29 março 2017

A guerra no Yemen

Os media continuam a ignorar aquela que é uma guerra sangrenta. A foto acima (e o vídeo no fundo do artigo) mostra o protesto do dia 26 de Março deste anos em Sanaa, a capital do Yemen: cerca de 1 milhão de pessoas contra a guerra que Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Reino Unido e Estados Unidos estão a travar no País há dois anos.

New York Times, Washington Post, para não falar dos diários europeus, em silêncio. Grande realce no caso das 8.000 pessoas que desfilaram em Moscovo, lideradas pelo racista e ultra-nacionalista Navalny. Mas do milhão de pessoas no Yemen nada.

28 março 2017

Navalny, o mártir

Alexey Navalny
Fala-se muito nestas horas da violência das autoridades da Rússia contra os pobres manifestantes das ruas.

Em particular, espanto por causa do tratamento reservado ao líder das manifestações, Alexey Navalny, promovido no campo qual mártir da democracia.

Tanto para repor as coisas na justa óptica, vamos lembrar quem é o simpático Navalny.

Formado na universidade norte-americana de Yale, foi escolhido qual membro do Greenberg Fellows Program World, um programa criado em 2002 para o qual são selecionados a cada ano em todo o mundo apenas 16 pessoas com características que podem fazer delas "líderes globais".

Este líderes in pectore fazem parte duma rede de "líderes mundiais que comprometeram-se a tornar o mundo um lugar melhor", composto atualmente por 291 bolsistas de 87 Países, em contacto uns com os outros e todos conectados com o Centros de Yale.

Navalny é também co-fundador do movimento Alternativa Democrática, um dos beneficiários do
National Endowment for Democracy (NED), poderosa fundação privada sem fins lucrativos dos EUA que, com fundos fornecidos pela Congresso dos EUA, financia abertamente ou às escondidas milhares de organizações não-governamentais em mais de 90 Países para "promover a democracia".

Se procuram a origem da guerra na Ucrânia, olhem para a NED: foi esta que organizou a revolução colorida (a "Revolução de Maidan") que derrubou o governo corrupto com o resultado que agora em Kiev há um um governo ainda mais corrupto, cujo carácter democrático é bem representado pelos neonazis que ocupam as posições-chave do País.

Moscovo 2017
As origens do simpático Navalny estão todas aí e não é um acaso que em 2011 ele tenha organizado a "Marcha Russa", que Radio Free Europe descreveu como "um desfile unindo de grupos nacionalistas russos de todos os tipos": na ocasião, Navalny apareceu como orador ao lado dos neonazis russos.

E mais: no caso da manifestação convocada por Navalny, Moscovo tinha concedido a autorização para que a manifestação fosse realizada em outras áreas da cidade, as mesmas zonas onde os eventos públicos ocorrem frequentemente. O simpático Navalny conduziu os seus partidários no centro da cidade, com o evidente intuito de provocar as autoridades e obter o inevitável acidente.

Também curioso é pensar que também no mundo ocidental e nas modernas democracias liberais, qualquer manifestação realizada em locais não autorizados é normalmente bloqueada pela polícia, exactamente como aconteceu nestes dias na Rússia.

Washington 2016
Em 11 de Abril de 2016, nos EUA, 400 pacíficos manifestantes que protestavam contra a corrupção
foram presos fora da Casa Branca com a mesma acusação: "manifestação ilegal".

O presidente era Barack Obama, mas nenhum membro da comunidade internacional e nem as ONGs para os Direitos Humanos disseram algo. Nenhuma reação ou condenação relevante.

Vice-versa, em Moscovo um idêntico facto se torna um incidente diplomático internacional e mediático.

Muito curioso mesmo.


Ipse dixit.

Fontes: Reuters, Il Manifesto (via Come Don Chisciotte), Radio Free Europe, The New York Times

Mais armas aos cidadãos = mais crimes

Este vídeo é dedicado a todos os que "armas aos cidadãos contra o Estado assassino!".

ATENÇÃO
O seguinte vídeo contém imagens que podem ferir a sensibilidade do espectador. 
Ficam avisados. Depois não venham com coisas do tipo "Epá, mas fez-me impressão, poderias ter avisado, não é?". Eu avisei. Se forem sensíveis não olhem. Ou olhem com uma mão na frente dos olhos.   


