Bem-vindo! São as de

23 de Maio de 2013

Melhor um falsário ou um banqueiro?

Boa pergunta: melhor um falsário ou um banqueiro?

É uma provocação? Sem dúvida, mas não apenas isso e vale a pena reflectir acerca do assunto. A pergunta deve ser colocada correctamente, desta forma: para o bem de todos, o bem da sociedade, é mais prejudicial a actividade de um falsário ou aquela do actual sistema bancário?
  • ambos injectam liquidez no sistema.
  • ambos criam liquidez sem qualquer valor de base (criam dinheiro do nada) e ambos baixam o valor unitário do dinheiro, aumentando a inflação
Até aqui os pontos em comum.
No entanto, existem algumas diferenças:
  • a actividade do falsário é ilegal, aquela do sistema bancário oficialmente não
  • a actividade do sistema bancário cria dívida, ou seja, por cada "X" de dinheiro criado é gerado um "X + Y%" de dívida (com Y sempre maior do que zero, às vezes até 50 ou 60% no caso dos empréstimos de longo prazo), o falsário injecta moeda em circulação para gastá-la, sem dívida associada.
O falsário, portanto, não criar nenhuma hipoteca sobre os bens e não haverá nenhum devedor desesperado que cometa suicídio por ter perdido tudo.

Fica portanto a dúvida: qual destas duas actividades é a mais prejudicial?
A resposta é: ambas. Na verdade, os dois sistemas somam-se, tornando a economia mais frágil

Recentemente foram apreendidas toneladas de moedas de 1 ou 2 Euro falsas, provenientes da China (que também "cria" Dólares e outro dinheiro); e estima-se que por cada 100 mil moedas em circulação, uma é falsa. Calculando em 16 biliões o total das moedas em circulação, percebe-se como o assunto seja bastante preocupante e como afecte uma economia já com sérios problemas.

O restante dinheiro, aquele "verdadeiro", fica nas mãos dos bancos.
Não dá mesmo para rir...


Ipse dixit.

Fonte: Stampa Libera

Os delírios do embaixador

O Leitor acha que as reuniões dos vários Grupo Bilderberg, Comissão Trilateral, Instituto Aspen ou Council of Foreign Relations são mantidas secretas por motivos obscuros?

Nada disso: tudo é feito para o nosso bem. Pelo menos, esta é a explicação dum dos participantes, o ex embaixador Sergio Romano, que decidiu falar do assunto no diário Il Corriere Della Sera.

Após ter entrado no rentável mundo da política, no longínquo 1954, Romano esteve em Paris (1968-1977), foi director geral das relações culturais e embaixador da Nato (1983-1985) e concluiu a carreira diplomática em Moscovo. Agora escreve no Corriere e responde às curiosidade dos Leitores.
Por exemplo:
O que pensa das diversas organizações das quais fazem parte poderosos banqueiros, políticos e economistas, como o Grupo Bilderberg, a Comissão Trilateral, o Instituto Aspen e o não menos importante Council of Foreign Relations e, sobretudo, porque os jornais nunca falam das reuniões?
Aqui começa o delírio do simpático Sergio Romano:
Fui membro da Comissão Trilateral por vários anos, participei numa reunião do grupo Bilderberg e em várias do Instituto Aspen. Estou familiarizado com o trabalho do Council of Foreign Relations, uma instituição que tem sede em New York e Chicago, mas nunca tive a oportunidade de participar num dos seus seminários. [...]
Não é verdade que os jornais ignorem os encontros destas organizações. Mas têm que observar em muitos casos as "regras de Chatham House".
De acordo com estas regras, os jornalistas, quando são convidados, podem resumir as intervenções e as ideias apresentadas no decorrer do debate, mas devem abster-se do revelar a sua autoria. A única entre estas associações que pede um maior sigilo é o Bilderberg.
Pessoalmente não lembro de alguma vez ter lido num dos jornais em italiano ou em português resumos das reuniões ou das ideias apresentadas. E nem lembro dum telejornal que tratasse do assunto. Mas Romano diz que há, pelo que só pode ter sido culpa minha.
As sociedades secretas? Eu não acho que não podem ser consideradas tais as associações das quais conhecemos a localização, o nome dos fundadores, os gerentes, os membros. A regra do sigilo e da confidencialidade não serve para tramar ou para fazer pactos secretos.
Nisso Romano tem razão: se uma coisa for secreta, não sabemos da existência dela, caso contrário já não é secreta. É uma questão de lógica. O problema não é a existência ou a localização, mas os conteúdos.
Eu não posso excluir que dois banqueiros, numa reunião em separado, tenham a oportunidade de chegar a um acordo sobre uma fusão ou uma aquisição. Mas poderiam fazer o mesmo num encontro num teatro ou numa casa particular.
E também aqui Romano tem razão: não é necessário ir até Aspen para falar de negócios. O problema é que em Aspen, como nas restantes reuniões, as ocasiões multiplicam-se. O problema também é que em Aspen, ou nas outras reuniões, não são tratados apenas negócios. E, sobretudo, continua uma dúvida: se for tudo normal, tudo regular, qual a razão do sigilo?
A falta de publicidade, neste caso, é para permitir que os participantes possam expressar-se livremente, fazer perguntas, especular, calcular as vantagens e as desvantagens das escolhas políticas ainda não totalmente adoptadas.

O que aconteceria se as reuniões fossem públicas e todos os cidadãos da "república da Internet" pudessem assistir via streaming? Muitos intervenientes, especialmente entre aqueles que têm mais responsabilidade política e financeira, mediriam as suas palavras, fugiriam das questões mais espinhosas, haveria declarações politicamente corretas, como nos comícios e nos debates televisivos.

E todos voltariam para casa sem ter aprendido nada de novo. Eu sei que o Movimento 5 Estrelas e os seus seguidores não gostam disso, mas virá o dia em que até mesmo os Grillini [membro do Movimento 5 Estrelas, ndt] descobrirão que em muitas circunstâncias o mito da publicidade total ajuda os slogans, as banalidades, a demagogia e, em última instância, as mentiras.
Conselho: copiem esta maravilhosa passagem, imprimam e guardem religiosamente, pois trata-se da quinta-essência da forma de fazer política. Porque dito de outra forma, isto significa: perante os media é preciso mentir, utilizar a demagogia e dizer banalidades; as verdadeiras decisões, aquelas importantes, não podem ter a participação dos cidadãos.

É raro encontrar uma admissão tão explícita e agradecemos Sergio Romano que, provavelmente cúmplice a idade avançada, achou bem partilhar este pensamento com os Leitores deles.
Estamos perante o "paternalismo" de indivíduos que sentem-se obrigados (por direito divino?) a decidir da vida de milhões de pessoas (mentalmente atrasadas?) sem que estas possam e devam saber qual o verdadeiro rumo, quais as intenções. O parlamento e as instituições democráticas? São os órgãos executivos para a implementação das decisões tomadas num hotel requintado, fumando charutos cubanos, com na frente dum bom copo de Romanee Conti.
O que aconteceria se as reuniões fossem públicas e todos os cidadãos da "república da Internet" pudessem assistir via streaming?
Os cidadãos que podem assistir às reuniões nas quais são tomadas as decisões que afectam a vida deles? Ahi que horror! Mas tem cabimento?

Com o sigilo, pelo contrário, apenas as melhores decisões são implementadas, é tudo para o nosso bem. E os resultados estão à vista.


Ipse dixit.

Fonte: Il Corriere della Sera, Wikipedia (versão italiana)

22 de Maio de 2013

O petróleo acaba? Nem pensar

Então: a era o petróleo está prestes à acabar? A realidade será feita de automóveis eléctricos? Acabam os navios petroleiros que naufragam e poluem o mar?

Nada disso. O petróleo veio para ficar. E vai ficar ainda ao logo dum tempinho.
Bastante tempinho.

No máximo será possível ver um crescimento na utilização do gás. Mas o petróleo ficará ainda como fonte energética primária. Com boa paz dos ambientalistas.

Culpa de quem? Da América.
A verdadeira novidade deste começo de século XXI é a revolução energética norte-americana, ou seja, a revolução energética do shale gas (gás de xisto) e do tight oil (petróleo do xisto betuminoso); revolução que já é visível no mercado dos hidrocarbonetos, apesar dos preços muitas vezes não competitivos.

Hoje, o gás de xisto já representa cerca de 25% da oferta de gás natural nos Estados Unidos e de acordo com as previsões pode chegar até 50% em 2030 (ou ainda antes). Milhares de novos poços de gás têm sido escavados na Pensilvânia, Texas e Oklahoma. Outros seguirão em breve.

