30 abril 2010

Desemprego

Breve actualização acerca da tragédia grega & C.

Nas Bolsas voltou a calma. Os problemas, é evidente, não acabaram mas por enquanto dá para descansar. Pelos menos até Segunda-Feira.

O acordo acerca da ajuda para a Grécia parece chegar, de facto, no Domingo. Parece. Pois a fonte desta informação é grega. E os Gregos têm uma certa pressa...

Mas a Europa continua confiante e oferece uma imagem de solidez invejável:

- Angela Merkel admitiu hoje que um país europeu seja obrigado, em último recurso, a sair da zona euro se, “repetidamente, não cumprir as condições” necessárias para se manter na moeda única.
- Durão Barroso:“Os tratados europeus não prevêem tal possibilidade e seria um erro emenda-los”.

Situação clara, portanto.

Entretanto nós, comuns mortais, podemos estar mais interessados em outros assuntos.
Por exemplo:
  • Preços da Zona Euro sobem 1,5% homólogos em Abril.
  • A taxa de desemprego  em Espanha atingiu 20,05% no primeiro trimestre do ano, anunciou hoje o Instituto Nacional de Estatística espanhol. 4.612.700 pessoas sem trabalho.
  • A taxa de desemprego em Portugal atingiu os 10,5% em Março, mais 0,2 pontos percentuais que em Fevereiro: 588.000 pessoas sem trabalho.

E o Jornal de Negócios encontra também a maneira para fazer humor involuntário:
Trabalhar menos é o melhor caminho para viver melhor

Vamos ter uma Península Ibérica de centenários.

Ipse dixit.


Fontes: Ansa, Público, Jornal de Negócios

We the people...

Quanto vale a palavra dum Presidente?

E se for o Presidente dos Estados Unidos?

E, ainda pior: se for uma palavra do Presidente dos Estados Unidos acerca do petróleo?

Business Insider fez a mesma pergunta mas foi também procurar a resposta. 

E, uma vez encontrada, criou uma apresentação baptizada "A nossa patética historia de dependência do petróleo estrangeiro".

O título é simpático, vamos ver o resto:

  • Richard Nixon, 1974. No final deste decénio, em 1980, os Estados Unidos deixarão de depender de outros países pelas necessidades energéticas. Petróleo importado: 36,1%.
  • Gerald Ford, 1975. Temos que reduzir as importações de petróleo na ordem de um milhão de barris antes do final do ano e de dois milhões antes do final de 1977. Petróleo importado: 36,1%
  • Jimmy Carter, 1977. A partir de agora a nossa Nação nunca mais utilizará mais petróleo daquele que foi importado em 1977. Petróleo importado: 40,5%
  • Ronald Reagan, 1983. Enquanto a conservação é boa em si, a melhor resposta é tornar o País independente das fontes estrangeiras no máximo possível. Petróleo importado: 43,6%
  • George Bush, 1992. Quando a  nossa Administração desenvolveu a estratégia energética, três pontos chave foram considerados: o primeiro é a redução da dependência do petróleo estrangeiro. Petróleo importado: 47,2%.
  • Bill Clinton, 1995. A crescente dependência do petróleo estrangeiro é uma ameaça para a nossa segurança [...] continuamos a aumentar os esforços para estimular a produção nacional. Petróleo importado: 49,8%
  • George Bush Jr, 2006. A tecnologia ajuda para alcançar um grande objectivo: substituir 75% das importações petrolíferas do Médio Oriente antes do fim de 2025. Petróleo importado: 65,5%. 

  • Barack Obama, 2009. Será fundamental na minha administração reduzir a nossa dependência do petróleo estrangeiro  construir uma economia energética que criará milhões de lugares de trabalho. Petróleo importado: 66,2%

Ditado de popular:

Se i disonesti foissan nuvie, ghe saieiva de longo o diluvio. 

Se os malandros fossem nuvens seria sempre chuva.

E nada mais.



Fontes: Petrolio, Business Insider

Brasil e Angola na Galp

Brasil e Angola entram na Galp.

Outro sinal que indica uma simples realidade: as coisas mudam, e depressa também.

Alguém poderia ter imaginado isso há dez ou vinte anos atrás?

O Brasil é uma potência emergente enquanto Angola vem logo a seguir.

Portugal é a imagem duma Europa que pouco tem a dizer num mundo económico em rápida evolução e onde as deslocações geo-políticas avançam..

Jornal de Negócios:
O futuro da estrutura accionista da Galp está próximo de estar clarificado. Mas a sua estrutura de gestão ainda não: as negociações entre Estado, Américo Amorim, angolanos (Sonangol e Isabel dos Santos) e brasileiros da Petrobras estão em fase adiantada, para "dividir" os 33,34% que a Eni detém na empresa portuguesa.

Como o Negócios já noticiou, a participação da Petrobras está definida: os brasileiros ficarão com 25% da Galp. O que ainda está a ser definido são os poderes atribuídos à participação. Em causa está a negociação de alterações estatutárias que atribuam aos brasileiros poder, quer em determinadas decisões estratégicas da empresa, quer na composição dos órgãos de governo de sociedades.

E é o Ministro português Teixeira dos Santos que confirma as negociações.

