31 março 2010

Peak Oil

Petrolio di Debora Billi é uma janela insubstituível aberta sobre um mundo que faz rodar o nosso mundo: o petróleo, óbvio. E quando as notícias são importantes Petrolio não falta, como é possível constatar neste artigo.

Mas antes uma nota: o termo peak (ou peak oil) refere-se ao pico da produção do petróleo no nosso planeta. Após o pico a produção ingressará num estado de declínio terminal.

E agora o artigo:

Era suposto ficar segredo até o mesmo meeting, mas o Guardian estragou tudo. Esta é a primeira notícia que reporta Rob Hopskins no seu blog. Rob participou no summit do governo inglês como representante do Transition Network e pode contar o que se passou.

Definido como fascinante e frustrante ao mesmo tempo, o meeting viu a participação de 20 selecionadissimas pessoas entre as quais ministros, exponentes do governo e da indústria e estudiosos do problema.

Quatro as apresentações, a primeira das quais resumiu a não consciência do governo no que diz respeito ao peak e a necessidade imediata de tomar medidas.  

A segunda apresentação expôs o ponto de vista da indústria petrolífera, segundo a qual o plateau já começou em 2004. Desde 2005 acabou a era do petróleo de baixo custo. Ficou claro que não importa a disponibilidade mas a continuidade do fluxo no mercado, e que as companhias sabem bem que, embora as reservas sejam consistentes, boa parte delas não é economicamente desfrutável. O exemplo utilizado é o das partículas de ouro no mar: há muitíssimas delas mas ninguém tenta extraí-las. Existem margens para desfrutar o gás não convencional, mas para torna-lo conveniente é preciso que o preço suba muito. 

Até aqui a indústria, que a mim parece clarificadora: com as portas fechadas se admitem  verdades que no geral são ocultadas quando é preciso falar para o grande público (e para os mercados...).

A apresentação da Peak Oil Task Force focalizou-se na produção, explicando que será muito difícil atingir os 90 milhões de barris/dia e que a partir daquela altura não será possível descer; que os países ocidentais, menos acostumados à variabilidades dos preços, terão muitos mais problemas do que a China ou a Índia; e que o primeiro sector onde intervir é o dos transportes.

Transition Network apresentou as próprias propostas para uma descida soft, centrada num mundo de baixa energia e trazendo muitos exemplos de comunidades locais que já estão a adoptar política de transição.

A discussão que se seguiu desconcertou um pouco o nosso observador. Alguém sugeriu que não é preciso tomar medida nenhuma pois será o mercado que regulará a transição por meio do mecanismo do preço. Felizmente, um outro alguém respondeu "então qual o papel do governo?". Este último, de facto, deveria agir para responder à instabilidade do preço. Outros observaram que será preciso mudar a inteira filosofia política: desde uma sociedade onde a preocupação é distribuir o surplus até uma onde será preciso dividir um bolo mais pequeno.   

Os grupos de estudo concentraram-se nas respostas nacionais e locais. Muita a preocupação inerente aos trasportes. As conclusões finais dos trabalhos foram as seguintes:

  • A data do peak é incerta mas inevitável
  • Existe um alto risco que os problemas apareçam no prazo de 3 ou 4 anos
  • Os preços serão inevitavelmente mais altos
  • A curto prazo o gás natural será mais importante
  • A intervenção do governo será inevitável
  • O estilo da mudança será decisivo, o governo tem que transmitir a mensagem ao povo de forma clara mas não pessimista
  • Será preciso intervir no sector dos transporte públicos
  • O sistema de planificação do território deverá ter o problema em bom destaque e no futuro poderá ser preciso pensar nos racionamentos

Rob achou fascinante o facto do governo ter finalmente escolhido encarar de forma séria a questão do peak oil e achou-se honrado pelo convite à sua associação que é muito activa em âmbito local. Achou frustrante a impossibilidade de sair do mito do eterno crescimento económico, do mito de "a tecnologia resolverá os problemas" e o facto do meeting ter-se focalizado muito na questão dos transportes, como se a passagem para os carros eléctricos pudesse resolver todos os problemas, sem esquecer o implementamento duma adequada rede de abastecimento.

Parece não existir a consciência de como a nação, que é a segunda mais endividada do mundo e que é um grande importador de energia numa altura de instabilidade de preços, conseguirá pagar uma tal infraestrutura.



Acho que o summit é para ser considerado de importância histórica. E acho também que, talvez, o segredo não tenha sido quebrado por um mero acaso...

Fonte: Petrolio
Tradução: Massimo De Maria  

30 março 2010

Cartoons: Missão de Paz

Uma saudável troca de tiros

Nunca acabamos de aprender.

Ontem, por exemplo, compro um jornal para ver o que se passa no mundo e acabo por aprender que a paz é a maior inimiga do meu País. Uma coisa que nunca tinha pensado antes, de facto. Mas vamos com ordem.

O jornal é o Diário de Notícias que no número de ontem dedica 3/4 de página ao meu novo guru, o Tenente-Coronel Pára-Quedista na Reserva Miguel Silva Machado.

O qual começa bem:

Alguns defendem a não participação nacional na missão da NATO no Afeganistão. É uma posição legítima...

Ainda bem. Mas esta escolha terá custos, pergunto-me?

...mas também tem custos para o País.

Ora bem, lá está. Já tinha suspeitado isso.

O que diriam os contribuintes se depois da catástrofe da Madeira os pilotos dos C-130 não tivessem voado para o Funchal?

Em boa verdade o meu cerebrinho não alcança a ligação entre atirar chumbo aos talibãs e ser empenhado numa operação humanitária, mas este deve ser um meu limite, admito.

Mas sabem quantas horas de voo têm de ser cumpridas para manter as tripulações qualificadas? Não há boas vontades que se sobreponham ao treino e ao subsequente emprego real. E quando é a sério que se aprende!

Aqui finalmente percebi: é a sério que se aprende! Exercitações, aulas, treinos, manuais...tudo inútil se não há possibilidade de ir para a frente. É ali, no meio das balas que voam que o militar pode aprender com regozijo; só no meio das bombas inimigas há a verdadeira escola para o exército.

Imaginem a ineficiência dum exército que nunca participa em missões de guerra: pensem na China, cujos militares nunca podem dar uma saudável troca de tiros com os vizinhos. Devem estar de rastos e suspeito que nesta altura os quartéis sejam utilizados como ponto de encontro para reformados. Mas atenção:

[...] interrupções neste ciclo podem criar uma perigosa ilusão, a de que estamos preparados. Há quem chame a isto a "síndroma da missão única": um militar participa numa missão e julga que as outras serão todas iguais.

Isso é: uma só missão de guerra não dá, pois muitas guerras (possivelmente não ao mesmo tempo, presumo eu) são melhores do que uma. E não em países iguais, pois sub entraria a rotina e o soldado ficaria aborrecido. O que, seja dito, faz sentido. E se lembrarmos que tudo isso é para o bem do nosso País, faz ainda mais sentido. Pois

A não participação em missões só conduz à ineficiência, logo à irrelevância externa e à desnecessidade interna.

E, não sei porquê torna-me em mente a China. Como é que este país, que nunca toma parte numa operação de guerra, consegue ao mesmo tempo ter uma certa relevância no plano internacional? Será por causa das lojas chinesas? Deve ser por isso, só pode ser...

Ipse dixit

29 março 2010

EUA miram a principal energia do mundo futuro

O arranque programado para este mês dos furos da China National Petroleum Company (CNPC) do campo de gás de South Pars, no Irão, poderia ser tanto um arauto como uma explicação de desenvolvimentos geopolíticos muito mais vastos.

Antes de mais nada, o projecto de 5 mil milhões de dólares – assinado no ano passado após anos de arrastamento da parte dos gigantes da energia ocidental Total e Shell sob a sombra das sanções dos EUA – revela o principal sistema arterial da futura oferta e procura mundial de energia.

Muitos críticos há muito suspeitavam que a razão real para o envolvimento militar dos EUA e de outros países ocidentais no Iraque e no Afeganistão é controlar o corredor energético da Ásia Central. Até agora, o foco parecia ser principalmente o petróleo. Há por exemplo afirmações que um planeado pipeline do Mar Cáspio para o Mar Arábico através do Afeganistão e do Paquistão é o prémio principal por trás campanha militar aparentemente fútil dos EUA naqueles países.

Mas o que mostra a parceira CNPC-Irão é que o gás natural é prémio principal que será essencial para a economia do mundo, e especificamente o fluxo de duas vias deste combustível para o Leste e Oeste da Ásia Central rumo à Europa e à China.

Michael Economides, editor do Energy Tribune de Huston é um dos numerosos observadores da indústria que está convencido de que o gás natural ultrapassará o petróleo como a principal fonte primária de energia, não apenas nas próximas décadas como ao longo dos próximos vários séculos.