Este vídeo foi filmado pela polícia de Tulsa e mostra o momento em que uma rapariga de 21 anos foi atropelada e morta por um policia. Aconteceu depois dela abrir o fogo contra oficiais ao fim duma perseguição de alta velocidade.

Madison Sueann Dickson morreu em Tulsa, Oklahoma (EUA), depois que o oficial Jonathan Grafton a atingiu com o seu carro patrulha para impedir que disparasse contra a polícia. A Dickson era procurada pelas autoridades por causa de quatro incidentes relacionados com armas de fogo, sempre em Tulsa, durante a semana passada.

A polícia divulgou este vídeo na última Quinta-feira à tarde: é constituído por três vídeos que foram juntados. À primeira vista não fica claro o que a Dickson segura na mão direita até que o vídeo é abrandado e um círculo vermelho mostra a arma.

Quantos destes acidentes ocorreriam se as armas fossem dadas ao "povo"? Quantos polícias seriam mortos também? E os inocentes presos numa troca de tiros? Uma maior difusão de armas não traz benefício nenhum. Pelo contrário.

O caso Brasil

Olhamos para o caso do Brasil.
O País tem entre 16.800.000 e 17.600.000 armas de fogo na posse da população (não são contabilizadas aquelas da polícia ou do exército), das quais cerca de 9 milhões não registradas. Isso perfaz uma média de uma arma por cada 12 habitantes (dados arredondados) e coloca o Brasil na lista dos 40 Países com a mais alta quantidade de armas de fogo.

Segundo os apoiantes das "armas para todos", o País deveria ser um daqueles com menos crimes, porque os cidadãos podem defender-se (lembramos que os criminosos não costumam utilizar armas registradas e as armas ilegais no Brasil são cerca de 9 milhões).

Curiosamente, segundo Wikipedia, o Brasil está também na Top 40 dos Países com a mais alta taxa de homicídios intencionais. O que contradiz a equação "mais armas aos cidadãos = menos crimes". Na realidade, a equação é "mais armas aos cidadãos = mais crimes".

Top 40 dos Países com a mais alta taxa de homicídios intencionais.? Errado: Wikipedia utiliza dados de 2007. Vamos dar uma vista de olhos em análises mais recentes. Como relatado no Mapa da Violência 2016 de Julio Jacobo Waisel, o Brasil ocupa a 10ª posição global por taxa de homicídios por cada 100 mil habitantes.entre 100 Países.
E acrescenta o autor do estudo:
Podemos observar, na Tabela 10.1 [a publicada acima, ndt], que o Brasil, com sua taxa de 20,7 homicídios por arma de fogo por cada 100 mil habitantes, ocupa uma incômoda 10ª posição entre os 100 países analisados. Mais ainda, comparado com países tidos como civilizados, o Brasil apresenta taxa:
  • infinitamente superior à de muitos países que não registraram HAF [Homicídios por Armas de Fogo, ndt] no ano de referência, como Islândia, Japão, República da Coreia, Luxemburgo, Escócia, Inglaterra e Gales, etc.
  • 207 vezes maior que a de países como Polônia, Alemanha, Áustria, Espanha, Dinamarca, dentre outros, que registram 0,1 HAF por 100 mil
  • 103 vezes maior que a de Suécia, Noruega, França, Egito ou Cuba, dentre vários outros países com taxas em torno dos 0,2 HAF por 100 mil habitantes.
Caso haja dúvidas, eis a lista dos Países ordenados segundo homicídios e taxa de armas pro capita (dados de 2017: é melhor ampliar para poder ler):

Em azul os homicídios, em laranja as armas por cada 100 habitantes.

Aqui o Brasil ocupa a 8ª posição, mas o dado mais interessante acho ser outro: quanto maior forem as armas por cada 100 habitantes, tanto maior será o número de homicídios. Há só três significativas excepções: os EUA, que têm o maior número de armas mas ocupa "apenas" a 18ª posição quanto aos homicídios; a Sérvia, que tem o segundo maior número de armas (mas os recentes eventos históricos podem justificar isso) e um número de homicídios relativamente baixo; e a Suíça, a terceira nação do mundo por número de armas mas, na prática, sem homicídios (o que não me admira, conhecendo os Suiços...).