Petróleo, gás, hidratos...

Mas não apenas gás: também petróleo. Tem havido uma explosão na produção de ouro negro no North Dakota. A Bakken/Three Forks, uma formação de xisto betuminoso que estende-se entre North Dakota e Montana tem um potencial de produção equivalente aos dum grande País do Golfo Pérsico. Só que este fica dentro dos Estados Unidos.

E este é apenas o começo. O futuro será uma cada vez maior de-convencionalisação da oferta de tight oil nos EUA, petróleo de areias betuminosas no Canadá, extra-heavy oil na Venezuela, pré-sal no Brasil.

petróleo internacional, especialmente por aquele oriundo do continente americano. Nas próximas décadas, veremos um aumento exponencial na quantidade deste "petróleo não convencional":
Mas sempre petróleo será.

As novidades não chegam só do continente americano e do petróleo: no passado dia 12 de Março, o Ministério da Economia do Japão tornou público a primeira extracção submarina de gás (no Mar de Honshu) a partir de cristais congelados de hidrato de metano. As reservas potenciais daquele que é usualmente chamado "gelo que queima" são imensas: as estimativas variam entre 16 e 27 triliões de metros cúbicos. Uma enormidade.

Mas há mais: há também um boom de petróleo convencional, pois a produção das explorações clássicas cresce em todo o mundo com um ritmo inesperado.

Todavia, o factor mais marcante neste quadro geral é sem dúvida a explosão na produção de petróleo dos Estados Unidos. Não apenas o petróleo não está a acabar, como o Hemisfério Ocidental está a tornar-se o novo Paraíso petrolífero e gasifero do século XXI. Em particular, os EUA podem atingir em 2020 uma produção de 11,6 milhões de barris por dia entre petróleo e gás, tornando-se o segundo maior produtor de petróleo do mundo depois da Arábia Saudita. Além disso, segundo a AIE (Agência Internacional de Energia), na mesma data os EUA tornar-se-à um exportador de gás natural, alcançando em 2035 a marca da independência energética. Isso terá implicações geopolíticas importantes, por exemplo nos Países do Oriente Médio e da Federação Russa que correm o sério perigo de perder a posição preeminente como produtores e, em particular, como exportadores de hidrocarbonetos.

Na verdade, isso já está a acontecer em relação a Moscovo: no ano passado, a Gazprom (que detém o monopólio do gás russo) assistiu a uma imponente redução dos lucros (-15%, cerca de 6,5 biliões de Dólares) e a uma diminuição das exportações para os Países da União Europeia (- 9%).

Porquê?

Na base desta "revolução energética" há a tecno-ciência, assim chamada Technological Revolution: o advento de mais eficazes, sofisticadas e acima de tudo mais baratas aplicações tecnológicas para a investigação geológica, desenvolvimento e extracção dos depósitos convencionais e não convencionais.

Em particular, a utilização combinada de duas tecnologias, horizontal drilling e hydrofracking (perfuração horizontal e o já conhecido fracking, ver notas a seguir ao artigo), especialmente concebidas para a exploração de poços não-convencionais, está agora a difundir-se com o efeito de baixar os preços e aumentar a rentabilidade dos poços já considerados exaustos ou quase. Com estas tecnologias, a vida útil dos campos é prolongada.

Resumindo: a era do petróleo pode estar ainda bem longe do fim, apesar dos clichés. E petróleo não significa apenas gasolina, mas também plástico. Como aquele do rato que o Leitor segura na mão.

O uso maciço do petróleo pode durar muito mais tempo, mas é provável que esta nova fase posa ser uma fase de transição. Já estão em marcha novas formas de criar energia, é o cenário futuro prevê que hidrocarbonetos e outras formas de energia renovável vivam juntos ao longo de alguns tempos.

Quanto tempo? Difícil fazer previsões. Talvez vale a pena lembrar que a Idade Média é também considerada um período histórico de transição: e durou cerca de mil anos. De certeza que esta "revolução " na exploração do petróleo irá atrasar o desenvolvimento das fontes energéticas alternativas.

Único detalhe: no caso do fracking será preciso convencer as pessoas de que os terremotos são algo natural, que a extracção de petróleo nada tem a ver com isso.
Mas este não será um grande problema.


Ipse dixit.

Relacionados acerca do fracking:
Fracking
Fracking: ao pormenor - Parte I
Fracking: ao pormenor - Parte II
A lata e o poço

Fontes: Limes,

21 de Maio de 2013

Contra-evolução: os dados do SIPRI

O SIPRI (Stockholm International Peace Research Institute) é uma organização que realiza pesquisas científicas em questões sobre conflitos e acaba de publicar o novo relatório anual acerca dos gastos militares no planeta.

O total em 2012 foi de 1.753 biliões de Dólares: este é o montante que o mundo gastou para adquirir armas. Nada mal.

No relatório há notícias positivas e negativas. Mas antes alguns dados.

Os dados

Fonte: SIPRI

A primeira imagem é relativo ao andamento das despesas militares no período entre os anos 1988 e 2012, calculados tendo como base o Dólar de valor constante. Falta o ano 1991 pois não estão disponíveis os dados da União Soviética. Apesar da recente contracção, desde 1998 as despesas aumentaram sempre.

Fonte: SIPRI
Aqui os dados são aprofundados e inerente ao ano 2012.
Os Países são apresentados em ordem decrescente de despesas (os EUA, por exemplo, são os que mais gastaram com 682 biliões de Dólares em 2012).
Na coluna Change podemos observar as variações entre os períodos 2011-2012 e 2003-2012.
Muito interessante também a comparação entre as despesas militares e o PIB (Produto Interno Bruto) dos Países, na coluna Spending as a share of GDP, nos anos 2012 e 2003. Para fazer um exemplo, em 2012 os EUA gastaram 4.4 % do próprio PIB para as despesas militares, mas a Arábia Saudita gastou o dobro (8.9%): pelo que, em proporção, a Arábia gasta muito mais do que Washington.

Fonte: SIPRI

Estes são os dados relativos ao andamento das despesas entre os anos 2011 e 2012.
Houve uma leve flexão nos gastos, mas algumas regiões do mundo aumentaram de forma significativa estes tipo de investimentos: é o caso da Europa de Leste (cujo aumento ultrapassou 15% do total do ano anterior)África do Norte e Médio Oriente.

Fonte: SIPRI
Mais uma comparação entre os períodos 2003-2009 e 2009-2012, desta vez tendo como protagonistas os Países emergentes. Todos reduziram as despesas, com uma única excepção: a Turquia.

Considerações

A estratégia dos EUA, cúmplice a crise interna, visa aumentar os gastos militares dos aliados, tanto internos como externos à NATO: que, em qualquer caso, é fornecida pelas indústrias das armas de Washington. Os resultados não faltam: os gastos militares na Europa Oriental aumentaram em 2012 mais de 15% em relação ao ano anterior. A Polónia, por exemplo, acrescentará ao orçamento militar 33.6 biliões de Euros ao longo dos próximos 10 anos para o desenvolvimento do "escudo anti-mísseis" no contexto EUA/NATO.

Em nítido aumento os gastos militares no Oriente Médio, crescidos num ano mais de 8%: no topo o Oman, com um aumento de 51%, e a Arábia Saudita. Desconhecidos os dados do Irão, do Qatar, da Síria e dos Emirados Árabes Unidos

Aumento também na Ásia e na Oceánia: +3.3%, com destaque para o Vietnam.

Forte crescimento também da África do Norte, que aumentou 7,8%. Na América Latina, quem mais gasta é o Paraguai, com um aumento de 43%, seguido pela Venezuela (+42%), enquanto os gastos militares do México crescem cerca de 10%.

Mais no geral, se as despesas mundiais caíram 0.5% entre os anos 2011 e 2012, não podemos esquecer o aumento de 35% entre 2003 e 2012. Em 2003 era 2.4% a percentagem da riqueza mundial produzida (o PIB) destinada às armas: hoje é 2.5%.


Ipse dixit.

Fonte e gráficos: SIPRI - Recent trends in military expenditure

Líbia, dois anos depois

Na Líbia, estabilidade e segurança ainda são uma miragem.

O recente ataque à embaixada francesa em Tripoli lembra que, dois anos após a revolução, a atmosfera  de relativa tranquilidade é apenas aparente. O País é incapaz de sair da fase de instabilidade afecta uma transição já por si complicada. O governo não consegue desarmar as milícias e até mesmo as forças de segurança regulares não parecem oferecer garantias.