Ele destaca a recente previsão da International Energy Agency (IEA), com sede em Paris, que reviu dramaticamente em 100 por cento as suas estimativas das reservas globais de gás natural. Economides atribui este enorme aumento a rápidas melhorias tecnológicas em extrair de campos de gás até agora inacessíveis. Afirma que a IEA estima quantidades de gás natural para 300 anos de abastecimento da actual procura mundial. "Se alguém simplesmente fantasiar quaisquer contribuições futuras de ordens de grandeza dos maiores recursos na forma de hidratos de gás, é fácil ver como é quase certo que o gás natural evolua até ser o primeiro combustível da economia mundial", acrescenta.

A importância crescente do gás natural como fonte de energia tem sido firme e inexorável desde há muitos anos. Entre 1973 e 2007, a contribuição do petróleo para a oferta mundial de energia caiu de 46,1 por cento par 34,0 por cento, com o aumento da utilização de gás natural a colmatar aquele declínio, segundo a IEA. Outras fontes, tais como a Energy Information Administration (IEA), com sede nos EUA, prevêem que o consumo de gás natural triplicará entre 1980 e 2030, data em que mais provavelmente tornar-se-á a fonte de energia primária preferencial para as necessidades industriais e públicas.

Há razões sólidas para o gás natural (metano) estar a tornar-se o rei dos combustíveis fósseis. Em primeiro lugar, tem um poder calorífico muito maior do que o petróleo ou o carvão. Ou seja, mais calor produzido por unidade de combustível. Em segundo lugar, é o combustível mais limpo, pois emite 30 por cento menos dióxido de carbono em comparação com o petróleo em comparação com o petróleo e 45 por cento menos em comparação com o carvão. Em terceiro lugar, o gás é mais eficiente para o transporte, tanto como matéria primária forma comprimida ao longo de pipelines enterrados como combustível para veículos.

Todas as agências de energia reconhecem que as primeiras fontes do gás natural do futuro estão no Médio Oriente e na Eurásia, incluindo a Rússia. A EIA com sede nos EUA coloca as reservas de gás natural nestas regiões como nove a sete maiores do que aquelas no total da América do Norte – as quais são uma das principais fontes deste combustível.

Dentro do Médio Oriente, o Irão é sem dúvida o principal possuidor de reservas de gás. O seu campo de South Pars é o maior do mundo. Se convertido em barris de petróleo equivalentes, o South Pars do Irão tornaria diminutas as reservas do campo petrolífero de Ghawar, na Arábia Saudita. Este é o maior campo de petróleo do mundo e, desde que entrou em operação em 1948, Ghawar tem sido efectivamente o coração pulsante do mundo para o abastecimento de energia primária. Na era que se aproxima de domínio do gás natural sobre o petróleo, o Irão retirará à Arábia Saudita da condição de principal fornecedor de energia do mundo.

Tanto a Europa como a China posicionam-se para serem rotas tronco para o gás iraniano e da generalidade da Ásia Central. A infraestrutura já está a moldar-se para reflectir isto. O pipeline Nabucco está planeado para fornecer gás do Irão (e do Azerbaijão) via Turquia e Bulgária transportando-o para a Europa Ocidental (assinalando um fim ao domínio russo). O Irão também exporta gás via pipelines separados para a Turquia e a Arménia e também está a procurar negócios de exportação com outros países do Golfo, incluindo os Emirados Árabes Unidos e Oman.

Outra rota principal é o chamado pipeline da paz, do Irão para o Paquistão e a Índia, através do qual o Irão exportará este combustível para dois dos mais populosos países da região. Mas talvez a perspectiva mais irresistível para o Irão seja o pipeline de 1.865 quilómetros que fornece gás natural do Turquemenistão através do Uzbequistão e do Cazaquistão para a China e que deve operar a plena capacidade em 2012. O Sul do Turquemenistão tem uma fronteira de 300 km com o Irão e já tem um acordo de exportação de gás com Teerão. Se o desenvolvimento do campo gasista iraniano-chinês de South Pars puder ser incorporado nos pipelines transnacionais acima mencionados, isso confirmaria o Irão como o coração pulsante da economia mundial na qual o gás é a fonte de energia primária. Isto é potenciado ainda mais pela procura de gás da China, em crescimento rápido, a qual a EIA prevê que podia estar dependente de importações em mais de um terço do seu consumo de gás natural em 2030.

Neste contexto de um grande realinhamento da economia energética mundial – no qual haverá uma diminuição contínua do papel dos EUA – a retórica tronitroante de Washington acerca de democracia e paz e guerra ao terror ou alegadas armas nucleares iranianas pode ser vista como uma tentativa desesperada para esconder o seu medo de que esteja destinado a ser um grande perdedor. Cercar o Irão com guerras e ameaçar o fornecimento de gás para o provável maior futuro consumidor de gás – a China – é o assunto real. As acções estado-unidenses são vistas mais exactamente como o encostar de uma faca nas artérias energéticas de uma economia mundial que os EUA não são mais capazes de dominar.

Um novo aspecto desta história é a posição da Rússia. Com as suas próprias vastas reservas de gás natural, ela pode ser vista como um competidor do Irão. Comprovadamente menos bem posicionada do que o Irão para o fornecimento tanto à Europa como à China, a Rússia é no entanto um grande acto e tem estado insistentemente a cortejar a China com um acordo de exportação desde 2006. Contudo, como observa Economides, "as negociações entre os dois países tem sido intermitentes e, especialmente, a construção do pipeline tem sido penosamente lenta".

Mas as ambições da Rússia em expandir as suas exportações de gás natural podem explicar porque ela tem mostrado ser um aliado caprichoso do Irão. A posição ambivalente de Moscovo em relação a sanções estado-unidenses contra o Irão sugere que a Rússia tem a sua própria agenda destinada a embaraçar a república islâmica como um rival regional na energia.


Fonte: Página Um
Artigo original (Inglês):
http://globalresearch.ca/index.php?context=va&aid=18176 by Finian Cunningham

A Fábrica dos Blogs

Há por aí um grupo de escritores atentos ao que acontece no mundo lusófono.

Eles vêm do Brasil, Timor, Austrália, Angola, Portugal. Decidiram unir-se num esforço comum: a Fábrica dos Blogs.


Na própria apresentação afirmam:

Pretendemos divulgar notícias e opiniões, relatos sentidos dos que são sistematicamente martirizados e até da vida despojados a troco de privilégios para uns quantos seres desumanos, indiferentes a divisões, ódios, lutas, guerras, fome e miséria que provocam para seu próprio benefício.

Um objectivo sem dúvida importante e ambicioso.

Mas afinal quem são "eles"? São:

Jaime Silva
Pinto Kaduak
José Hornay
Ana Loro Metan
Rosário Pedruco
António Verdadeiro
António Veríssimo
Gonçalo Tilman Gusmão
Alfredo Ximenes
Kolectivo Gika
Luciano Babo
Martinho Júnior
Loro Foho
Timor Malai
Klaudio Berek
Ruben de Sastre


A Fábrica dos Blogs, na verdade, é composta por 3 blogs distintos: A Fábrica dos Blogs, Página Um e Timor Lorosae Nação.

E é com prazer que anunciamos o início da colaboração entre a Fábrica dos Blogs e Informação Incorrecta. O próximo post é o primeiro fruto desta nova parceria.

Ipse Dixit

28 março 2010

A Volvo chinesa

Agora é oficial: a Volvo já não pertence à Ford, agora é chinesa afirma Bloomberg.

Um outro claro sinal da diferença de postura e, sobretudo, de capacidade entre a economia dos Estados Unidos e a homóloga de Pequim. Não que a China não tenha os seus problemas, óbvio: mas a disponibilidade de recursos é bem outra.

Segundo os termos do negócio, fechado hoje, a empresa Zhejiang Geely Holding Group pagará um total de 1,8 bilhões de dólares, 1,6 bilhões em dinheiro liquido enquanto a restante parte em prestações. Muito menos do que a Ford tinha pago pela sociedade sueca em 1999: 6,4 bilhões de dólares. Este enorme "desconto" justifica-se com o facto da Ford ser obrigada a vender para reanimar a própria situação financeira e com o facto da Volvo não atravessar uma altura feliz a nível internacional.

Para a Ford trata-se duma outra marca perdida, depois das vendas de Aston Martin, Land Rover e Jaguar.
Para o grupo Zhejiang Geely trata-se da maior aquisição chinesa em campo automobilístico.

A Volvo vendeu 334.808 carros em 2009, uma queda de 11% em respeito ao ano anterior e de 27% em relação ao máximo histórico da marca, atingido em 2007, de 460.000 unidades. As vendas no mercado norte-americano subiram ao longo dos últimos 9 meses, mas isso não foi suficiente para a Ford decidir em manter a marca entre as jóias de família.

A empresa de origem sueca emprega 20.000 trabalhadores, dos quais 14.000 na Suécia, e dispõe de 2.500 vendedores em 100 países.

Para este ano o objectivo é fixado na produção de 390.000 carros, com uma rentabilidade maior segurada agora pela gestão da Zhejiang Geely.

Ipse dixit

26 março 2010

Vale mesmo a pena ser fiador?