Quanto ao resto, é fácil observar como o gráfico reflecta a equação "mais armas aos cidadãos = mais crimes". E a coisa não pode surpreender: imaginem entrar com um fósforo ligado numa cave vazia: não há perigo. Imaginem agora entrar com o mesmo fósforo numa cave cheia de tanques de gasolina: acham que o perigo de acidentes será maior? Com as armas é o mesmo.

Ainda o estudo de Julio Jacobo Waisel: após a aprovação do Estatuto do Desarmamento, as mortes por armas de fogo atingiram o pique (2012: 42.416 mortos) dum crescimento começado em 1980. Mas a seguir foi anulada a tendência de crescimento anual dos homicídios de 7,2% e foi reduzido o número de assassinatos nos primeiros anos de implantação.

Com isso, segundo a pesquisa, 160.036 vidas foram poupadas no período de 2004 a 2012. Os jovens de 15 a 29 anos foram os principais beneficiários da mudança na legislação, com 113.071 vidas salvas.

Valeria a pena tamanha perda de vidas em nome da alegada possibilidade para defender-se (ver gráficos acima) ou duma ilusória "revolução" contra os poderes fortes (revolução que nunca acontece)? O Brasil fica entre os Países com mais armas pro capita: é por isso um País mais seguro daqueles onde há menos armas? É um País onde há mais liberdades civis, onde o poder está decididamente nas mãos dos cidadãos? Não parece.

O caso EUA

Ainda mais impressionante é o caso dos Estados Unidos. Mesmas perguntas: mais segurança, mais
direitos, mais poder aos cidadãos? Também aqui: não parece.

Então surge a pergunta: além de favorecer os produtores de armas (que agradecem), quais outras vantagens traz o facto de ter cidadãos armados?

Uma boa resposta surge da História, mais uma vez dos Estados Unidos. No século XIX, a maioria dos cidadãos do Velho Oeste estavam armados: por questões de defesa pessoal, para poder assassinar melhor os nativos, etc. Uma situação ideal para quem propõe mais armas para o povo.

Todavia, as grandes forças capitalistas sediadas sobretudo na Costa Leste conseguiram introduzir mudanças políticas, económicas e sociais que tornaram os EUA o que são hoje: um País onde ainda há um enorme número de armas na posse dos cidadãos mas onde o povo mal sabe o que se passa nos corredores do poder.

Hoje os jovens americanos são enviados para guerras em Países distantes a morrer por causas que não lhes pertencem, e nem é esta a primeira vez (houve o Vietname, a Coreia, etc.). Os media são controlados por um punhado de corporações que selecionam cuidadosamente o tipo de informação difundida. As ruas das metrópoles estão cheias de mortais substâncias estupefacientes cujas plantações são defendidas pelo governo em Países estrangeiros (Colômbia, Afeganistão, etc.). É possível organizar atentados, até espantosos (JFK, 9/11), sem que nunca sejam individuados os verdadeiros mandantes ou esclarecidas as derradeiras motivações. E tudo gravita em volta não do bem estar do indivíduo ou das comunidades mas apenas do dinheiro.

Mas não deveria ser assim, pois os norte-americanos têm armas, e muitas: são os cidadãos com mais armas no planeta. Mas nunca houve uma revolta popular nos EUA, nunca os cidadãos pegaram nas armas contra as más decisões do poder político ou económico. Até a única guerra civil do País (a Guerra de Secessão) foi "encomendada". Os norte-americanos até engoliram a pior crise económica (a Grande Depressão) sem levantar um só dedo, apesar de terem sido claras já na altura as reais causas do desastre (bancos). E o mesmo repetiu-se na mais recente crise de 2007.

A chave não são as armas: o que conta é controlar o cérebro de quem as empunha. É possível estar entre os cidadãos mais bem armados do planeta e, mesmo assim, ser conduzidos tal como uma criança. Não é uma teoria, são dados e factos.

As armas apenas dão uma ilusória sensação de potência se não forem acompanhadas pela maior arma de todas: o conhecimento.


Ipse dixit.