Assim, neste normalidade feita de caos e balas perdidas, o débil governo fica preso entre dois fogos. Dum lado há as milícias que continuam a influenciar as autoridades centrais; do outro há o Departamento de Estado dos Estados Unidos, que pede mais esforços para conter a crescente radicalização entre os grupos salafistas.

Enquanto isso, os episódios violentos continuam. Um exemplo são os repetidos ataques contra a minoria copta, mas as próprias instituições são refém da chantagem das milícias. Um dos últimos casos aconteceu no princípio do mês: um grupo de homens com um meio dotado de canhões antiaéreos ocupou o Ministério da Justiça, obrigando o funcionários a abandonar o prédio.

Os culpados? A mítica Al-Qaeda? Os salafistas? Outros extremistas?

Na verdade, a situação é mais complexa: na Líbia os Estados Unidos combatem um guerra, sem cobertura mediática (cobertura para quê? A Líbia está "livre" agora) mas sempre guerra, como testemunham os 8 milhões de Dólares que a Administração destinou à constituição duma unidade anti-terrorismo.

Além de várias milícias que ainda se comportam como grupos de auto-defesa locais, como em Misurata e outras localidades do País, não é possível esquecer o Libian Shield, um "guarda-chuva" abaixo do qual durante o conflito operavam dezenas de batalhões anti-Kadhafi.. Hoje o Libian Shield ainda existe e opera com elementos seleccionados pela CIA, em particular após a morte do embaixador americano Christopher Stevens em 2012.

Esta não é uma novidade: no Iraque também operam milicianos financiados pela Central Intelligence Agency, os Sons of Iraque. Só que isto cria uma situação delicada, pois na "nova" Líbia, de facto, actuam dois poderes oficiais (o exército e a polícia) e dois poderes paralelos muito mais fortes: o Libian Shield e o SSC, o Supreme Security Committee, algo parecido com uma guarda nacional revolucionária.

Estes últimos dois, em particular, não operam em conjunto mas até entram em choque: é o caso do cerco de Bani Walid, em Novembro do ano passado, quando o Libian Shield atacou o reduto do SSC sob o olhar impotente das autoridades centrais.


Quantas as possibilidades para Al-Qaeda de introduzir-se no conflito da Líbia? Na realidade poucas: apesar da maioria dos líbios serem salafistas, os extremistas são escassos e geralmente empenhados em operações no Afeganistão, no Iraque ou, mais recentemente, na Síria. O que não admira: já em 2009, o Lybian Islamic Fighting Group (LIFG) tinha decidido afastar-se do terrorismo internacional e em primeiro lugar de Al-Qaeda.


Os problemas da Líbia nascem não do fundamentalismo religioso mas das ingerências ocidentais ou, paradoxalmente, da falta delas: após a destituição do Coronel Khadafi, pouco ou nada foi feito para fornecer aos novos governos os instrumentos necessários para normalizar a situação.
É o caso da Nato, que nunca actuou uma verdadeira training mission, ou dos Estados Unidos, que preferem agir de forma autónoma e não em colaboração com outros governos ocidentais.

Doutro lado, o objectivo primário era derrubar o antigo regime e ocupar os valiosos recursos locais. O resto ainda continua a ser optional.


Ipse dixit.

Fontes: Geopoliticamente, Limes, Aurora.

20 de Maio de 2013

O Dactylopius não é para todos

Números

Diz Raúl Benítez, director geral da FAO (Food and Agriculture Organization of the United Nations) para a América Latina e Caribe:
Cerca de 870 milhões de pessoas sofrem de fome no mundo, embora haja mais oferta do que procura por alimentos. Isso obedece à falta de acesso de sectores da população aos alimentos devido à falta de rendimentos para comprá-los.
Ou seja: não falta comida, simplesmente há pessoas que não têm dinheiro para compra-la.

Problema de sustentabilidade? Somos demasiados neste planeta? Nada disso: o problema é sempre o dinheiro.
Na verdade há mais oferta do que procura de comida:
Apesar de existir um volume para alimentar toda a população mundial - cerca de 7.084 milhões de pessoas -, existem pelo menos 870 milhões que sofrem a fome.
Dinheiro e que mais?
Pelo menos um terço das colheitas é perdido por causa do mau armazenamento. Há também problemas no âmbito dos transportes e, finalmente, há o desperdício nosso, daqueles que têm dinheiro para comprar comida mas cozinham demais. Tudo isto determina que 1.3 biliões de toneladas de comida seja perdida a cada ano.


A crise de 2007 atingiu os mais pobres e se em alguns Países a situação tem melhorado, em outros piorou. Há uma redução de mais de 35% da fome em Mali, Camarões, Tailândia, Peru, Nicarágua, Brasil e Ásia. Mas na África Subsaariana o número de pessoas com fome subiu para 234 milhões, com um aumento de 64 milhões, e no Norte da África os desnutridos passaram de 22 para 41 milhões.

200 milhões de crianças com menos de 5 anos sofrem de desnutrição; e quase 7 milhões por ano morrem por falta de comida.

Enquanto isso, nós povos mais ricos temos problemas sérios.

Cor

Já beberam uma boa Caipiroska com sabor de morango? Um Campari? Um refrigerante avermelhado? Um iogurte? Ou talvez uma salsicha, um hamburger, um rebuçado, um gelado... então comeram um Dactylopius, um Dactylopius coccus ou um Kermes vermilio. Que depois é um insecto, primo das joaninhas e dos pulgões.

É o simpático bichinho, um parasita, que confere aquele tom vermelho muito apreciado nas mesas.
Atrás da sigla E 120 encontramos ele, a cor carmin, amplamente utilizado na indústria dos alimentos por via do preço muito baixo.

Admitimos: a olho parece uma barata, não é que seja muito atractivo. Mas gostamos dele, uhi se gostamos!
É por isso que o bichinho é recolhido, depositado numa lâmina de metal, secado, triturado, diluído em água e, por fim, misturado com a comida. Em cuja embalagem aparecerá como "corante natural". E que seja natural não há dúvida: são necessários 100.000 insectos para obter um só litro de tinta.

O Leitor quer saborear um pouco de Dactylopius? Não há problema: entre num Starbucks e escolha algo vermelho. Ou compre o chocolate da Lindt, a versão Passion. Mas são muitos os produtos que trazem o E 120, é só escolher. E podem ficar descansados: a Food and Drug Administration aprova. Sim, houve casos de alergia, mas...olhem: azar.

Moral

Assim: quase 900 biliões de pessoas sem comida, 6.9 milhões de crianças que morrem por desnutrição a cada ano, e nós que esmagamos 100.000 insectos parecidos com as baratas para obter um litro de corante alimentar que tem apenas uma função estética.

Tudo normal, porque nem todos tem dinheiro suficiente para comer uma barata.


Ipse dixit.

Fontes: Il Corriere della Sera, Panorama, La Nación, Trashfood, FAO: The State of Food Insecurity 2012 (link para download do documento)

Os elefantes cor de rosa de Jørgen Randers

Jørgen Randers não é uma pessoa qualquer: académico, professor de estratégia climatérica, estudioso de cenários futuros, ex membro da direcção do World Wildlife Fund International (WWF), actual membro da comissão governativa da Noruega para a redução das emissões poluentes.

Faz também parte do conselho de administração da British Telecom e da The Dow Chemical Company, uma das principais multinacionais do planeta.

Randers é um dos pais do debate acerca da sustentabilidade, portanto é interessante ler uma entrevista concedida em ocasião do lançamento do novo livro dele, 2052: A Global Forecast for the Next Forty Years ("2052: Cenários globais para os próximos quarenta anos"), livro que conta com a colaboração de 30 entre cientistas, economistas e especialistas internacionais sobre previsões sistémicas.

E o que conta o simpático Randers?
Os seres humanos são "de curto prazo" por óbvias razões genéticas, o que significa que estamos mais interessados nas consequências imediatas das nossas acções do que não nos efeitos de longo prazo. Tal atitude reflecte-se inevitavelmente no processo decisional dos governos democráticos: é impossível que um politico sugira um sacrifício hoje em prol de benefícios para os próximos 60 anos ou que os eleitores aceitem uma subida dos impostos e um forte governo central.
Perfeito, já aprendemos algo: os governos democráticos não prestam quando o assunto for o futuro de longo prazo. Então qual pode ser a solução? Antes de mostra-la, o simpático Randers explica: os governos democráticos tenderão a escolher sempre as soluções fáceis para sair da crise e o resultado será que o mundo da crise acabará num enorme drama climatérico. 