É com prazer que apresentamos um dos blog mais lido do Brasil: Escorpião no Bolso

E porque é um dos mais lidos? Porque procura esclarecer de uma forma simples e didática, os acontecimentos financeiros que possam atingir literalmente o bolso do cidadão.

Escorpião no Bolso fala de finanças pessoais, sugere dicas para economizar. Uma grande ajuda para os Brasileiros que frequentam Internet, mas não só para eles. 

Uma leitura vivamente aconselhada. 

Eis um interessante artigo acerca das garantias bancárias:



Hoje iremos abordar uma relação baseada na fiança.

Conseguir um fiador hoje é uma tarefa árdua para os proprietários, locatários e administradores de imóveis.

Ao assinar um contrato como fiador estamos assumindo a responsabilidade jurídica do contrato e comprometendo o patrimônio caso o locatário deixa de honrar os compromissos com aluguel, condomínio, taxas e impostos.

Caso você queira assumir essa empreitada, é recomendável participar de todas as etapas do processo, não apenas assinando o contrato final. Lembre-se que a relação amigável ou de parentesco pode ficar abalada.

O devedor solidário responde também pela dívida, caso você não queira comparecer na frente do juiz para assumir a dívida que não é sua, pondere bem antes de assinar.

Em breve outras intervenção do mesmo autor. Stay tuned!



Cartoons: Crises? What crises?

25 março 2010

O grande enredo de Dubai

Lembram-se do quase default do Dubai?

Poucas horas antes do fecho dos mercados o emirado informou que teria congelado o pagamento do bond Nakheel.

Na prática, naquele dia Dubai levantou um grande cartaz com escrito: "estamos em sarilhos e não conseguimos pagar".


O enredo económico

Hoje alguns média tratam vagamente do assunto, como swissinfo que assim informa:
O emirado de Dubai investiu outros 9,5 bilhões de dólares para sustentar o Dubai World, dobrando os fundos de emergência para a holding que em Novembro tinha feito default.

Num comunicado, o presidente da máxima autoridade fiscal, o xeque Ahmed Bin Saeed Al Maktoum, explicou que "a nossa ajuda financeira demonstra o nosso empenho para encontrar uma solução justa para todos"


E até aqui parece de facto coisa boa e justa.

Nakheel, a divisão imobiliária do Dubai World no centro da crise, irá receber 8 bilhões e os seus bond estão em alta nos mercados após Dubai World ter prometido pagar por inteiro os titulares se o seu plano de reestruturação de 23,5 bilhões for aceite pelos bancos.

Pena que a dívida do Dubai, na realidade, esteja a mais de 25 bilhões de dólares.

Segundo AGI são 26, mas além dos montantes, bilhão mais bilhão menos (!!!), a coisa interessante é que esta notícia explica com qual dinheiro eles pensam pagar as dívidas.
(AGI) Dubai World pediu até 8 anos aos credores para o reembolso dos seus 26 bilhões de dólares de dívida. O grupo propõe a emissão de duas secções de novas dívidas com maturação entre os 5 e os 8 anos.

Com outra dívida.


O enredo do terrorismo médio-oriental

Dubai foi também o epicentro dum outro grande e complicado enredo que envolve Israel e os relacionamentos entre este e a Palestina.

Os leitores provavelmente conhecem a história que ainda hoje ocupa as páginas dos jornais com as suas consequências, o assassinato de um combatente palestiniano por parte do Mossad, crime cometido no território dum estado independente e soberano, isso é Dubai.

Na prática, no dia 20 de Janeiro de 2010, 26 agentes israelitas entraram no Dubai com passaportes falsos, tomaram posse de quartos no mesmo hotel onde morava um chefe de Hamas e eliminaram o inimigo para depois desaparecer como se nada tivesse acontecido.


Pena (para o Mossad, óbvio) que entre vídeo de vigilância. cruzamentos de dados e ausência de coberturas, algo correu mal e a história passou a ser de público domínio.
Imediatos protestos de Dubai que logo apontou Israel como responsável da operação cuja cobertura acabou mal.


O enredo europeu

As consequências não têm sido poucas, envolvendo até Londres e Paris e parece ter começado a abalar fortemente a outrora firme aliança anglo-israelita.

E isso porque boa parte dos passaportes falsos utilizados pelos agentes do Mossad pertenciam a inocentes cidadãos britânicos.

Desta vez Londres demonstrou um mínimo de responsabilidade e reagiu em consequências.

Os média ingleses falam assim da expulsão dum diplomata israelita, cuja identidade permanece obscura mas que segundo os diários poderia ser até o responsável do Mossad em Londres.


Sempre segundo AGI:
O Ministro dos Negócios Estrangeiros britânico, David Miliband, explicou que existem razões fundamentadas para crer que Israel tinha sido responsável pela utilização dos documentos e anúncio de ter pedido ao governo hebraico para que episódios como este não se repitam.
O chefe do Foreign Office foi bastante explicito: "Os documentos foram copiados dum passaporte britânico numa operação altamente sofisticada" e isso indica "que nisso é presente um governo"

Qual?...segundo Virgilio:
O Soca, Serious Organised Crime, agência britânica contra o grave crime organizado, numa recente informação citada pelo diário Guardian aponta o dedo contra as autoridades israelitas.

Segundo a agência, que conduziu uma investigação de quatro semanas, os passaportes poderiam ter sido clonados na altura do controle de entrada no aeroporto internacional Ben Gurion de Tel Aviv ou nos escritórios da companhia aérea de Israel El Al.

"Não podemos ter a certeza, mas as provas mostram como os passaportes podem ter sido clonados durante o controle da polícia da alfândega de Israel ou no estrangeiro, quando foram entregues às mãos de funcionários israelitas".

E o Foreign Office emitiu uma nota de aviso para quem viaja com destino a Israel:

"Os dados do vosso passaporte podem ser copiados para usos impróprios enquanto o documento se encontra fora do vosso alcance. O risco existe sobretudo para os passaportes sem dados biométricos" pode ler-se no aviso online.

"Recomendamos que entreguem o vosso passaporte, incluídos aos funcionários israelitas, só quando isso é absolutamente preciso"

A resposta do embaixador israelita em Londres não tardou:

Os relacionamentos entre Israel e o Reino Unido são de recíproca importância e por isso ficámos desiludidos com a decisão do governo britânico.

Não é bem claro o que ganha Londres com o relacionamento com Israel, mas este é outro assunto.

Também Austrália, França, Alemanha e Irlanda abriram investigações acerca dos passaportes falsos. .


O enredo israelamericano

Os Estados Unidos não estão numa situação tão bonita, sabemos disso.

Há quase 10 anos se encontram em guerra num país e num outro acabaram mesmo os primeiros 7. O custo das duas missões é particularmente elevado e a situação económica doméstica é dramática

Dito de forma muito prática, se uma das duas guerras tivesse aportado vantagens económicas de qualquer natureza a situação agora seria menos dramática.

Mas nada disso.

O problema é que as forças de ocupação anglo-americanas não gozam do apoio da população civil. Talvez ao distribuir pão e não chumbo a situação fosse mais favorável, mas sabemos como seja mais fácil destruir do que construir.

O elemento central é assim o apoio da população. Que, todavia, é maioritariamente árabe ou muçulmana e não vê de agrado o que acontece em Israel.





É o apoio total, sistemático e organizado que Washington fornece à politica e estratégia israelita, juntamente com o desrespeito pela causa palestiniana, que contribui em reforçar o ódio das populações locais

Agora em Washington, com uma economia desastrada e perspectivas não felizes, a influência da conhecida lobby israelita poderia até ser posta em causa.

Mesmo ontem, Benjamin Netaniyahu, antes de encontrar Barack Obama, declarava:
«Jerusalém é a capital de Israel »

De terranews

Isso é o que realçou ontem em Washington o premier israelita antes de encontrar o presidente Barack Obama.

Nenhuma marcha atrás acerca do projecto de construção de 1.600 novas habitações na zona de Jerusalém leste, a zona árabe, embora os pedidos da comunidade internacional para relançar as negociações de paz.

E continua Rinascita eu:
"Se os americanos insistem nos pedidos irracionais apresentados pelos palestinianos acerca dum congelamento das habitações em Jerusalém, tinha declarado o leader do Likud, o processo politico arrisca ficar parado ao longo dum ano."

Ao longo do encontro, desde a câmara de Jerusalém chega a nova provocação: o sim definitivo para a construção de 29 novas habitações na zona leste de Jerusalém, no lugar onde agora existem as ruínas dum velho hotel palestiniano.

Uma iniciativa que é parte dum projecto ainda maior e que inclui a edificação de outras 80 habitações e um parque multinível.


Mais de 1.600 casas no bairro ortodoxo de Ramat Shlomo, além das 20 viabilizadas, e um projecto para outras 80 no bairro árabe de Sheikh Jarrah, onde cada semana se desenrolam manifestações de protesto por causa dos despejos dos palestinianos e da demolição das casas deles.


O encontro entre Netanyahu e Barack Obama demorou muito pouco, o que não é costume.

Os dois encontraram-se com portas fechadas e o encontro aconteceu em duas fases, uma hora e meia a primeira, meia hora a segunda.