Relacionados:
Das armas
EUA: 24 mortos na escola. Azar.
Dicas: como proteger uma criança na escola

Fontes: Small Arms Survey 2007 (idioma inglês com Pdf descarregáveis em Português), Gun Policy, United Nations Office on Drugs and Crimes - Intentional homicide count and rate per 100.000 population by country/territory (2000-2012) (atenção: este estúpido ficheiro descarrega logo!), Julio Jacobo Waisel - Mapa da violência 2016 (ficheiro Pdf, português).

27 março 2017

O moderno comércio de carne humana


No gráfico abaixo é possível observar a rota do navio Aquarius no passado dia 21 de Março, tendo este partido das costas da Líbia e tendo mais tarde chegado ao porto de Catania (Sicilia, Italia) após uma paragem na ilha de Malta:

Mais em detalhe, eis o percurso com dias e horários:


Naqueles dois dias, o navio Aquarius recolheu 946 pessoas de Bangladesh, Nigéria, Costa do Marfin, Guiné e de outros Países, todos indivíduos rigorosamente sem vistos para poder entrar na Europa, e desembarcou-as na Sicilia, onde entraram num campo para refugiados.

O navio Aquarius pertence à SOS Mediterranee, uma ONG alemã com uma vontade irresistível de deportar pessoas dum continente para outro. É um daqueles navios que depois aparecem na televisão com a legenda "Salvos no meio do Mediterrâneo". Não é no meio do mar que estes imigrantes clandestinos são recolhidos, mas a poucos quilómetros das costas líbias e comprova-lo é simples.

Com a ajuda de Marine Traffic, site especializado no traçamento de navios com relativas rotas, eis as posições de outros navios negreiros que pertencem a OGNs (posições de hoje, 25.03.2017 às 13 horas):

 



Todos os navios se encontram numa área bem definida, poucos quilómetros ao largo das costas da Líbia: tão próximas que é possível vê-las a partir das praias. No caso da Sea Wathch 2, os clandestinos nem a fadiga de molhar-se têm que fazer, dado que o navio já se encontra no porto.

E estes são apenas alguns dos navios interessados (no total são cerca de 15). Portanto, estamos perante um enorme serviço de deportação, milhares de clandestinos que diariamente são recolhidos na África e transportados nos centros de acolhimento europeus (nomeadamente italianos).

Mas quem são estas ONGs? Em nome de quem operam?

O navio Aquarius pertence à ONG SOS Mediterranee (ONG alemã), a qual opera em colaboração com a Cospe, associação "humanitária" (uma ONLUS) italiana. O site de SOS Mediterranee é bem pouca coisa e nem especifica donde provenham os seus fundos. Eis, pelo contrário, a proveniência dos fundos da Cospe para o ano de 2015 (o último disponível):

Portanto, 88% de dinheiro público que financia esta ONG (mais 15% de privados: o total perfaz 103% nesta estranha matemática humanitária...). E, em grande medida (52%), é a União Europeia que paga o tráfego de carne humana, aquela mesma União Europeia que depois fala de "emergência imigrantes". Obviamente não falta a ONU e outras organizações internacionais.

Outras organizações empenhadas no negócio são: MOAS, Jugend Rettet, Stichting Bootvluchting, Médicos sem Fronteiras, Save the Children, Proactiva Open Arms, Sea-Watch.org, Sea-Eye, Life Boat.

Além de Médicos Sem Fronteiras (um pequeno império financiado também pelos governos de muitos Países ocidentais - EUA in primis-, ONU, etc.;) e Save The Children (fundos de Ikea, Johnson & Johnson, Procter&Gamble mais governos - 57% -  e corporações - 13%), não é claro quem são os financiadores das restantes organizações e visitar as respectivas páginas internet não adianta pois os orçamentos ou não são publicados ou reúnem as doações sob um vago "privados" ou "outros".