Ah, pois, o clima. Não podemos brincar com o clima.
Mas o Leitor pode ficar descansado: Randers individuou uma possível solução:
Talvez o melhor exemplo que conheço é a Comissão da União Europeia, uma elitocracía formada por pessoas muito competentes, e não controlada pelo Parlamento Europeu, que conseguiu aprovar resoluções que provavelmente nunca teriam sido aprovadas pelos parlamentos nacionais, eleitos democraticamente. Tem sido uma força de liderança nas negociações sobre as alterações climáticas.
Há alturas em que a ironia pára, em que encontrar palavras é difícil, provavelmente impossível.

Quando uma pessoa apontar a Comissão Europeia qual modelo universal, sinto que um limite foi alcançado e estremeço porque sei que depois disso tudo será possível. Sair à rua, olhar para o céu e ver elefantes cor de rosa esvoaçarem, isto será normal pois já não há barreiras.

Leio que a Comissão é formada "por pessoas muito competentes" e sinto que as forças estão prestes a abandonar-me: talvez seja chegada a altura de eu encontrar o meu Criador.
Hoje as decisões devem ser tomadas rapidamente, mesmo que com fortes custos imediatos. Acontece hoje na Itália governada pelo moderno tecnocrata Monti como na Roma de dois mil anos atrás governada, em situações de emergência, por ditaduras temporárias.
Pois, até que uma daquelas ditaduras "temporárias" decidiu tornar-se "permanente". Mas este é um pormenor.
Eu amo o esqui e a natureza virgem que existia na Escandinávia quando eu era um garoto 50 anos atrás. Hoje sou um homem deprimido porque existem muito poucos lugares na superfície da Terra onde ainda é possível encontrar uma floresta virgem, semelhante aquelas em que eu cresci. Então está certo que eu leve a minha filha em todo o mundo à procura daqueles lugares, já em perigo de extinção? É justo ensinar-lhe a amar a natureza, condenando-a a ser infeliz no futuro tal como estou eu hoje? Não é melhor acostuma-la a assistir na televisão ao National Geographic, onde pode ver a mesma natureza de uma forma virtual, a partir do seu apartamento?
Sem comentário.
Continua Randers:
Passei a vida inteira tentando organizar movimentos políticos para um futuro sustentável, e não foram bem sucedidos. Eu era vice-diretor da WWF Internacional na década de Noventa, quando tínhamos 5 milhões de membros, 1% da população dos países ricos. Pensei que teria sido fácil aumentar esta percentagem. Vinte anos depois, subiu apenas 1,5%. A verdade é que a maioria da população não está interessada. É difícil de admitir, mas aos 67 anos tenho a obrigação de fazer as contas finais.
O discurso não é tão simples e Randers bem sabe disso. Com certeza que há muitas pessoas insensíveis
perante os temas ambientalistas, mas descarregar toda a responsabilidade nas costas da "população não interessada" é apenas uma maneira de interpretar o problema à luz das conclusões que desejamos alcançar e nada mais.

A seguir, Randers apresenta uma série de dados:
  • os pobres serão 3 biliões em 2052, com uma população mundial que atingirá o pico em 2042 com 8,1 biliões de indivíduos.
  • a concentração de dióxido de carbono na atmosfera irá continuar a aumentar determinando em 2080 um aumento da temperatura de 2,8 graus (diz ele, e não seria mal apresentar alguns dados que possam confirmar estas afirmações).
  • o PIB mundial vai crescer mais lentamente do que o esperado (em 2050 será 2,2 vezes os níveis actuais) devido ao menor crescimento da população e ao declínio da produtividade, causado pelo aumento dos conflitos sociais e pelas condições climáticas extremas.
  • o processo de urbanização já em andamento vai acelerar.
Todos dados interessantes, sobretudo tendo em conta que são apresentados por uma pessoa que faz parte do concelho de administração duma das maiores multinacionais do planeta. Mas não é o caso de fazer auto-crítica, pois já aprendemos que a culpa é toda da "população não interessada" e dos governos democráticos dela.

Então, querido Leitor: preocupado?
Não, não é o caso. Existe uma solução e Randers é orgulhoso de apresenta-la:
Os jovens devem antes entender quais são os mecanismos que governam o mundo, então deveriam declarar-se prontos para fazer a parte deles, também têm que pagar mais impostos e apoiar um forte governo tecnocrático que possa actuar com uma visão de longo prazo. Finalmente, devem ter menos filhos, especialmente nos países industrializados, onde um filho, em média, consome 40-60 vezes mais recursos e energia do que uma criança na Índia.
Resumindo: pagar mais taxas, fazer menos filhos, abandonar a democracia, aceitar uma elite tecnocrática, inscrever-se no WWF, ver a natureza na televisão. E, óbvio, comprar os produtos da Dow Chemical Company porque Randers tem uma filha que deve comer algo, não é?

Afinal não era tão difícil.


Ipse dixit.

Fonte: Il Corriere della Sera

17 de Maio de 2013

Da próxima crise

Duas notícias, uma má e uma boa:
- a má é que estamos à beira duma recessão global.
- a boa é que há só uma notícia má.

Os sinais

Mas temos certeza disso?
Parece que sim, os sinais são bastante claros.

O boletim do GEAB (Global Europe Anticipation Bulletin) prevê a crise um dia sim e o outro também, lógico que cedo ou tarde acerte. Mas desta vez, com o boletim número 75, apresenta uma série de dados preocupantes.

A Europa já está em recessão.
Mais importante: as exportações da China (vitais nesta altura para descrever o estado de saúde da economia do mundo) entraram em forte declínio.
Na Austrália (que é um óptimo indicador do imediato futuro em termos globais) abranda; e os últimos dados acerca das vendas atacado/varejo nos Estados Unidos são negativos.

Há mais. Há as "estranhas" operações dos grandes bancos (JPMorgan, Bank of America), como a urgência de atrair os investidores e a corrida ao ouro (e a queda do valor do metal, em Abril, provavelmente provocada por uma destas grandes instituições).

Mas atenção: apesar da citada queda, a procura de ouro é ainda particularmente elevada e provavelmente continuará a manter estes níveis ao longo de bastante tempo ainda. Mais uma vez: não é um bom sinal, indica um forte choque no horizonte.

Há mais além do GEAB? Infelizmente há.
Nos Estados Unidos, por exemplo:
  • O preço do cobre tem sido tradicionalmente um dos melhores indicadores do desempenho futuro da economia. E o cobre já perde 20% do seu valor desde o começo do ano.
  • As vendas repetem nos últimos meses o padrão já observado durante a última recessão, aquela de 2008.
  • A actividade manufactureira mostra sinais de desaceleração. O Chicago PMI caiu abaixo de 50 pela primeira vez desde a última recessão.
  • Em Abril, a confiança dos consumidores caiu inesperadamente para o mínimo nos últimos nove meses.
  • A procura de petróleo continua em queda: um claro sinal de que a actividade económica encontra-se em em desaceleração.
  • Os gastos nos Casinos constituem também é um forte indicador da saúde da economia dos EUA. É por isso digno de nota que os gastos nesta área diminuíram até os níveis da última recessão.
Da economia europeia, em coma profundo, nem vale a pena falar.
Da China já dissemos.

A última fase

Podemos então contar um simpático episódio de poucos dias atrás.

New York, reunião dos maiores Hedge Funds globais, os fundos especulativos donos do planeta e arredores. São os fulanos que investem contra inteiros Estados, partindo-os em pedaços (Soros); são aqueles que ganham 12 biliões com uma simples aposta e arruínam milhões de pessoas (John Paulson).
São amorais, imorais, mas sobretudo conhecem o trabalho deles, nisso não têm concorrentes. E sabem o que se passa.

Se, portanto, Jeffrey Gundlach, da Doubleline (60 biliões e Dólares em três anos), toma a palavra e diz algo do tipo "Sugiro de retirar todo o dinheiro de qualquer conta bancária", pode ser este o caso para preocupar-se? Provavelmente sim.

O que temos é uma economia real que ainda não foi capaz de recuperar desde a queda de 2008. A próxima recessão é apenas um passo atrás numa travessia do deserto da qual é difícil ver o fim. O GEAB vê nisso um percurso que tem como objectivo a perda da influência do Estados Unidos em favor dum mundo multipolar.