Ao que parece, Netanyahu teve de sair para falar com o team dele. Sinal que a discussão não procedia exactamente bem.

Os dois leader não foram vistos juntos quando o encontro acabaou. Obama retirou-se na Casa Branca enquanto o primeiro ministro israelita se afastava de carro.

Nada de "photo opportunity", nada de comunicado conjunto.

É isso, ao nosso ver, um sinal que algo corre mal na aliança Israel-Estados Unidos-UK. O que irá acontecer dependerá de quanta potência realmente tem a lobby israelita nos EE.UU.


A cereja no topo do bolo: Paris

"A França lamenta a decisão da Câmara de Jerusalém para viabilizar a construção duma colónia de 20 habitações no bairro de Sheik Jarrah": são estas as palavras do porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros francês, Bernard Valero. "A França - acrescentou - tal como o resto da comunidade internacional não reconhece a anexação de Jerusalém Leste e condena cada decisão que prejudica o seu status final"
reporta o Corriere della Sera.


...e também seria possível falar de notícias económicas, como a queda nas compras de casas novas nos Estados Unidos, mas por enquanto ficamos aqui.


Ipse dixit.


Texto de Informazione Scorretta, Felice Capretta,
Tradução Massimo De Maria

MGM: venda ou insolvência?

Depois do gigante do aluguer de vídeo, também quem "faz" os vídeos se encontra numa situação complicada. Muito complicada.

A dúvida da Metro Goldwyn Mayer (MGM) fica entre a venda e a insolvência. Provavelmente os estúdios gostariam mais da primeira hipótese, mas as coisas não estão assim simples.

O problema são as dívidas: 4.000 milhões de dólares (segundo o New York Times) não são uma brincadeira e os três possíveis adquirentes oferecem menos, muito menos... Lions Gate, Time Warner e Len Blavatnik oferecem entre 1.200 e 1.500 milhões, muito abaixo dos 2.000 milhões estabelecidos como oferta mínima pela MGM. Por isso os dirigentes do grupo apontam agora para a insolvência como única solução viável. Em troca, os credores receberiam o controle sobre os estúdios cinematográficos.

Anos complicados para a célebre "fábrica de sonhos" americana. Já em 2005, com uma dívida de 5.000 milhões de dólares, foi adquirida por um grupo de investidores, entre as quais a Sony e a companhia de serviços via cabo Comcast; agora serão precisas algumas semanas para que a delicada decisão seja tomada.

Seja qual for o desfecho, trata-se de um duro golpe para a MGM, empresa que detém os direitos de filmes como Rocky ou James Bond, além  da maior colecção de filmes de Hollywood, com mais de 4.000 filmes em arquivo.

Fonte: Clarín 

Cartoons: a crise grega

24 março 2010

GEAB 43 - Parte II: As 3 consequências da fase de deslocação geo-política global

Chegou a segunda parte do GEAB nº 43.
A primeira parte está disponível aqui.

As 5 consequências da fase de deslocação geo-política global 2009-2013

Neste fim de primeiro trimestre 2010, na altura em que nas frontes monetárias, comerciais, financeiras e estratégicas os sinais de confronto se multiplicam a nível internacional, enquanto a violência do choque social da crise se confirma nos grandes países e sistemas regionais, Europe2020 fornece a primeira antecipação sequencial do desenvolvimento desta fase de desagregação geo-política mundial.

Lembramos que esta fase pode ser o prelúdio para uma reorganização duradoura do sistema internacional se, a partir de agora e até a metade deste decénio, as consequências da queda da ordem mundial herdada após a segunda guerra mundial e a queda do muro de Berlim forem plenamente entendidas.

Esta evolução implica em particular uma re-fusão completa do sistema monetário internacional para substituir o sistema actual fundado sobre o dólar com um sistema baseado numa moeda internacional cujo valor derive do conjunto das principais moedas mundiais ponderadas com o peso respectivo das várias economias.


(clicar para ampliar)

Com a publicação duma mensagem, neste mesmo período do ano passado com uma inteira página do Financial Times na vigília do G20, apontámos neste sentido que a "janela" de lançamento ideal para tal reforma radical se situava entre a Primavera e o Verão de 2009, acabada a qual o mundo teria entrado na fase de desagregação geo-politica global no fim de 2009(1).

O fracasso da cimeira de Copenhaga (Dezembro de 2009), que fecha quase duas décadas de cooperação internacional dinâmica acerca deste assunto, com o "fundo" dos crescentes conflitos entre americanos e chineses e a divisão ocidental acerca desta questão (2), é um indicador que confirma as previsões dos nosso pesquisadores.

Os relacionamentos internacionais evoluem no sentido de multiplicação das tensões enquanto a capacidade dos Estados Unidos em desenvolver um papel condicionante, ou até de "patrão", dos próprios clientes evapora cada mês um pouco mais (4).

Neste fim de primeiro trimestre de 2010 podemos realçar em particular::

  • a deterioração regular dos relacionamentos chino-americanos (Taiwan, Tibete, Irão, paridade Dólar-Yuan(5), queda das aquisições dos títulos de estado EE.UU., conflitos comerciais  vários,...)
  • os crescentes desentendimentos nos dois lados do Atlântico (Afeganistão (6), Nato (7), contratos fornecedores US Air Force (8), clima, crise grega, ...)
  • a paralisia nas decisões de Washington (9)
  • a instabilidade sem tréguas no Médio Oriente(10) e o agravamento das crises Israel-Palestina e Israel-Irão
  • o reforçar das lógicas dos blocos regionais (Ásia, América Latina (11) e Europa em particular)
  • a crescente volatilidade monetária (12) e financeira (13) mundial
  • a preocupação acerca dos riscos soberanos 
  • a crescente crítica acerca do papel dos bancos EE.UU. mais uma regulamentação para regionalizar os mercados financeiros, etc.

Em paralelo, com causa na ausência de retoma económica (15), multiplicam-se os conflitos na Europa enquanto nos Estados Unidos o tecido social é simplesmente desmantelado (16).

Se o primeiro fenómeno é mais visível do que o segundo, todavia é mesmo o segundo o mais radical.

O controlo dos meios de comunicação internacionais por parte dos Estados Unidos permite disfarçar as consequências sociais da destruição dos serviços públicos e sociais americanos, resultado do rápido empobrecimento da classe média do país (17).

E esta dissimulação é mais fácil do que na Europa pois o tecido social americano é "atomizado" (18): débil sindicalização, sindicatos sectoriais sem reivindicações generalizadas, identificação histórica da reivindicação como atitude "anti-americana" (19), etc....
O facto é que em ambos os lados do Atlântico (Japão incluído) os serviços públicos (transportes, polícia, bombeiros,...) e sociais (reformas, instrução,...)  estão para ser desmantelados ou até eliminados, que as manifestações (20) por vezes violentas, multiplicam-se na Europa enquanto acções de terrorismo doméstico ou radicalização política (21) são cada vez mais numerosas nos EE.UU.

Na China o crescente controlo de Internet e dos média é acima de tudo um significativo indicador do enervamento dos dirigentes chineses, preocupados com o estado da opinião pública local. As manifestações acerca das questões do desemprego e da pobreza multiplicam-se e vão contra o discurso optimista das chefias chinesas acerca das condições da própria economia.

Em África a frequência dos golpes de estado subiu quando comparada com o ano passado. 

E na América Latina, embora resultados macro-económicos positivos, a insatisfação social faz subir os riscos de mudanças políticas radicais, como foi possível observar no Chile.


O conjunto destas tendências forma rapidamente um "cocktail" sócio-politico explosivo, que leva directamente para conflitos entre componentes da mesma entidade geo-politica (conflitos estados federados/estado federal nos EE.UU., tensões entre os membros da UE, entre repúblicas e federação da Rússia, entre províncias e governo central na China), entre grupos étnicos (subida do sentimento anti-imigrante) e utilização do patriotismo nacional ou regional (23) para canalizar estas tensões negativas.



(clicar para ampliar)

Tudo isso desenvolve tendo como fundo o empobrecimento das classes médias dos EE.UU., do Japão e da Europa (em particular no Reino Unido e nos países europeus e asiáticos (24) onde as famílias e as comunidades têm mais dívidas).
Neste contexto, Europe2020 avalia que a fase de desagregação geo-politica mundial acontecerá segundo 5 sequências temporais, que estão desenvolvidas neste GEAB nº43, isso é:

  • 0. Início da fase de desagregação geo-politica mundial - T4 2009/T2 2010
  • 1. Sequência 1: Conflitos monetários e abalos financeiros
  • 2. Sequência 2: Conflitos comercias
  • 3. Sequência 3: Crises soberanas
  • 4. Sequência 4: Crises sócio-politicas
  • 5. Sequência 5: Crises estratégicas

Doutro lado, neste número, o nosso team apresenta os oito países que parecem estar mais em risco do que a Grécia em matéria de dívida soberana, e avança a sua análise da evolução post-crise da economia financeira em respeito à economia real. Por fim, Europe2020 apresenta as recomendações mensais, entre as quais alguns critérios para uma leitura mais fidedigna das informações no contexto particular da fase de desagregação geo-politica mundial. 