O procurador de Catania, Carmelo Zuccaro, abriu recentemente um processo de investigação:
Queremos saber sobre a evolução do fenómeno e a razão pela qual há a proliferação desses navios e como podem lidar com custos tão elevados sem ter um retorno em termos de lucro económico.
O que emergiu é que o País europeu que dá origem à maior parte dessas ONGs é a Alemanha, que hospeda cinco dessas organizações com um total de seis navios (incluindo dois de Sos Mediterranee). Mas tudo, como salienta Zuccaro, tem custos mensais ou diários elevados. O navio Aquarius de Sos Mediterranee, por exemplo, tem um custo de 11.000 Euros por dia. Os navios do MOAS, de Christopher e Regina Catrambone (ONG com sede em Malta), são o Phoenix com bandeira do Belize e o Topaz com bandeira das ilhas Marshall: custam 400.000 Euros mensais.

Continua Zuccaro:
Cria suspeitas também o dado dos Países que concedem as bandeiras. Devemos fazer a pergunta de onde está o dinheiro para suportar tais custos elevados, quais são as fontes de financiamento. Será a tarefa da próxima fase da investigação. Vamos continuar a verificação das ONGs que trazem os migrantes para o nosso distrito.
Seis milhões de deportados

Taco Dankers é um activista da Gefira; esta também é uma ONG mas deu-se um objectivo diferente: controlar o que fazem as outras ONGs, nomeadamente aquelas empenhadas no comércio dos migrantes. Por isso, reconstruiu os movimentos em 12 de Outubro de 2016 do navio Golfo Azzurro, com bandeira panamense mas operado pela ONG holandesa Boat Refugee.

De acordo com os dados, o navio partiu de manhã cedo em direção da Líbia, várias horas antes de ser lançado um SOS por parte dos barcos dos migrantes. Só perto das 19 horas o centro de coordenação marítima de Roma sinalizou ao Golfo Azzurro e a outros três navios "humanitários" que havia um SOS dum barco carregado com migrantes. Perto das 21 horas começou a operação de resgate de 113 pessoas, com 17 desaparecidos. 12 horas no meio do mar à espera dum SOS?
Fonte: Gefira
Há outro facto estranho: pouco antes das 21 horas, um rebocador italiano (o Mergez) partiu de Mellitah, na Líbia, e dirigiu-se para o ponto a 8.5 milhas náuticas ao largo da costa da Líbia onde logo teria começado o resgate. Mas chegado a uma distância de 6 milhas da costa inverteu o caminho e voltou para Mellitah: impossível que não tenha visto o barco em perigo. Assim Gefira avança uma hipótese: o barco italiano atirou para o mar alguma "carga" humana e o Golfo Azzurro sabia que isso iria acontecer?

Mais factos: no dia seguinte, os diários deram a notícia do resgate "no Estreito da Sicília", o que sugere um ponto bem mais a Norte do que aconteceu (ainda em águas territoriais líbias). O Golfo Azzurro também poderia ter transportado os imigrantes para o porto mais próximo, Zarzis na Tunísia, 65 milhas a Oeste: claro, não teria sido um desembarque agradável para aqueles que pagaram milhares de Euros para chegar em território europeu, mas a Golfo Azzurro deveria ser um navio de socorro, não um ferryboat.

Gefira continua as análises e os resultados mostram como o comércio de carne humana tenha crescido 57% nos primeiros meses de 2017 quando comparado com o homólogo período do ano anterior.

Dimitris Avramopouloem
Mas tudo isso não tem que surpreender: como revelou o comissário europeu Dimitris Avramopouloem em Genebra no princípio deste mês (07 de Março de 2017), o objectivo é criar pontos de embarque nas praias africanas para receber 6 milhões de pessoas nos próximos anos: isso para compensar o encolhimento da população europeia.

E um recente documento publicado pelo diário alemão Die Welt revelou uma cláusula do acordo estipulado entre a Chancelera Alemã Angela Merkel, o Primeiro Ministro holandês Mark Rutte e o Presidente turco Erdoğan acerca dos refugiados sírios: a transferência anual de 150.000 - 300.000 destes refugiados para a Europa.

Seis milhões de refugiados não seriam um problema para o Velho Continente: nem chegariam a 10% da população total. O que é preciso realçar são outros aspectos.

Estamos perante duma ampla operação de deportação: diariamente, milhares de desgraçados arriscam a vida para alcançar as costas europeias, após ter pago milhares de Euros para uma autêntica máfia dos transportes. E muitos morrem durante a viagem. Não é este um crime contra a humanidade?