Sem dúvida esta é uma componente importante. Mas a impressão é que haja mais do que isto e reduzir tudo à queda de Washington parece demasiado simplista. Talvez seja o caso de pensar que o sistema precise duma mudança e que agora entrou numa nova fase, a última (começada em 2008), que ao longo dos próximos 50 ou 60 anos (ou ainda antes, quem sabe?) redefinirá o mundo, não apenas do ponto de vista económico.

Como será o novo mundo? Isto ainda ninguém sabe.
Mas fica o alerta: recessão em vista.


Ipse dixit.

Fontes: GEAB nº 75, Zero Hedge, French People, Atlantico, CNBC, ISM-Chigago, Caixin Online, Paolo Barnard

16 de Maio de 2013

Cosmética: ler os ingredientes

Uma notícia dos Estados Unidos.

Segundo quanto relatado pela School of Public Health da Universidade da Califórnia, que testou 32 produtos normalmente nas prateleiras das lojas, os batons contêm preocupantes níveis de substâncias nocivas, entre os quais metais tóxicos: chumbo, cádmio, cromo, alumínio, manganês e outros ainda.

O estudo, publicado na revista Environmental Health Perspectives, evidencia o risco de absorção ou ingestão destes metais "espalmados" nos lábios. E não é brincadeira: os pesquisadores quantificam em 24 miligramas a dose diária de batom absorvido, 87 miligramas no caso das mulheres que utilizam o produto mais do que uma vez por dia. E com o batom, eis ingeridos também os metais. Como o já citado cromo, por exemplo, substância ligada ao cancro do estômago.

É possível? Não apenas é possível, mas faz perfeitamente sentido: levante a mão a Leitora que conhece todos ou pelos menos a maior parte dos ingredientes do próprio batom. E do desodorizante? Do shampoo (champô em Portugal, xampu no Brasil)? Do sabão?

Talvez seja o caso de observar mais de perto estes ingredientes que utilizamos todos os dias.

INCI: a nomenclatura oficial

Em primeiro lugar: existe um sistema internacional de nomenclatura dos cosméticos, cujo nome é INCI (International Nomenclature of Cosmetic Ingredients), utilizada em todo o mundo ou quase (na Europa, América do Norte, Brasil, Rússia e África do Sul representa o strandard). Em caso de dúvida, é possível aceder aos seguintes  links:

Oshun Supply: INCI Ingredient Name Translator
Europan Commisssion: Health and Consumers - Cosmetics
FDA: Cosmetics

O primeiro é um link onde é possível encontrar a tradução em inglês e francês dos termos utilizados pela industria e relativos aos ingredientes. É importante, porque nas embalagens são presentes os nomes "científicos" que podem causar alguns problemas quando a vontade é procurar o significado. É mais simples procurar algo acerca do Red Glitter que não acerca do Polyethylene Terephthalate (que é a terminologia científica do red glitter).

O segundo é o site oficial da Comissão Europeia e desta herda a mesma filosofia: é totalmente inútil e parece ter sido criado com a intenção de afastar os Leitores. Wikipédia jura que aí é possível encontrar tudo acerca dos ingredientes, mas como não tenciono ficar velho na tentativa de encontra-los, após 10 minutos abdiquei.

O site da FDA é muito bem feito mas tem dois problemas: é vocacionado para os consumidores dos Estados Unidos e está tudo em inglês.

Ler os ingredientes

Portanto, vamos resolver isto de outra forma e começamos com a leitura dos ingredientes.
  • Ordem dos ingredientes
A ordem na qual são apresentados os ingredientes é muito importante, pois indica quais ingredientes estão mais presentes no produto.
Exemplo prático:
Ingredientes: Água, Cromo, Cádmio, Alumínio.
"Água" está no começo da lista e isto significa que a água é o ingrediente maioritariamente presente no produto em questão. O Cromo está em segundo lugar, e isso significa que o segundo ingrediente mais presente no produto é mesmo o Cromo. Terceiro o Cádmio, quarto o Alumínio.
A propósito: não sei qual o produto, mas dados os ingredientes parece um pouco suspeito.
  • Linguagem
Também a linguagem utilizada é importante. Quando os ingredientes botânicos na embalagem mantiverem o nome em latim, significa que foram utilizados na preparação do produto sem alterações químicas.

Por exemplo, se na embalagem encontrarmos o termo prunus amygdalus dulcis oil (e não "óleo de amêndoas", que é a tradução) sabemos que foi utilizado o produto natural tal e qual, sem modificações que poderiam estragar a substância.
  • Corantes
No caso de todos os outros ingredientes, fruto de síntese química (artificiais), são utilizados termos em língua inglesa, portuguesa ou códigos numéricos; estes, em particular, identificam corantes artificias utilizados no produto e seguem as regras do sistema de nomenclatura Color Index: as letras CI mais 5 dígitos.
Por exemplo: CI 15510 é o corante Alaranjado II, também conhecido como laranja ácido 7, laranja 2-naftol e Orange II.

Os corantes artificiais aparecem geralmente no fim da lista dos ingredientes.
  • Tensioactivos
Outro grupo de ingredientes muitas vezes presente é aquele dos tensioactivos.
Também chamados de "surfactantes", são substâncias que diminuem a tensão superficial ou influenciam a superfície de contato entre dois líquidos.: de facto, facilitam a mistura entre os líquidos (exemplo: entre o shampoo na nossa cabeça e a água da torneira). São eles que criam a espuma.

Mas são bons ou são maus? Depende. Há tensioactivos de origem natural (como o Coco glucoside, Decyl glucoside ou o Sodium lauroyl glutamate) que não provocam problemas; e outros, de origem sintética (derivados do petróleo), que poluem e são suspeitos de toxicidade (é o caso do Sodium laureth sulfate ou o Ammoniun lauryl sulfate).

Obviamente, os produtos mais seguros são aqueles onde aparecem mais ingredientes naturais, como os óleos, indicados com a nomenclatura latina, acompanhados pelos extractos naturais e os óleos essenciais.

Regra geral: melhor limpar-se com um derivado do coco que não com um derivado do petróleo.
É uma observação banal? Será, mas espreitem nos vossos produtos de limpeza e vejam quantos contêm derivados do petróleo...

Ingredientes que devem ser evitados


Há ingredientes que é bem evitar. Porquê? Porque sim (esta chama-se "uma válida explicação").

Vamos ver quais.

  • Tensioactivos derivados do petróleo
Como vimos, melhor lavar-se com o coco e não com o petróleo. Por isso, evitar produtos com ingredientes como Sodium laureth sulfate, Sodium lauryl sulfate, Ammoniun lauryl sulfate.
  • Outro ingredientes derivados do petróleo
Além dos tensioactivos, há outros ingredientes que podem derivar do petróleo: são Paraffinum Liquidum, PEG, PPG, Mineral Oil, Petrolatum.

- Paraffinum Liquidum é a parafina, utilizada também com combustível, nas embalagens de papelão, no revestimento de queijos e frutas, nas velas, nos adesivos termofusíveis (hot melt), no papel químico, nas tintas, nas pinturas. Em cosmética encontra emprego como agente filtrante nos cremes e nos óleos para crianças.
- O PEG é o polietilenoglicol, substância utilizada também no fábrico de coletes anti-bala, para unir duas células em Biologia, em Arqueologia para a conservação dos achados de madeira. 
- O PPG é o Propilenoglicol, um hidratante também utilizado como solvente na fotografia, anticongelante, líquido de arrefecimento.
- O Mineral Oil é um óleo mineral (também chamado parafina líquida), derivado da destilação do petróleo no processo de produção da gasolina. É utilizado na cosmética por via das propriedades hidratantes, mas também na refrigeração e isolamento dos transformadores eléctricos, no transporte e armazenagem de metais alcalinos, como laxante, lubrificante e no combate a pulgões(afídios).
- O Petrolatum é a vaselina, também chamada de "gelatina de petróleo", uma parafina líquida.

Todos estes, repetimos, são ingredientes derivados directamente do petróleo, utilizados na preparação de produtos cosméticos (beleza, higiene) e devem ser evitados.
  • Ingredientes altamente poluentes (EDTA, MEA, TEA, MIPA)
O EDTA é o ácido etilenodiamino tetra-acético, utilizado para descolorir os cabelos.
O MEA é a metiletanolamina, que cria acção espumante.
A TEA é a trietanolamina, um composto organico que regula o Ph dos produtos nos quais é utilizado. 
A MIPA é uma isopropilamina, também utilizado como herbicida.