0) O início da fase de deslocação geo-politica global: Q4 2009/ Q2 2010


Passo1: controvérsias monetárias e shock financeiros – Q1 2010 / Q4 2012

“Guerras monetárias” provocadas por desvalorizações competitivas, intervenções agressivas nos mercados monetários, fabrico de notícias e informação para empurrar correntes especulativas numa determinada direcção,...

O recente ataque especulativo ao Euro, levado a cabo pelos hedge funds e pelos bancos de investimento de Wall Street e da City de Londres com o pretexto da dívida grega, outra coisa não é se não o primeiro passo de uma série de controvérsias monetárias que irão aumentar nos próximos anos.

A luta Chino-Americana acerca do câmbio Yuan-Dólar será o nó central deste confronto internacional.

(clicar para ampliar)

A Esterlina Inglesa será a vitima que cairá no prazo entre agora e o Verão de 2010, após as eleições que provavelmente deixarão o Reino Unido numa situação ao estilo da Grécia: o reconhecimento forçado post-eleitoral do estado das finanças públicas que, na verdade, estão numa condição infinitamente pior do que anunciado desde o começo da crise.

A Suíça já actua uma política de desvalorização competitiva face ao Euro, gerida pelo Banco Central Suíço.

Estas "guerras monetárias" desencadeiam-se no âmbito de fluxos de capitais e levarão muitos países a seguir o exemplo do Brasil: impor controles acerca das trocas de capitais que entra no país de forma a evitar especulações para a própria moeda.

O Fundo Monetário Internacional, já enfraquecido em 2009 pela criação de uma espécie de FMA (Fundo Monetário Asiático), cada vez mais se encontra marginalizado, com uma clara posição da Europa que não permite a sua intervenção na Zona Euro.

Tradicional instrumento de influência de Washington, o FMI cada vez mais fica limitado aos países na órbita geo-política directa de Washington ou aos países mais pobres, outro sinal do desaparecimento dos nós geo-políticos das últimas décadas.

A crescente suspeita acerca das motivações dos bancos de investimento de Wall Street (entre as quais o papel no caso da crise grega, com o mais que suspeito envolvimento da Goldman Sachs) provocou também a exclusão de muitos acordos monetários e financeiros.

Assim em 2009 foi possível contar só 1 banco de investimentos norte-americano entre os primeiros dez que gerem o seguro da dívida nacional dos países europeus, enquanto nos anos anteriores os bancos EE.UU. ocupavam metade da lista.

Todas estas controvérsias monetárias terão como efeito a desestabilização do mercado dos US Treasury Bonds e de todos os assets denominados em dólares pois reflectem uma dúvida crescente, em particular dos governos da Europa, Ásia e América Latina, acerca da moeda americana e acerca dos seus "jogadores" públicos e privados



Acaba aqui a segunda parte do GEAB nº 43, em breve a terceira parte.

Texto de Informazione Scorretta, Felice Capretta
Tradução Massimo De Maria
Agradecimentos:  G.P., Conflitti e Strategie, Markozu

Fitch reduziu Portugal: AA-

É a noticia económica do dia em Portugal.

Mas como é lida a mesma noticia no estrangeiro?

Eis o que reporta o diário brasileiro O Globo:

A agência de classificação de risco Fitch Ratings reduziu a nota de crédito soberano de Portugal nesta quarta-feira de "AA" para "AA-", citando o fraco desempenho orçamentário do país em 2009 e alertando que mais problemas de orçamento neste ano e em 2011 podem causar outro rebaixamento. Em resposta, o euro renovou a mínima em 10 meses contra o dólar, caindo a US$ 1,3345, a menor cotação desde maio de 2009.

Um choque fiscal considerável em um cenário de relativa fraqueza macroeconomica  e estrutural reduziu a credibilidade de Portugal


Apesar o rebaixamento da nota, a Fitch disse que o plano de austeridade fiscal português é plausível, e que não espera que a instabilidade política atrapalhe a aprovação da legislação necessária.
De qualquer forma, este anúncio reforça os temores de que Portugal e Espanha entrem na crise de liquidez que ameaça a Grécia [...]


Após o comunicado da Fitch, o governo português pediu à oposição que apoie seu plano de austeridade de longo prazo, que será votado na quinta-feira no Parlamento, antes de ser apresentado a Bruxelas.

- É fundamental que Portugal mostre um esforço político firme na execução do seu programa de crescimento e estabilidade, com vista à correção das finanças públicas e redução do déficit por meio do aumento da competitividade externa - disse o Ministério das Finanças.

Fitch vê risco maior em 2012/2013

Apesar de positiva em relação ao plano de autoridade fiscal português, a Fitch viu, no entanto, um risco "significativo" de decepção macroeconômica, com um efeito dominó para o déficit particularmente no ano fiscal de 2012/2013.

- Um choque fiscal considerável em um cenário de relativa fraqueza macroeconômica e estrutural reduziu a credibilidade de Portugal - disse Douglas Renwick, diretor-adjunto na equipe de Dívida Soberana da Fitch.

Mas a agência disse que a possibilidade de Portugal enfrentar uma crise de liquidez é baixa.
- O rebaixamento tem mais impacto na crise de dívida soberana mais ampla do que em Portugal neste momento - disse Peter Chatwell, analista de bônus do Crédit Agricole em Londres. - A Fitch ficou no meio da Moody's e da S&P em termos de rating, então essa redução tem um impacto material mínimo e não significa necessariamente que outras farão o mesmo - disse.

23 março 2010

A velocidade universal

Até o director do Post Carbon Institute riu quando leu a escandalosa proposta dum apaixonado de motores que criou um blog para difundir a ideia.

Trata-se duma coisa muito simples: estabelecer um limite máximo de velocidade universal de 55 km/h (34 milhas horárias). Um tal limite aportaria uma série de inacreditáveis vantagens entre as quais:

  • maciça redução de gastos em petróleo
  • imediata redução de CO2
  • carros pequenos e produzidos com menos materiais
  • subida da procura para o transporte com comboio (mais rápido)
  • drástica queda da poluição causada pelos pneus
  • queda no número dos acidentes, feridos e mortes com redução das despesas sanitárias

...e a lista poderia continuar. Mas, como diz o artigo:
não importa quanto a ideia seja boa: a maior parte de nós ia combate-la.
Convido os leitores a considerar o vosso primeiro pensamento logo após ter lido a proposta de Scott. A lógica dele não falha.

De facto, o primeiro olhar leva a crer que a coisa seja simplesmente absurda. Depois, se pensarmos bem, quais as contra-indicações? Mais tempo para ir ao trabalho? Certeza?

Carros mais pequenos, mais pessoas no metro, nos autocarros e nos comboios. E nas nossas grandes cidades a velocidade média fica bem longe dos 50 km/h. E para as viagens mais compridas: hoje em dia é um drama logístico decidir em abdicar do carro, mas na altura em que todos fossem obrigados a velocidades muito baixas surgiriam melhores opções...e o comboio de alta velocidade até ganharia em utilidade.

Uma ideia tão louca?


Fonte: Petrolio
Texto: Debora Billi

Cartoons: Obama e a economia mundial

22 março 2010

Blockbuster e 7 anos de guerra

Enquanto esperamos pela segunda parte do GEAB, reportamos duas notícias de Informazione Scorretta:


Chapter11 para Blockbuster, 1 bilhão de dívidas

Blockbuster, nascido no Texas há 25 anos, com 6.500 revendas em todo o mundo, procede rumo à bancarrota: Internet e a pirataria digital traçaram o triste fado, informa ITespresso .

Sempre à procura dum bode expiatório, acrescentamos nós.



Mas vamos em frente com a tradução do artigo:

O colosso de aluguer de filmes está perto do Chapter 11 a chega depois de ter sido certificado por 1 bilhão de dívidas
Já no passado Abril a situação de Blockbuster parecia tão grave, mas logo a empresa, após acordos com o produtor de televisão Vizio e o produtor de videogravadores digitais TiVo, tinha tentado o relance com Samsung: Blockbuster On Demand devia ser parte integrada das novas televisões HD Samsung, dos Home Theater Systems e dos leitores Blue-Ray da sociedade sul coreana.

A responsabilidade pertence à Internet e à pirataria? Quem descarrega tem que ter remorsos?

Descarregar é ilegal, nada para acrescentar. Mas preferimos deixar que sejam os leitores a julgar.

Para nós, tudo o que começa tem um fim e Blockbuster está a ter uma altura de dificuldades que cedo ou tarde ditarão o fim da empresa. Internet e a pirataria podem estar entre as causas, mas afirmar que são as razões principais parece muito arriscado...

Mudamos de assunto.


Iraque, 7 anos de guerra


Sábado 20 de Março quase ninguém comemorou os 7 anos de guerra no Iraque.

Nestes 7 anos vimos tudo: guerra preventiva, guerra de libertação, guerra para exportar a democracia, guerra para remover um perigoso ditador, guerra contra as armas de destruição maciça, e, por fim, a melhor: guerra para trazer a paz.