Os números

Portanto, há um plano, financiado pela União Europeia, que tenta proporcionar mão de obra barata para as grandes empresas do mercado continental. E este plano não se preocupa com os custos em termos de vidas humanas.

Segundo os dados fornecidos pela ONU, desde 2014 foram mais de 10.000 os migrantes mortos afogados na tentativa de atravessar o Mediterrâneo. Como afirmou em Junho do ano passado o porta-voz das Nações Unidas, Adrian Edwards, de acordo com o Alto Comissariado da ONU para os Refugiados (ACNUR), em 2014 as vítimas tinham sido 3.500, em 2015 subiram para 3.771 e nos primeiros cinco meses de 2016 já eram 2.814.

Elevado o número dos menores envolvidos nestas viagens arriscadas: no total, como indicado pela Organização Internacional de Genebra para as Migrações (OIM), desde o começo de 2016 desembarcaram (só em Itália) 7.600 menores, mais 3.000 do que em 2015. Destes, mais de 7.000 chegaram sem família. Crianças e rapazes principalmente de Egipto, Gâmbia, Costa do Marfim e Guiné.

A frota

Para concluir, eis a lista dos navios utilizados pelas ONGs e permanentemente ao largo das costas líbias:
  • Phoenix: é um dos dois navios da MOAS. Registado no Belize (América do Sul), opera regularmente por conta da ONG maltesa.
  • Topaz Responder: embarcação de resposta de emergência de 51 metros, que hospeda dois botes salva-vidas de resgate de alta velocidade. O navio é administrado em conjunto com a Médicos Sem Fronteiras. Este é um dos três navios que podem transportar centenas de pessoas duma só vez. O navio está registrado nas Ilhas Marshall.
  • Iuventa: está registado sob a bandeira dos Países Baixos e pertence à ONG alemã Jugend Rettet.
  • Golfo Azzurro: é utilizado pela Holandesa Boat Refugee Foundation e opera sob a bandeira de Panamá.
  • Dignity 1: é registrado sob a bandeira do Panamá. Opera por conta de Médicos Sem Fronteiras.
  • Bourbon Argos: um navio de Médicos sem Fronteiras. Registado sob a bandeira do Luxemburgo.
  • Aquarius: um dos muitos navios geridos por Médicos Sem Fronteiras. É registrado sob a bandeira de Gibraltar.
  • Vos Hestia: navio de busca e salvamento da ONG Save The Children.
  • Astral: é da organização Proactiva Open Arms. Segundo o site da Gefira se encontra nas águas líbias mas desaparece com base regular dos sites de rastreamento AIS (Automatic Identification System, sistema de monitorização utilizado em navios).
  • Sea Watch 1: é propriedade duma organização com sede em Berlim, a Sea Watch. Trabalha em estreita colaboração com a Watch The Med, uma rede transnacional que luta contra o regime fronteiriço europeu e exige uma passagem livre e segura para a Europa.
  • Sea Watch 2: como antes.
  • Audur: registado sob a bandeira dos Países Baixos. Não se sabe a quem pertença.
  • Sea Eye: é propriedade da Sea Eye, ONG fundada por Michael Buschheuer (Regensburg, Alemanha) e um grupo de familiares e amigos.
  • Speedy: é um lancha pertencente a Sea Eye. O navio é actualmente confiscado pelo governo líbio.
  • Minden: propriedade da organização alemã LifeBoat. O navio está registado sob a bandeira da Alemanha.

Nota:
O presente artigo foi enviado à atenção dos seguintes diários:

Portugal - Diário de Notícias, Público, Correio da Manhã, Jornal i
Brasil - O Globo, Folha de S. Paulo, Correio do Brasil, Estadão,
Angola - Jornal de Angola, Jornal Angolense, Semanário Angolense
Guiné Bissau - Nô Pintcha
Moçambique - Notícias, O País, Diário de Moçambique, Folha 8
Cabo Verde - Nação, Expresso das Ilhas


Ipse dixit.

Fontes: Maurizio Blondet, Gefira (1 e 2), Il Giornale (1 e 2), Tribune de Genéve, Cospe - Orçamento Social 2015, Aurora, Media Calabria (1 e 2), Die Welt, Rai News.

Juros: a dívida divinal

...e falemos de Dívida.
Com um curto exemplo.