Todos estes são fortes poluentes.
  • Ingredientes altamente alergênicos ou considerados como potenciais libertadores de formaldeído
São estes: Triclosan, Imidazolidinyl urea, DMDM Hydantoin, Methylisothiazolinone, Methylchloroisothiazolinone.

O formaldeído, também utilizado para preservar os cadáveres ou como agente de esterilização, actua no osso organismo com um mecanismo que ainda não é totalmente conhecido. Conhecidos são os efeitos: exposições de longa duração a baixas concentrações podem causar dificuldade respiratória, enfisema e sensibilização. O formaldeído é classificado como carcinogênico humano e têm sido relacionado com câncer dos pulmões e nasal e com possível câncer no cérebro e leucemia.
  • Siliconas
Tais como Poliquaternium-80, Dimethicone e Amodimethicone (criam um filme que torna a pele aparentemente mais sã).

Os ingredientes utilizados na cosmética são muitos, é impossível lembrar todos os nomes. Mas alguns deles repetem-se com uma certa frequência, o que torna mais fácil a memorização daqueles que podemos evitar.


Ipse dixit.

Fontes: Meteoweb, Greenme, Wikipedia (várias páginas em português, italiano, inglês)

15 de Maio de 2013

O Brasil e a escravidão

Abro a versão online do diário Público e encontro esta notícia:
Libertados cerca de 3000 escravos no Brasil em 2012
No dia em que a lei de abolição da escravatura no Brasil celebra 125 anos, o Ministério do Trabalho e Emprego daquele país revelou que, durante o ano passado, 2849 trabalhadores foram resgatados de situações análogas às dos escravos no século XIX.

De acordo com o comunicado do ministério, foram levadas a cabo 255 acções de fiscalização que culminaram nestes resgates, que representam um aumento de 14% face a 2011. Para aquela entidade, "o aumento de número de resgatados deu-se porque as acções fiscais foram realizadas em regiões até então não inspeccionadas".

De acordo com o El País, os resgatados não só trabalhavam em grande latifúndios agrícolas como em siderurgias e estaleiros de construção civil.
É, aliás, a indústria siderúrgica a principal fonte de escravos retirados a essa condição: 150 só no estado do Pará.

"O número de resgatados está crescendo por causa de dois factores: por um lado aumentou o interesse dos estrangeiros pelo Brasil, que muitas vezes entram de maneira irregular e se envolvem em condições de trabalho degradantes. Por outro, intensificámos as fiscalizações. Logo, a tendência é encontrarmos cada vez mais estrangeiros de nacionalidades variadas vítimas desse crime", disse à BBC Brasil Renato Bignami, coordenador do programa de Erradicação do Trabalho Escravo da Superintendência Regional do Trabalho e Emprego de São Paulo.

A CIA e o mundo em 2030

A cada quatro anos, com o início do novo mandato presidencial nos Estados Unidos, o National Intelligence Council (NIC, o departamento de análise e antecipação geopolítica e económica da CIA) espreita na bola de cristal e publica um relatório que se torna uma referência.

Claro: é uma visão muito parcial, elaborada por uma agência (a CIA) cuja principal missão é defender os interesses dos Estados Unidos. Todavia, o relatório do NIC não pode ser subestimado, pois representa o resultado de estudos realizados por peritos independentes de diversas universidades e em muitos outros Países de todos os continentes.

O documento confidencial, apresentado ao presidente Barack Obama no passado dia 21 de Janeiro, acaba de ser publicado com o título de Global Trends 2030. Alternative Worlds (Tendências Globais 2030. Mundos possíveis).

O que diz este documento? Vamos ver.

A principal constatação é o declínio do Ocidente. Que como previsão não é grande coisa.
Pela primeira vez desde o século XV, os Países ocidentais estão a perder poder em relação às novas potências emergentes. Começa a fase final de um ciclo de cinco séculos de dominação ocidental do mundo. Embora os Estados Unidos continuem e continuarão a ser uma das grandes potências do mundo, perderão a hegemonia económica em favor da China. E não poderão continuar a "hegemonia militar solitária" tal como têm feito desde o fim da Guerra Fria (1989).

A direcção é aquela dum mundo multipolar no qual os novos actores (China, Índia, Brasil, Rússia, África do Sul) constituirão novos pólos regionais em contraposição ao poder de Washington e dos seus aliados históricos (Japão, Alemanha, Reino Unido e França).

14 de Maio de 2013

Vacinas: proteger-se contra o nada

É alarme sarampo na Grã Bretanha.

A epidemia alastra nas terras de Sua Majestade, em particular no País do Gales, e o site do NHS (National Health Service, o sistema de saúde britânico) fala mesmo disso: measles outbreak, surto de sarampo.
Vamos ler:
Um surto de sarampo no País de Gales é um lembrete da importância da vacinação MMR [Measles, Mumps and Rubella, ndt]. Nunca é tarde demais para que os seus filhos (ou você mesmo) sejam vacinados contra esta perigosa doença.

Se os seus filhos ainda não receberam a vacina MMR, não demore. Houve mais de 800 casos confirmados de sarampo em Swansea e o surto não mostra sinais de abrandamento.

Por que é tão importante a ser vacinadas contra o sarampo?

O sarampo não é trivial. É muito infeccioso, é doença desagradável que, em casos raros, pode ser fatal. Cerca de uma em cada cinco crianças com sarampo experimenta complicações como infecções dos ouvidos, diarreia e vómitos, pneumonia, meningite e doenças oculares. Uma em cada 10 crianças com sarampo acaba no hospital. Não há tratamento para o sarampo. A vacinação é a única forma de prevenção.
Enfim, "800 casos confirmados" não são uma brincadeira. Mas se o Leitor viver longe do País de Gales? É o caso para ficar preocupado?
Um surtos de sarampo pode acontecer em qualquer lugar, a qualquer momento, seja onde for que você more no Reino Unido, é importante que os seus filhos fiquem actualizados com o MMR e as outras vacinas infantis. [...] Se os seus filhos estiverem em idade escolar e só com uma dose de MMR, ou não foram vacinados de todo, devem ser vacinados o mais brevemente possível.
Moral: sim, fiquem preocupados, pois o Gales está aí, sempre demasiado perto.
Única dúvida: mas quanto custa  vacina?
Nada, é tudo de borla:
A vacinação MMR está disponível gratuitamente para adultos e crianças no NHS.
Sorte nossa, assim ficamos protegidos sem gastar um tostão.
Mas protegidos contra o quê? Contra o nada: não há nenhuma epidemia de sarampo na Grã Bretanha.

Site da World Health Organization (WHO), a Organização Mundial da Saúde, número de casos de sarampo (measles) no Reino Unido da Grã Bretanha e Irlanda do Norte, período 2008-2013:

(click para aumentar!)

No ano passado houve o mesmo número de casos do que em 2008. E em 2008 ninguém tinha lançado o "alarme sarampo". E os "800 casos confirmados" em Swansea? Desaparecidos.

Artigo do Dr. Attilio Speciani, especialista em Alergia e Imunologia Clínica, Anestesia e Cuidados Intensivos, que trabalha na Italia e no Reino Unido:
Estando eu registado como médico não só na Itália, mas também no Conselho Britânico de Medicina Geral, e trabalhando tanto em Milão quanto em Londres, fiquei intrigado com a notícia [do surto de sarampo, ndt] e simplesmente quis verificar a veracidade das fontes, fazer uma avaliação comparativa dos casos britânicos de sarampo nos últimos anos.

Primeiro de tudo, quis descobrir qual a posição da Organização Mundial da Saúde, que normalmente segue de forma consistente e com precisão os dados diários de qualquer "surto" infeccioso em todo o mundo. Tal como aconteceu com a gripe SARS ou a Gripe Suína, a OMS recolhe com precisão todos os dados sobre os novos casos e comunicá-los logo, a fim de impedir a circulação inesperada das doenças infecciosas virais e informar prontamente a população .

No site da OMS (OMS), há uma secção específica dedicada às News sobre a doença, e outra parte específica dedicada ao controle sistemático da disseminação do sarampo. Com um pouco de surpresa (mas nem muita), descobri que a OMS não dá praticamente nenhum realce a esta suposta epidemia.