Talvez chamá-la guerra de ocupação era mais imediato e mais verdadeiro.


Ipse dixit.

20 março 2010

O cobre e a Índia



O diário é El Mercurio de Santiago do Chile, secção "Economia".


India planea ingreso a la minería chilena con joint ventures de explotación

Primeiro a China, agora a Índia. O gigante asiatico tem interesse em desenvolver negócios na industria mineira chilena, assim como já fez Pequim.Por isso uma comitiva público-privada, liderada pela vice-ministra dos Recursos Minerais, Santha Sheela Nair, reuniu-se hoje com a homologa chilena, Verónica Baraona, representante de Codelco, Cochilo, Sernageomin e Enami para discutir acordos de cooperação em matéria de exploração mineira, como também para promover joint-ventures no mesmo sector.para a exploração de minas no Chile e na Índia. 

Segundo a ministra chilena, "este encontro permitirá reforçar os relacionamentos com uma das economias com maior dinamismo e crescimento a nível mundial, em que espera-se que la procura de cobre e de outros bens aumente de forma considerável nos próximos anos".

Actualmente não há registo de capitais chilenos em empresas indianas, enquanto la equação contrária parece promissora: a empresa indiana JSW Steel (grupo Jindal), por exemplo, já em 2005 assinou uma joint venture com a Mineira Santa Fe.



Acabam aqui as noticias do Chile. E fica reforçada a ideia que, enquanto no Ocidente fala-se duma retoma que nunca aparece, no Oriente falam menos e avançam com ideias claras e factos.
 

Ipse dixit.

19 março 2010

GEAB 43 - Parte I: O fim da City e de Wall Street

Está disponível o GEAB nº 43.

A crise marca o fim da supremacia da esfera financeira e o declínio da City e de Wall Street

É com uma aproximação geo-politica, mas também económica, financeira e monetária, que Europe2020 anunciava em 2006 a chegada da que baptizamos "crise sistémica global". O mesmo tipo de aproximação agora parece confirmar que, no mundo post-crise, será a economia real a desenvolver o papel de protagonista, enquanto as últimas décadas foram marcadas pela economia virtual do sector financeiro que estava no centro dos negócios.

Em 2006, com a consideração que a crise era sistémica e global, quisemos realçar o facto da queda económica ter reflectido a queda do mundo tal como conhecido desde 1945, na sua forma centrada no Oeste, herança da II Guerra Mundial reforçada pela queda do Muro de Berlim.

As modalidades financeiras, económicas, monetárias, sociais, políticas e estratégicas que surgirão ao longo das várias fases da crise representarão expressões duma mudança geo-politica de dimensões históricas.

Os desenvolvimentos acontecidos a partir de 2006, de facto, parecem mostrar que esta ruptura pede um exame mais profundo do que tínhamos previsto. É provável que estejamos a sofrer os efeitos shock do fim de um período começado há 200 ou 300 anos, com o inicio da dominação global europeia e o nascimento da dominação financeira do bloco anglo-saxónico.

Há um ano pormenorizámos no GEAB um conjunto de sinais que apontavam para o fim deste período secular:

  • Em 2009 a taxa de interesse do Banco da Inglaterra alcançou o ponto mais baixo (0,5%) desde a inauguração do banco em 1694, 315 anos de história. 
  • Em 2008 a Caisse des Depots, o braço financeiro do estado francês desde 1816, sofreu a sua primeira perda anual em 193 anos. 
  • Em 2009, Abril, a China alcançou o status de primeiro partner comercial do Brasil. Há dois séculos a Grã Bretanha tinha acabado com a hegemonia portuguesa e os Estados Unidos substituíram a Grã Bretanha nos anos '30.
  • A percentagem de China e Índia entre as economias mundiais caiu desde o fim do séc. XVIII e voltou a subir nos últimos 20 anos, e de forma muito rápida. São basicamente economias reais. O regresso em força marca automaticamente uma expansão da economia real face à economia financeira virtual (em particular americana).

A inversão de tendência de um período particularmente comprido acompanha a queda da mais recente "bolha" que se formou de maneira progressiva desde os anos '70 e que podemos definir como "Os excessos dos últimos dias do império". Ao saber que uma crise deste alcance é uma formidável contracção temporal, as mudanças que acontecem de forma normal em décadas ou séculos podem acontecer no prazo de poucos anos. 

Desde o começo de 2008, com uma série de bancarrotas gigantes de Wall Street e com as "salvações" do governo americano, estamos a testemunhar a queda das duas âncoras da bolha financeira mundial: New York e Londres, o coração da rede de acções, bond, mercados, agências de rating, média internacionais da finança. Os outros centros têm escassa importância quando comparados com estes dois gigantes.

Estes dois centros do império anglo-saxónico, Londres "alto reino" e New York "baixo reino", estão a dividir-se perante os nossos olhos:

Londres existe só graças ao enorme suporte directo do governo inglês. Sem o dinheiro do contribuinte inglês os parâmetros da City teriam desaparecido desde 2008 (KPMG comparou a taxação das instituições financeiras de 8 centros financeiros mundiais. O resultado é claro: num só ano Londres caiu desde o 4º até o último lugar)

New York está também sob terapia governamental e sobrevive só com a politica do dinheiro com custo zero que a Federal Reserve perseguiu nos últimos 2 anos, juntamente aos milhares de milhões de mútuos que sempre a Fed adquiriu para evitar a queda total do mercado imobiliário comercial dos EE.UU. Assim como em Londres, 2010/2011 marcará o fim destas politicas, levando Wall Street para uma nova fase de fraqueza. 

Além disso, a razão de ser geo-politica desta bolha entrou na fase terminal. Este sector financeiro mundial começou o seu crescimento nos anos '70 (ver o gráfico em baixo) em parte pela decisão americana de deixar o dólar flutuar, em parte pela necessidade de reciclar os enormes surplus financeiros dos países produtores de petróleo.



EE.UU. Economia real (em preto) e sector financeiro (em vermelho)
Fontes: Bureau of Economis Analysis e Federal Reserve System


Este foi o primeiro sinal que os EE.UU. já não eram capazes de sustentar o papel central na nova ordem mundial assim como tinha acontecido após 1945, que marcou o irresistível crescimento da economia virtual. Para manter esta invenção quanto mais possível longe da economia real, os EE.UU. facilitaram o aparecimento de novos "players", instrumentos financeiros e produtos que permitiram ao nicho de se transformar em bolha. 

Neste aspecto, a aceleração dos desenvolvimentos dos quais a crise é ao mesmo tempo símbolo e catalisador, contribui para fazer "explodir" a bolha da economia virtual e provoca fraqueza em todos os elementos que permitiram a sua existência.



Em breve a segunda parte do GEAB nº 43. Stay tuned!

Ipse dixit.

Texto de Informazione Scorretta, Felice Capretta
Tradução Massimo De Maria

18 março 2010

O preço do petróleo: Fevereiro

Um blog interessante, criado e gerido pela jornalista Debora Billi, é Petrolio que fala, como se pode intuir, de todos os assuntos ligados aos hidrocarbonetos. Petrolio segue o histórico do preço do crude com uma tabela que aqui publicamos:

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Os bons velhos tempos dos 30 dólares por cada barril já foram e, depois de ter atingido os picos de 2008, o preço parece estabilizado entre os 70 e os 80 dólares.


Mas quais os países aos quais mais pode interessar uma variação significativa dos preços? Como é óbvio, estes países são os que mais importam e, sempre a partir de Petrolio, eis a classificação dos estados que mais petróleo importam:

Importação de petróleo em barris/dia cada 1.000 habitantes

1) Israel: 43,50
2) Japão: 41,60
3) Grécia: 37,21
4) Espanha: 37,18 
5) Guatemala: 35,54
6) Estados Unidos: 35,17 
7) Alemanha: 31,54
8) França: 30,5
9) Italia: 29,9
10) Panamá: 18,15
11) Austrália: 11,9
12) Tailândia: 8,41
13) Turquia: 8,39 
14) Sul África: 5,82 
15) Ucrânia: 5,2

Fonte: Business Insider

Ditos de outra forma, estes são os países que mais devem temer uma subida do preço do crude. E não faltam as surpresas.

Quem não pensava em encontrar os Estados Unidos no primeiro lugar? Ora bem, no topo da classificação está Israel.

Curioso: o país que a maioria dos árabe queria "apagar" é, ao mesmo tempo, um dos melhores clientes.

Mas também a Grécia em 3º lugar espanta...até um certo ponto: será um caso que este país enfrente agora uma das suas piores crises? Ou, mais provável, pode ser normal que um estado que dependa em tal medida duma matéria prima produzida no estrangeiro seja um dos mais fragilizados no meio duma crise global?
Nós, como é óbvio, optamos pela segunda hipótese.

Uma dúvida: o que fazem num país como o Guatemala (grande mais ou menos como Portugal, 12.728.111 de habitantes) com todo aquele petróleo?

Ipse dixit.

