embora a gente já intui os resultados mesmo sem ela). Seria ótimo que trabalhos assim fossem divulgados intensamente a ver se deitam uma pontinha de dúvida no cidadão americano médio, e nos demais não norte americanos também. Desnecessário dizer que não terá a conveniente divulgação.Diria eu que 78% é pouco porque as ditaduras necessitam comprar bastante armamento para a "segurança" delas enquanto ditaduras, e o vendedor oficial que se saiba são os EUA.

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  3. Anónimo8.5.18

    Isto só é assim porque quem dita as directrizes lá, cá e por quase todo o lado quer que isto continue nesta senda. Mas observando bem quem dita isto necessita de vender este produto e com "empresas" tipo Blackrock e outras "empresas" a ter share em tudo e quase todo o lado sem lá por os pés, no entanto com participações enormes acabam por até tomar conta e decidir que fazer com as suas "aquisições" é a única forma de fazer dinheiro. Dado a verdadeira indústria, sem ser armamento ter sido a sua maioria à muito deslocalizada para a obtenção de ainda mais lucro.
    Isto é uma pareceria públicos privada no seu pior.
    Será (sei que parece ingenuidade) que não existe outra forma de um país prosperar? Ou no caso manter-se no centro do mapa? Sei que vem de á décadas mas não aparecem alternativas?
    Ou é andar eternamente nisto?

    nuno

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  4. É mais fácil controlar um ditador corrupto, do que governos que vão alternando regulamente.
    Controlar ditadores é uma relação simbiótica, já controlar governos comporta riscos. O estudo é muito interessante, apesar das conclusões são obvias.
    Um dado curioso é que, para a maioria dos cidadãos ocidentais, qualquer coisa que os EUA digam, é tido como sendo uma verdade absoluta.
    Quanto è definição de ditadura, vamos ficar pela clássica, porque aqui também tenho as minhas discordâncias.

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