Estamos no Médio Oriente, ano zero. A Virgem Maria tem que enfrentar a longa viagem até o Egipto para escapar do massacre dos inocentes ordenado por Herodes. Uma chatice.

Então, para enfrentar as pequenas despesas, pede emprestada 1 (uma) moeda de ouro de 5 gramas a um amigo mercante e este estabelece uma taxa de interesse particularmente vantajosa: apenas 4% ao ano.

Passam os anos, os séculos, e infelizmente a Mãe de Jesus esquece o empréstimo. Até que...

26 março 2017

Síria: o massacre de civis continua

Há poucos dias o blog publicou a notícia segundo a qual um ataque aéreo dos EUA tinha atingido uma escola em Mosul, no Iraque, utilizada como refugio por pessoas deslocadas. O total das vítimas teria sido de 33 mortos.

Mas a guerra continua e chegam notícias novas, com os testemunhos dos habitantes locais e das imagens. O resultado é que agora, tal como relata Pepe Escobar, o total das vítimas é quatro vezes superiores: talvez possa chegar a 150. Segundo o New York Times os mortos dos ataques podem ser 200 e em alguns diários do Médio Oriente fala-se de 500 vítimas.


O Pentágono afirma num comunicado de imprensa que os bombardeios tiveram como motivação um pedido do governo iraquiano. O exército americano abriu uma investigação.

O Comandante das Operações Conjuntas, Yahya Rasoul, confirmou no Sábado que ainda não sabe qual foi o resultado do massacre em Mosul: Rasoul explicou que as informações disponíveis indicam que o Isis trouxe grandes bombas de rodas colocadas nas estreitas ruas da cidade. Em alternativa, os mortos podem ter sido provocados pelos carros-bomba dentro dos becos de Mosul para depois acusar as forças de segurança de matar civis inocentes. 

O diário The Baghdad Post (Iraque) afirma que a responsabilidade do ataque é do Irão: "fontes" (obviamente não especificadas) teriam revelado que agentes secretos de Teheran forneceram informações falsas ao Comando da coligação anti-Isis.

Não satisfeito, o mesmo diário publica um vídeo no qual é afirmado que a culpa do ataque é sim dos iranianos mas estes teriam entregue ao Isis mísseis com os quais "atingir as forças da coligação a partir dos telhados" depois que a mesma Isis "tinha preso as famílias no interior daquelas casas". 

Eis o vídeo:


Portanto: sabemos que houve uma pesada acção de bombardeios aéreos por parte das forças ocidentais contra prédio civis em Mosul, mas os mortos podem ter sido provocados:

  1. por bombas com rodas do Isis
  2. por carros-bomba do Isis
  3. por informações falsas fornecidas por agentes do Irão
  4. por mísseis iranianos fornecidos ao Isis e disparados contra a coligação.
Única certeza: a responsabilidade última não e das forças lideradas pelos EUA.
Não há palavras.

Nenhuma investigação, entretanto, no caso de Al Jinah, perto de Aleppo, onde os aviões americanos mataram 49 civis. O total dos mortos tem que alcançar os três dígitos antes de despertar indignação, caso contrário são normais "danos colaterais".

Voltando para Mosul, os moradores começaram no Sábado a enterrar familiares mortos pelos ataques aéreos. Bashar Abdullah já enterrou 13 membros da sua família e diz que não conseguiu ainda retirar dos escombros os corpos de outros familiares:
Como é que eles puderam usar tanta artilharia pesada em zonas civis? Antes da batalha de Mossul ocidental ter começado, as forças iraquianas e americanas garantiram que seria uma batalha fácil, foi por isso que as pessoas não deixaram as suas casas, acreditaram que estariam seguros. Não imaginavam que iriam ser bombardeados. Isto não foi nenhuma libertação, foi um massacre
E foi. Um dos muitos. 


Ipse dixit.

Fontes: Pepe Escobar Facebook, The New Arab, The New York Times, Today Arab, The Baghdad Post (1, 2 e 3), Euronews.

24 março 2017

O terrorismo ajuda as companhias aéreas (mas só algumas...)