Fonte e tabelas: Petrolio
Texto: Massimo De Maria

Marc Faber: Crise final, bancarrota dos governos

Red Bull Race: no Porto ou em Lisboa?

Esta é a dúvida que assusta o País nestas horas. Será melhor pôr os aviões a esvoaçar sobre as águas do Douro ou das mais calmas do Tejo?



A pergunta não é secundária até ao ponto de merecer um encontro entre os dois presidentes das respectivas câmaras. "Ambos os autarcas sublinharam que este entendimento terá ainda de passar pelos parceiros do evento, as autarquias de Oeiras e Gaia, o Turismo de Portugal e pela própria Red Bull" informa o diário Expresso de hoje.

Quatro autarquias, um ministério e uma empresa privada não poupam esforços. Nós não podemos senão aplaudir.

Mas, entretanto, gostamos de ver se no mundo acontece alguma coisa que, mesmo sem ter a mesma relevância, possa mesmo assim despertar algum interesse.

E no Youtube encontrámos esta entrevista.


Faber: a crise final será a bancarrota dos governos

Marc Faber é conhecido por ter feito sair dos mercados das acções os seus clientes uma semana antes da queda de Outubro de 1987. E em 2007 tinha antecipado a Fox News uma importante "correcção de mercado".

A entrevista não é nova, tendo sido transmitida em Dezembro de 2009,  mas merece ser lida.

[o caso do Dubai] relembra que também as nações podem fazer default, assim as empresas que são percebidas como "garantidas pelo governo" podem fazer default.

Este [caso de Dubai] é uma campainha de alarme que os mercados não encararam de forma séria porque vêem que cada vez que existe um problema os bancos centrais chegam e imprimem dinheiro. E se ainda é presente fraqueza haverá outros estímulos.


À pergunta se Faber pode antecipar default soberanos ou quase-default ao longo dos próximos 6 meses ou 1 ano, assim responde:

Ao longo dos próximos 6 meses ou ano provavelmente não porque [as nações] podem imprimir dinheiro. No caso da zona Euro existem nações débeis como a Grécia que podem decidir de deixar o Euro. Mas é possível, imagino, que muitos governos acabem sem dinheiro, EE.UU. incluídos.

Pergunta acerca da Grécia, Letónia, Irlanda e CDS, cuja subida de preços confirma os temores acerca destes países:

Penso que no princípio serão salvas mas, como disse, na história há enormes default soberanos [...] e o que vimos é só a ponta do icebergue.

Tivemos a crise financeira em 2008.
Tivemos quantitative easing e medidas de estímulo em 2009.

Ma nada ficou resolvido, só adiado mais para a frente.

A crise final não será só a bancarrota dos bancos e do sector financeiro como em 2008, mas será a bancarrota dos governos.


Em inglês, eis a entrevista completa com uma interessante parte acerca dos bond EE.UU.:

17 março 2010

Melhor uma moeda forte ou débil?

Moeda forte e moeda débil

Usualmente a maior parte das pessoas que vivem numa nação ficam felizes quando a moeda deles fica mais forte e ficam tristes quando esta enfraquece.

A questão é meramente emotiva: estamos felizes quando somos fortes e as nossas coisas são "fortes" também, ficamos deprimidos quando estamos débeis e as nossas coisas são "débeis" também.

Mas a realidade é um pouco diferente.
Se não vejamos:


O que significa "moeda forte"?
Vamos simplificar: imaginemos um mundo onde existem só dois estados com duas moedas: o Euro (EUR) e o Dólar do Resto do Mundo (RMD).

Existe neste mundo uma taxa de câmbio, entre EUR e RMD, e flutua com base no andamento do mercado.

A sua flutuação é determinada por variáveis que determinam as taxas de câmbio, escolhas dos bancos centrais incluídos.Mesmo assim, podemos afirmar que ao longo prazo quanto mais a economia europeia é sólida, estável e segura tanto mais o EUR fica apreciado (isso é, fica "mais forte") no que diz respeito ao RDM.

Vamos supor que no começo do ano o relacionamento entre as duas moedas seja de 1:1. Isso significa que com 1 EUR podemos comprar 1 RMD. E vice versa, óbvio.

Com o passar dos meses a economia europeia chega a melhorar enquanto no resto do mundo abranda e cresce o desemprego. O mercado dos câmbios reflecte este fenómeno e, após um ano, a taxa de câmbio entre EUR e RMD passa a ser 1:2; isso é, com 1 EUR compram-se 2 RMD, enquanto são precisos 2 RMD para adquirir 1 EUR.

Agora o EUR é mais forte.

Os cidadãos deveriam ficar felizes. Mas é mesmo assim?


As consequências da moeda forte


Para os cidadãos as coisas são mais interessantes.

Quem viaja para o estrangeiro tem a sensação de estar muito rico pois a sua moeda vale o dobro da moeda do resto do mundo e porque as coisas no resto do mundo custam a metade (o que é a mesma coisa).

Da mesma forma, tudo o que é importado para a Europa e é produzido fora da Europa é extremamente conveniente para os europeus.

Uma Coca Cola produzida no Resto do Mundo há um ano custava como na Europa:
1 lata = 1 RMD = 1 EUR.
Após um ano, com o câmbio 1:2 as coisas estão assim: 1 lata = 1 RMD = 0,5 EUR.
Um desconto de 50%! E a mesma coisa passa-se com os carros, as matérias primas,...

Só vantagens?

Não...

Pensem nas empresas que produzem na Europa e exportam para o Resto do Mundo.

Para estas o efeito é exactamente o oposto: de repente os produtos delas custam o dobro no mercado do Resto do Mundo!

Enfrentam assim uma crise sem antecedentes, com os consumidores do Resto do Mundo sem dinheiro para adquirir os produtos da Europa. Por isso menor produção, menor lucro, menos lugares de trabalho, empresas que fecham.


As consequências da moeda débil

Agora apaguem tudo e começamos outra vez. Prontos?

Bem, imaginem o mundo dantes, com só duas moedas. E imaginemos que após um ano aconteça o contrário do que foi dito. Agora a taxa de câmbio é 2:1, isso é, 2 EUR = 1 RMD. Agora são precisos 2 EUR para poder adquirir 1 RMD.

Com a moeda débil as consequências parecem ser dramáticas para os consumidores e para as empresas:
tudo o que é importado custa o dobro! Agora são precisos 2 EUR para comprar 1 lata de Coca Cola. Carros, sapatos, matérias primas, tudo o que é produzido no Resto do Mundo custa o dobro.

Imaginem o preço da gasolina e de todos os bens relacionados com o petróleo: os preços sobem (também o custo dos transportes, por exemplo) e temos inflação.

Só desvantagens?
Não.

Pensem nas empresas que exportam.

Para elas o efeito é o contrário: os produtos são mais convenientes quando vendidos nos mercados estrangeiros e as encomendas não faltam, bem pelo contrário. Estas empresas vivem um boom de exportações e prosperam criando crescimento económico e emprego. 

Um fluxo constante de dinheiro entras nas caixas europeias e trata-se de dinheiro com valor (vale o dobro!).

Também no interior da zona EUR a situação não é assim dramática: é verdade que os sapatos que antes eram importados a partir do estrangeiro agora não vendem mas pode ser que alguém, na Europa, comece a produzir sapatos inteiramente "Made in Europe", feitos a partir de matérias primas locais. O que significaria outros empregos e remuneração para os produtores europeus...

Uma situação, esta, não proteccionista mas sem dúvida útil ao mercado interno.



Melhor moeda forte ou moeda débil?

Depende.

Como vimos, ambas as situações apresentam prós e contras.

Num país muito importador e pouco exportador, com escassez de matérias primas, poderia ser mais vantajoso apostar numa moeda forte.

Num país muito exportador e pouco importador, com muitas matérias primas, seria preferível uma moeda débil.

Portugal, por exemplo, é um país que exporta produtos de qualidade e importa muitas matérias primas. A escolha não é fácil, mas com uma moeda fraca seriam provavelmente mais as vantagens que as desvantagens.
Pena que o banco central que pode intervir no valor da moeda portuguesa já não é o Banco de Portugal mas a BCE, o Banco Central Europeu, cujos interesses não são necessariamente os mesmos do país...

Diferentes os casos de países como o Brasil ou Angola que ainda não abdicaram da soberania monetária: nestes países, ricos em matérias primas, uma moeda fraca ajuda as exportações enquanto as importações ficam penalizadas. Mas, como vimos, esta situação pode levar ao aparecimento de produtores locais, com recaídas positivas na economia do país.


Ipse dixit.

Texto de Informazione Scorretta, Felice Capretta,
e Massimo De Maria
Tradução Massimo De Maria

16 março 2010

GEAB 42 - Parte III: A posição da Rússia

south stream nabucco
Eis a terceira e última parte do GEAB nº 42.

A primeira parte pode ser encontrada aqui e a segunda aqui.

Interessantes a introdução dos projectos South Stream e Nabucco, essenciais para compreender as manobras no tabuleiro euroasiático.


Lembramos que publicamos o GEAB sem obrigatoriamente compartilhar o conteúdo inteiro. Cabe aos leitores avaliar e decidir...