Também fornece os dados, que todos podem consultar livremente. [...] Os dados são muito claros: há, talvez, um modesto aumento dos casos desde o final de 2012 até hoje no Reino Unido, com nenhuma prova de epidemia. De fato, a OMS nada realça... Repetimos: não é que não repare nisso, simplesmente não realça o facto como realmente epidémico, considerando-o uma simples flutuação estatística.

Se entrarmos no site do Sistema Nacional de Saúde britânico [o NHS, ndt], somos recebidos por um frasco da vacina MMR e levados para duas secções principais: uma que fala da vacinação e da campanha lançada no passado 25 de Abril para vacinar, pelo menos, um milhão de crianças com idade entre 10 e 16 anos, e uma que tem o título de "Sarampo: os factos documentados", que se analisada por um médico ou um pesquisador provoca uma nuvem de dúvidas muito pesadas.

Na área dedicada aos "factos documentados" é possível ler dos riscos do sarampo e afirma-se que a única maneira de combater a doença é a vacinação (ninguém fala das defesas imunitárias autónomas) [...]. Não há um dado sobre a real extensão da epidemia e nenhuma tabela de comparação dos dados com os anos anteriores.

Esse tipo de informação não é dada para ajudar as pessoas a decidir, mas para empurrá-las a não procurar dados (completamente ausentes nessas páginas), e quando após o quarto click, passando para um link externo da Health Protection Agency que é chamado somente "Sarampo", finalmente tivermos um pdf com alguns dados acerca dos últimos três anos, vemos que a maior incidência de sarampo têm sido sempre entre Novembro e Março e que em Maio os casos (como está a acontecer agora, neste período) sempre foram diminuindo até quase a desaparecer.

Mas há mais. A partir dos dados do pdf podemos também observar como as crianças mais afectadas  hoje são aquelas entre os 14 e os 15 anos, as mesmas que quando em 2003 tinham 5 anos foram vacinadas em 92% dos casos.
Vice-versa, as crianças com agora idades entre 9 e 10 anos, que foram vacinadas um pouco menos (entre 85% e 87% do total) são aquelas que hoje contraem menos sarampo.

Mais uma vez: as vacinas são todas inúteis? Não, não é verdade. Mas, como observa o mesmo Speciani:
A minha sensação é que hoje estas batalhas não são combatidas atrás do microscópio ou nos consultórios médicos, mas directamente em Wall Street ou na bolsa de valores em Zurique e peço para que todos considerem cuidadosamente as notícias obsessivas ao longo dos próximos meses, pois muitos sinais de negação na liberdade de escolha sanitária estão a surgir em todo o mundo e a primeira defesa decorre principalmente do facto de estarmos informados e do conhecimento.
Nem mais.


Ipse dixit.

Fontes: NHS (1, 2), WHO, Health Protection Agency: Measles cases in England: January to March 2013 (ficheiro Pdf), Eurosalus
,

13 de Maio de 2013

Trabalho: é o princípio que conta

Nos Estados Unidos as coisas melhoram.
Devagarinho, abaixo das expectativas, mas melhoram.

E poderiam melhor ainda mais sem um verdadeiro exército de parasitas que enfraquecem o País.

Quem é este exercito? Simples: as crianças. Este conjunto de pequenos homens e mulheres que nada fazem em prol do bem comum e que limitam-se a sugar o fruto do trabalho dos outros; estes predadores com caras de anjinhos que desperdiçam a riqueza do Estado Federal.

Mas os tempos mudam e finalmente há pessoas que falam: chegou a altura de acabar com estes vampiros em miniatura. Ray Canterbury é um republicano da Virgínia Ocidental que quer enfrentar e resolver o problema. Sem cerimónias, sem medo.
Eu acho que seria uma boa ideia ter crianças que trabalham para os seus almoços: lixo para ser retirado, corredores para ser varridos, relva para ser cortadas, fazê-los ganhar.
Justo. Estes parasitas sentam-se e esperam: sabem que há sempre um coração de manteiga que entrará na escola com uma refeição quente. Uma família em cada duas ainda consegue juntar algo para comer com os Food Stamps, as almas pias sabem disso e as crianças desfrutam estas tristes condições para provocar um sentimento de piedade, ternura, doçura, tudo o que acabar em "-ura".
E comem, de graça.

8 de Maio de 2013

O estranho mundo de Wikipédia

O artigo de Wikipédia acerca da Síria é uma pequena obra-prima e vale a pena analisa-lo.
Envolvimento estrangeiro - Apoio a oposição.
Guerra Civil Síria (às vezes referida como Revolta Síria ou ainda Revolução Síria) é um conflito interno em andamento na Síria, que começou como uma série de grandes protestos populares em 26 de janeiro de 2011 e progrediu para uma violenta revolta armada em 15 de março de 2011, influenciados por outros protestos simultâneos no mundo árabe.
As manifestações populares por mudanças no governo foram descritas como "sem precedentes". Enquanto a oposição alega estar lutando para destituir o presidente Bashar al-Assad do poder para posteriormente instalar uma nova liderança mais democrática no país, o governo sírio diz estar apenas combatendo "terroristas armados que visam desestabilizar o país".
Primeira conclusão: na Síria há um conflito interno ("Guerra Civil") desencadeado pelos cidadãos ("grandes protestos populares") que querem "mudanças no governo" na óptica democrática ("uma nova liderança mais democrática"). Nada mal como começo.

7 de Maio de 2013

Os Leitores pedem sangue

Vozes levantam-se entre os Leitores: "Basta, basta com esta economia toda, já não aturamos mais,
tratamos de algo mais leve, mais divertido: que tal uma guerra?".

Os Leitores pedem sangue? E que sangue seja.
Todavia...

Todavia não concordo. A maior parte das guerras tem como razão questões económicas. Que muitas vezes são disfarçadas com motivações religiosas, humanitárias e mais ainda. Mas é o dinheiro que está na base.

Pegamos em dois exemplos "clássicos": Afeganistão e Mali. Alguém acredita que os Estados Unidos invadiram o Afeganistão para combater o terrorismo? Realmente há Leitores que pensam nisso? Acho que não, temos todos maior idade e estamos vacinados, por isso é óbvio que o País asiático foi ocupado por outras razões. Sejam elas o ópio, o petróleo ou o controle da Euroásia, na base está sempre ele: o dinheiro.
E o Mali? As minas de ouro, urânio, fosfatos, manganês e bauxita controladas pelas empresas francesas e americanas explicam muito bem as razões do conflicto, não é preciso acrescentar nada.

Uma vez entendido isso, ficam claras não apenas as motivações das guerras mas também o desfecho. Se na base houvesse desentendimentos exclusivamente políticos ou religiosos, seria possível encontrar um acordo entre as partes. Mas na base há o controlo dos recursos, o dinheiro, portanto a parte mais potente no conflicto utilizará todos o recursos possíveis para ganhar. E ganhará, disso não tenham dúvida.

6 de Maio de 2013

Algo acontece

Sim, eu sei, já falámos do assunto. Mas algo não bate certo.

Por exemplo: Algirdas Šemeta é vivo. Quem é este? É o Comissário Europeu para a Taxação, o fulano que quer ressuscitar uma proposta para suprimir o secreto bancário. Se a proposta passar, os bancos (todos os bancos) terão que abrir os ficheiros e entregar às autoridades nomes, contas, tudo. Hedge Funds, Private Equity Partners, etc.

Por isso, o facto de Algirdas Šemeta é sem dúvida digno de nota.

Isso acontece depois do dossier NAV. O que é isso? É uma proposta de regulamentação para um sector que só na Europa "pesa" 490 biliões de Euros, 5.000 biliões no mundo. São os fundos que permitem as Repo Ops, contractos muitos utilizados pelos bancos. Dito assim nem parece grande coisa, mas vamos repetir qual o montante em causa: 5.000 biliões de Euros. 6.500.000.000 Dólares. 13.000.000.000 Reais.

A Comissão Europeia afirma que os NAV representam um risco sistémico, o que é verdade, mas não é este o ponto: o ponto é que os NAV são essenciais aos bancos. Sim, verdade: a política deveria tomar o controlo da Finança e bla bla bla. Mas esta é a teoria, na prática sabemos que acontece o contrário: é a Finança que controla a politica.