Fevereiro de 2017: Os CEOs da Delta, United e American Airlines esperam que Trump bloqueie a concorrência árabe

As três principais companhias aéreas dos EUA queixam-se que a Emirates, Etihad Airways e Qatar Airways - financiadas pelos governos de Qatar e Emirados Árabes Unidos - são subsidiadas injustamente e que a expansão destas no mercado norte-americano representa uma concorrência desleal que deve ser bloqueada pelas autoridades reguladoras.

"Desde 2004, as empresas do Golfo têm recebido mais de 50 bilhões de Dólares em subsídios dos seus governos", escreveram os CEOs das três maiores companhias numa recente carta ao Secretário de Estado, Rex Tillerson. "Sr. Secretário" continua a carta, "estamos confiantes de que a Administração Trump compartilha a nossa visão sobre a importância de respeitar os nossos acordos Open Skies: as companhias aéreas norte-americanas devem ter igual oportunidade de competir no mercado internacional, é preciso proteger os empregos".

A sã censura da ONU

É preciso sinalizar um grave erro.

Um novo relatório da ONU acusa israel de ter estabelecido "um regime de apartheid que oprime e domina o povo Palestiniano no geral". Mais: o relatório exorta os governos a "apoiar as actividades de boicote, desinvestimento e sanções" e "responder positivamente aos apelos destas iniciativas".

Até aqui tudo correcto: israel aplica uma doutrina de cariz nazista em relação aos Palestinianos e o apartheid é um dos instrumentos utilizados. Então, onde está o erro? O erro consiste no facto deste documento ter sido apresentado ao público sem que antes pudesse intervir a censura da mesma ONU.
Vamos explicar.
O relatório

O relatório foi encomendado e publicado pela Comissão Económica e Social das Nações Unidas para a Ásia Ocidental (ESCWA) e publicado em Beirute. Foi escrito por dois críticos de práticas israelitas: Virginia Tilley, professora de ciência política na Southern Illinois University, e Richard Falk, o ex-relator especial das Nações Unidas sobre a situação dos direitos humanos nos territórios palestinianos e professor emérito de Direito Internacional na Universidade de Princeton.

23 março 2017

Mulheres do Islão

Uma boa parte do choque de civilizações entre Ocidente e mundo islâmico é jogado no âmbito
diferente papel que as mulheres têm nas duas culturas.

Se o Ocidente conseguir convencer a mulher muçulmana a homologar-se aos direitos das mulheres ocidentais, o Ocidente ganha o jogo sem disparar um único tiro, a não ser os tiros do Isis que terá um certo poder militar mas não tem a força para opor-se à violência duma cultura superior.  E, neste caso, superior fica sem aspas porque, apesar dos infinitos defeitos que o mundo ocidental tem, aos menos conseguiu libertar (parcialmente) o papel da mulher.

Como explicado pelo filósofo e antropólogo Claude Levi-Strauss, uma cultura é feita de pesos e contrapesos, de medidas e contramedidas que mantêm o equilíbrio. Se qualquer um dos elementos dessa cultura é eliminado, isso modifica todos os outros e a cultura ficará desequilibrada, eventualmente destruído. O mundo islâmico tem este problema: vive, pensa e actua no 50% das suas possibilidade. Metade dos muçulmanos praticamente não existem, ficando fechados em casa para criar os filhos.

O dinheiro russo dos Clinton

Trump e os russos. Trump foi ajudado pelos russos. Hackers russos manipularam a campanha eleitoral para favorecer Trump. Etc, etc.

E uma olhadinha acerca do outro lado, no clã da simpática Hillary?

John Podesta, por exemplo, o presidente da campanha eleitoral de Hillary Clinton e ex. conselheiro especial do simpático Obama. Na altura, alguns e-mails segredos do braço direito da ex-primeira dama foram divulgados pelo WikiLeaks, causando a resposta indignada democratas que acusaram do trabalho os hackers russos ao serviço do Kremlin. O que nem todos sabem é que John tem um irmão, Tony Podesta, que trabalhou como consultor no gabinete da Sberbank sediada em Nova York.

O que é a Sberbank? É "apenas" o maior banco da Rússia, número 33 na top 1.000 bancos do mundo. O Podesta Group, do qual Tony é o dono, trabalha com o banco que controla 30% de todos os assets russos.

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