Rússia: Melhor preparada que outros jogadores para enfrentar os próximos anos

Isso pode parecer paradoxal, em particular para quem leu os média de forma superficial: mas o País acabou de sair duma transição significativa ao abrir-se ao mundo após 1945...a partir de 1989.

Com Vladimir Putin que detém o poder na maior parte da década sucessiva (enquanto primeiro ministro e presidente), a Rússia segura um comprido período de estável governação central, o que não é o caso de muitos outros jogadores globais

Os lucros de óleo e gás (que não tiveram uma queda significativa quando comparados com o preço médio de 2009) permitem a planificação do próprio desenvolvimento estratégico interior e exterior.

Três exemplos podem ilustrar o facto da Rússia estar hoje na direcção de retomar o controle sobre o seu ambiente:

. em Dezembro de 2009 a inauguração do Sapsan, o primeiro comboio de alta velocidade entre Moscovo e São Petersburgo, anuncia a que será uma década de modernização difundida às infraestruturas dos transportes, incluídos as pipeline para o gás e o petróleo.

. Os projectos das pipeline com o objectivo de rodear a Rússia, tal como o projecto Nabucco, estão para fracassar porque sem uma politica activa e o suporte financeiro dos EE.UU. transformam-se em simples projectos económicos que têm como consequências a integração da Rússia.

. A inauguração em Kozmino, em Dezembro de 2009, do primeiro terminal petrolífero russo à beira do Oceano Pacífico (actualmente existem só dois terminais, no Mar Báltico e no Mar Negro) permite ao País participar no desenvolvimento asiático dos próximos anos. 



Projecto South Stream contra Nabucco – Fonte: VoxThunae, 11/2009

De facto, trata-se da grande aposta do Kremlin nesta década chave: ser capaz de angariar lucros a partir do dinamismo asiático sem ser "refém" dos asiáticos, em particular dos Chineses cuja presença cresce na Sibéria, e manter um relacionamento forte e estratégico com a UE; sempre mantendo afastadas as ambições europeias acerca da Rússia.

Os Franceses e os Alemães terão um papel chave no relacionamento entre UE e Rússia dos próximos cinco anos: qualquer equilíbrio europeu será impossível sem uma forte colaboração entre estas três partes, em particular agora que o "primo americano" está com grandes problemas.

Franceses e Alemães constituem muito daquilo que os Russos consideram ser o Ocidente e têm um grande potencial relacional do ponto de vista de Moscovo: consideração que resulta ser verdadeira só se o interesse Europeu é genuíno e próprio da UE, não uma fachada para Washington ou outros.

A recusa da França, Alemanha e Rússia em ficar envolvidas na guerra e nas mentiras acerca do Iraque em 2002/2003 é um bom exemplo do relacionamento estrutural que os Europeus e a Rússia podem encontrar perante objectivos comuns.

A Rússia pôs em cima da mesa um destes objectivos a partir do summit G20 de Londres: a substituição do dólar como moeda de reserva internacional

Seguir este passo pode representar um claro interesse para a zona Euro, pode significar pôr o fim ao actual estado de caos monetário internacional.

Se França e Alemanha tivessem leader com uma visão estratégica verdadeira e com um sentido histórico tal como tinham De Gaulle e Adenauer ou Mitterand e Khol, então a dupla Franco-Alemã teria já empurrado a UE para colher esta oportunidade e para discuti-la com Moscovo; e esta dupla (uma espécie de representação da UE) seria o convidado de honra no próximo summit do BRIC.

Provavelmente será preciso esperar até 2012, até as eleições presidenciais da França, para saber se existe a possibilidade de desfrutar a tal oportunidade.

Em caso de insucesso, França e Alemanha, e os Europeus em geral, serão os responsáveis pela descida ao Inferno do sistema monetário internacional na segunda metade deste decénio, abrindo a estrada à Rússia para reposicionar-se na esfera de influência asiática.

Lembramos que foi Moscovo que evitou por duas vezes a dominação imperial na Europa, com o fundamental suporte nas derrotas de Napoleão e Hitler, e que Estaline tentou em 1930 convencer França e Reino Unido para alcançar uma aliança com a Rússia contra a Alemanha nazi. 

O medo de ser acusados de filo-comunismo negou uma aliança que poderia ter evitado uma guerra suicida e decénios de divisão

O decénio 2010 será outro teste para a elite da Europa, se serão capazes de ultrapassar o medo de ser acusados de anti-americanismo e evitar assim uma catástrofe monetária global.

Uma coisa resulta ser clara: nos anos '30 os aconselhamentos dos círculos financeiros e bancários (tudo mas não uma aliança com Moscovo) não teriam sido ouvidos se a preocupação tivesse sido os interesses de médio e longo prazo.



Em cima: Progressão da produção, exportação e consumo domestico de gás russo até o 2020 (bilhões de metros cúbicos). Linha azul: exportação e consumo domestico; Linha vermelha: produção.

Em baixo: Progressão da exportação de gás russo em 2020. Verde escuro:  Europa; Vermelho: Ásia-Pacífico; Verde claro: Países da CSI. 
Fonte: Energy Tribune, 02/2007

Infelizmente, os leader da Rússia não têm muito jeito em prevêr as reacções emotivas europeias perante algumas acções ou declarações particularmente brutais: provocar o medo não ajuda em nada quando estamos à procura dum partner fiável.

Neste aspecto França, Alemanha e Europa em geral têm um papel educativo essencial.

Em qualquer caso, a Rússia é um candidato ideal num decénio bastante estático no que diz respeito às outras potências.

O facto de já ter atravessado o período de transição caótico, nos anos '90, contribui para esta situação.

A Rússia ficou envolvida no "mundo post-crise" ao longo de vinte anos, desde a queda do muro de Berlim, e nos próximos anos será capaz de mexer-se no tabuleiro enquanto o poder dos EE.UU. fica cada vez mais reduzido e a UE procura o seu objectivo.

Todavia, sem os europeus ou os asiáticos (com as suas atitudes técnicas e os investimentos) Moscovo não será capaz de fornecer a quantidade de petróleo e gás de que a Rússia precisa para fazer frente à procura interna e à exportação, e isso poderia implicar um problema sério tanto para a Europa como para a Rússia.


Recomendações estratégicas e operativas


Ainda uma vez lembramos que todos os nossos aconselhamentos não têm o fim de especular no curto prazo mas de conseguir perder o menor possível (ou até nada) porque no meio de uma crise sistémica global este é o único objectivo realista.


Divisas

As análises feitas neste número do GEAB explicam porque não existe mudança nas nossas previsões neste sentido: mexidas a curto prazo não influenciam a forte tendência para a queda do Dólar norte-americano e da Esterlina Inglesa.

Esta última permanece débil perante os ataques ao Euro, ataques que achamos ser de curto prazo e sem razões estruturais.



Imobiliário Comercial [CRE]

Se o vosso desejo, ou necessidade, é um local numa das principais zonas comerciais, em particular na Europa ou nos EE.UU., melhor esperar até o fim do primeiro semestre e pretender uma redução entre o 30% e o 50% do preço de aquisição ou da renda.

Os saldos de fim de época estão para chegar.


Acções

Os mercados das acções já tiveram dias melhores. Quase todos os factores que levaram a um crescimento entre Março e Setembro de 2009 (a partir daí é só estagnação) estão para desaparecer:

. a enorme liquidez oferecida pelos bancos, a mesma liquidez que sustentou o crescimento de 2009 e que estará na base das estratégias para a saída das medidas de emergência.

. desilusão acerca da "retoma" e do crescimento do Ocidente, em particular dos EE.UU., sem falar dos bilhões injectados na economia: não existe retoma pois tudo foi sustentado com fundos públicos.

. subida do custo do dinheiro

. a China não estará numa posição melhor: os seus mercados já se encontram enfraquecidos e o "mito" do crescimento chinês auto-sustentável não irá além do Verão de 2010.


Metais  preciosos 

Perante a fragilidade do sistema monetário internacional, repetimos que seria útil diversificar uma porção dos próprios asset com metais preciosos. Os metais raros são um bom investimento para os próximos 4/5 anos, antes do desenvolvimento de produtos de substituição nos EE.UU., Europa e Ásia (não China).


Nota do Tradutor: 

Atenção! Lembramos que Informação Incorrecta não está ligada de forma nenhuma ao grupo Europe2020 e que estas não são as nossas sugestões para os vossos investimentos. 
Informação Incorrecta não fornece aconselhamentos de carácter económico.
Convidamos os leitores para decidir de forma autónoma o destino dos próprio investimentos, assumindo cada um a própria responsabilidade.

Acaba aqui a terceira e última parte do GEAB nº42.
As partes já publicadas:

GEAB 42 - Parte I: Intensificação da crise na segunda metade de 2010 

GEAB 42 - Parte II: Três tendências fundamentais que irão piorar a crise na segunda metade de 2010


Texto de Informazione Scorretta, Felice Capretta,
e Massimo De Maria
Tradução Massimo De Maria

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