5 de Maio de 2013

Administração Pública: algumas ideias

Diz o nobre Nemo:
Gostaria de ver um post sobre porque é que a função pública não funciona bem e que soluções propõe para a tornar "moderna e eficiente".
Bem visto: criticar é bom, mas propor é bem melhor.
Então vamos ver quais as possíveis medidas para tornar uma máquina do Estado mais funcional.
Algumas ideias:
  • Formação das chefias
  • Consultoria dos privados 
  • Revisão do sistema de remunerações
  • Informatização total dos serviços, com software open source
  • Crowdcollaboration
  • Fiscalização anónima dos serviços
  • Aumento dos canais de interface Administração Publica /Utente
  • Introdução da auto-certificação e balcões automatizados.
  • ID da prática
  • Análise/Colaboração com Administrações Públicas estrangeiras
  • Despedimentos

4 de Maio de 2013

Portugal: as novas medidas (mais do mesmo)

Diz o sábio Krowler:
Hoje lá foram mais uns direitos adquiridos, entre os quais o aumento da idade da reforma, que passa para os 66 anos.
Os avozinhos, muitos dos quais são responsáveis por este governo existir, levaram mais um revés. Agora têm de se esforçar mais um ano para conseguirem finalmente dedicar todo o seu tempo ao consumo de programas TV tipo fast food.
Curiosamente não só não fazem nada para defender os adquiridos, mas muitos ainda concordam com esta linha de gestão financeira do país.

Nada mais a dizer.
Pois.
O Primeiro Ministro de Portugal apresentou ontem as novas medidas: Pedro Passos Coelho diz ter chegado a altura de "carregar no acelerador", o que faz um certo sentido: nesta altura, melhor acabar o trabalho e partir o País contra a parede duma vez por todas.
Idade de reforma mantém-se nos 65 anos, mas a reforma sem penalização só será possível aos 66 anos.
Pessoalmente adoro esta medida, quinta-essência do espírito democrático. A ideia é "escolhe livremente e sem pressões: podes entrar na reforma aos 65 anos e perder dinheiro ou aos 66, como nós sugerimos, e levar o dinheiro todo".
Uma medida que faz todo o sentido, sendo que o desemprego tornou-se uma prioridade para este governo: é sabido que quanto maior for a idade da reforma, quanto mais simples será encontrar um trabalho. Isso, claro, segundo os cálculos de Reinhart e Rogoff.

3 de Maio de 2013

Capuchinho Vermelho e os Direitos

- Bom dia Capuchinho Vermelho - disse o lobo enquanto apoiado a uma árvore fumava uma Luky Strike. - É um dia bonito, não é?

Capuchinho desviou o olhar das flores do campo e olhou para o lobo: - Minha Nossa Senhora Santíssima da Saúde, um lobo! Um autêntico lobo mau! Socorroooo!!!
- Calma, calma Capuchinho, fica descansada. Estou aqui, na máxima descontracção, e só me apetecem dois dedos de conversa. E podes esquecer o "mau": sou lobo, sim, mas sou bom, muito bom.

Capuchinho olhou para o lobo: de facto estava parado, na boa. Tinha os olhos pérfidos, quase fechados tanto eram subtis, mas o ar geral parecia...descontraído, como ele tinha dito.
- Por exemplo: onde é que vais com o saco do supermercado? Se não estou a ser indiscreto, óbvio. - disse o lobo olhando os anéis de fumo que flutuavam para o céu.
- Vou...vou levar comida para a minha avó. - respondeu Capuchinho com voz trémula.
- Ah, sim, a velha, pois... - disse pensativo o lobo: - E posso saber qual a razão?

2 de Maio de 2013

Uma t-shirt vermelho sangue

Quarta-feira, 24 de Abril: uma fábrica no Bangladesh rui, matando mais de 300 trabalhadores. Um dia
antes, as autoridades tinham pedido aos proprietários para evacuar o prédio, uma fábrica de roupa que dava emprego a cerca de três mil trabalhadores.

O prédio, o Rana Plaza localizado no subúrbio de Dhaka Savar perto de Dacca, era uma anel da corrente que liga os campos de algodão do sul da Ásia com os pontos de venda dos Países mais avançados: muitas marcas famosas eram preparadas aqui, tal como a Wal Mart, a Benetton, Primark, Mango, Matalan, Premier Clothing. As equipes de resgate conseguiram salvar duas mil pessoas, mas mais de trezentos morreram.

No Ocidente lembramos com horror o incêndio da Triangle Shirtwaist, em New York, quando em 1911 um total de 146 trabalhadores perderam a vida. Em Bangladesh o número de mortos é mais do que o dobro. E o Rana Plaza ruiu cinco meses depois do incêndio em Tazreen que matou pelo menos 112 trabalhadores.

A lista dos "acidentes" é longo e doloroso.
Em Abril de 2005, uma fábrica de roupa em Savar ruiu, matando 75 trabalhadores.
Em Fevereiro de 2006, outra fábrica em Dacca ruiu, matando 18 trabalhadores.
Em Junho de 2010, um prédio ruiu em Dacca, matando 25 trabalhadores.

1º de Maio

Excerto do livro Stranger than Fiction, do Professor Leo Nardo (Universidade de Colares, Portugal), que tem como assunto uma pesquisa relacionada com o dia 1 de Maio:

No continente europeu esta é uma festividade que interessa a um pequeno grupo de indivíduos em rápida via de extinção: apesar dos programas de protecção, os Trabalhadores são cada vez menos e existe uma forte preocupação quanto à possibilidade de poder salvar a espécie.
Caso emblemático é o da Espanha, onde as últimas manadas de Trabalhadores bravos foram observadas ao longo do ano 2012, enquanto pastavam na Meseta, não longe de Madrid.

Muito grave também a situação em Portugal: apesar dos hábitos mais calmos dos Trabalhadores de raça Lusitana, o stress, as condições de vida e a poluição política provocaram uma forte redução dos indivíduos e as perspectivas de médio e longo prazo não são animadoras. Mesma situação em outros Países, como na Italia, por exemplo, enquanto em outras zonas, tal como a Grécia, a extinção da espécie chega a ser oficial.

O WWF apresentou às Nações Unidas um projecto que prevê a criação de áreas protegidas, nos arredores das grandes cidades (o habitat natural dos Trabalhadores), mas problemas orçamentais podem inviabilizar o programa de preservação.

O mesmo WWF, em colaboração com Greenpeace, publicou um breve guia para que seja possível observar e até lidar com uma espécie delicada, de antigas origens e que ainda hoje suscita uma forte curiosidade no seio da comunidade científica.

29 de Abril de 2013

Holanda e pedofilia

Desde os primeiros dias de Abril, internet enlouquece com a ideia de que na Holanda a pedofilia teria
sido legalizada como resultado dum acórdão do Tribunal de Recurso.

É isso que se passou?
A resposta é "Não". Na Holanda a pedofilia continua a ser um crime, tal como a difusão de imagens (fotografias, vídeos) ligadas ao âmbito pedófilo.
E ainda bem.

Todavia...

Os factos

Em 27 de Junho de 2012, o tribunal civil em Assen, em primeira instância, havia decretado a dissolução da associação Martijn (Vereniging Martijn, na qual militava também um padre católico), fundada em 1982, observando que as suas propostas sobre o contacto sexual entre adultos e crianças eram contrárias às normas e aos valores da sociedade holandesa.

A associação Martijn defendia a possibilidade de consentimento e prazer mútuo nas relações sexuais entre adultos e crianças ou adolescentes e negava, como premissa básica, que elas sejam prejudiciais para os menores, contra o que considerava um "dogma" sem fundamento científico. Desde essa perspectiva, a associação defendia a aceitação social da pedofilia e a legalização das relações sexuais entre adultos e menores, sem limite de idade.

28 de Abril de 2013

Há coisas que não mudam

Dallas, EUA, 1963

- Chefe, temos que tramar um gajo com o homicídio do Presidente.
- E quem é este?
- Um tal Oswald.
- E como é que teria morto o Presidente?
- Com uma carabina.
- Então, Smith, não há crise: ponham o recibo de compra da carabina na secretária dele.
- Genial, Chefe, genial!
- Pois, é por isso que sou chefe...

E foi assim que a policia encontrou na secretária de Oswald o recibo da carabina Mannlicher-Carcano adquirida três meses antes via correio.

- Chefe, pensava...sabe, este é um caso duma certa importância...o recibo não será pouco?
- Achas? Então tira uma foto de Oswald com a carabina.
- Ó Chefe, Oswald está morto, lembra-se? Enviámos o Ruby...
- Eu sei que está morto. Smith, nunca ouviste falar de fotomontagem?

Nasceu assim a fotografia de Oswald com a carabina na mão e a sombra do nariz diferente das sombras do ambiente.


Duas provas: agora sim que o caso podia considerar-se fechado. 

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...