África 21:
O ministro português das Finanças, que efectuou na passada segunda-feira uma visita em Angola, admitiu que a maioria dos 33% que a italiana ENI tem no capital da portuguesa Galp poderá ser adquirida pela estatal brasileira Petrobras.
Sobre a possibilidade da estatal angolana de petróleos Sonangol também adquirir participação directa na Galp, o ministro disse que Portugal não tem qualquer preconceito em relação a investidores estrangeiros em Portugal "e muito menos em relação a investidores angolanos".
"Portugal está interessado em investir em Angola e se houver investidores angolanos interessados em investir em Portugal com certeza que serão bem-vindos", afirmou Teixeira dos Santos.

Ehhh? Vamos traduzir a frase do Ministro:

"Portugal está de rastos e tem absoluta necessidade de dinheiro assim venham brasileiros e angolanos antes que apareça um chinês qualquer".

Esta parece a versão mais correcta.

Só há um pequeno problema que os artigos não esclarecem: quanto pede a ENI para vender a própria participação na petrolífera portuguesa?

Ipse dixit.

Greenwald, Stiglitz e o desemprego

Talvez o nome de Beppe Grillo não diga muito fora das fronteiras, mas é dele o blog mais lido em Italia e o 7º mais lido no mundo.

Bruce Corman Norbert Greenwald é professor da Columbia University, considerado pelo New York Times como "o guru de Wall Street".

Joe Eugene Stiglitz, também da Columbia University, ganhou o Prémio Nobel da Economia em 2001.

O blog de Grillo entrevistou Greenwald e Stiglitz ao longo da semana passada. Eis o resumo do encontro:

A actual crise é causa de muitos problemas: que teoria económica é disponível, é possível uma comparação com a crise do '29, quanto tempo irá durar?

A crise que começa em 2007 contribuiu para realçar muitos dos problemas da ideologia liberal, em particular a ideia que o livre mercado possa resolver todos os problemas económicos  com uma eficaz atribuição dos recursos.
Assim o fundamentalismo do mercado, com a ideia que uma liberalização dos mercados teria levado a uma divisão dos riscos (com os derivados), fez com que o sistema económico assumisse dívidas que não pode pagar. A teoria económica dominante, após uma inicial desorientação, volta para as velhas posições. Não é difícil prever que, passada a crise, voltará o pensamento económico, embora a derrota sofrida.

A crise, todavia, é provocada, ao contrário do que se pode pensar, não pelos sub-prime mas pelo excesso de endividamento das famílias americanas, da dívida pública e do deficit do comércio internacional dos EUA. É como se os Chineses estivessem a financiar o crescimento americano. Alguém pode acreditar que esta situação possa ir em frente para sempre?
Outro aspecto não considerado é o desemprego, ou seja, quem paga verdadeiramente a crise. Nos EUA o número dos trabalhadores sem ocupação é sem dúvida maior do que afirmado pelas estatísticas oficiais que não consideram os desencorajados: se incluirmos estes estimamos uma taxa de desemprego de 15%.
Salvar o sistema financeiro é importante, mas as verdadeiras causas da crise ficam não resolvidas: Wall Street melhorará, os bancos voltarão aos lucros mas o trabalho não e a economia da típica família americana fadigará para encontrar um equilíbrio.
O sistema irá sobreviver (até a próxima crise) enquanto os custos recaem nos trabalhadores e contribuintes.
Para as famílias da Europa mediterrânica? O Euro tem que continuar e salvar a Grécia é uma necessidade. Todavia a crise voltará, não com a Grécia mas com um outro (grande?) País.

A globalização ainda assusta muitos enquanto encoraja outros. Quais as vossas ideias acerca do futuro da globalização?
O medo dos chineses roubarem o trabalho é difundida e irracional. Isso porque as economias são diferentes nas próprias estruturas. A agricultura empregava a maior parte da ocupação americana em 1850, agora menos de 2%. A manufactura foi importante ao longo de um século e mais, mas agora nos EUA existem mais empregados ligados ao desporto do que trabalhadores de manufacturas. As máquinas trabalham.
A globalização acabará porque o futuro será uma sociedade post-industrial onde dominam os serviços, que muitas vezes não é possível exportar. E não é difícil prever que educação e saúde irão ser os sectores mais importantes no futuro: neste caso o panorama é optimista nos EUA, menos na China, Japão e Alemanha, cujas economias ainda estão ligadas de forma pesada à indústria.
Mas atenção: estes últimos três Países investem muito na pesquisa e preparam o salto. Salto que custa mas que é preciso pois sem pesquisa não há futuro.

Acaba aqui a entrevista.
Mas fica uma dúvida: a crise voltará, como dizem os dois economistas? Num grande País? Se calhar da Europa do Norte? Talvez perto do Tâmisa? E que País pode ser este? Mah...

Fonte: beppegrillo.it

29 abril 2010

Nuvens negras

Como vimos no anterior post, dia de ganho para Portugal. Após ter visto o fundo do poço, a economia local subiu outra vez e agora pode esticar-se. O tempestade passou.

Mas passou mesmo?

Quem escreve não é pessimista e não gosta de profetizar desgraças.
Mas nem gosta de beber as declarações triunfantes de alguns operadores como se fossem verdade absoluta.

Muitas vezes a verdade está no meio. No nosso caso a tempestade passou, verdade, mas no céu há ainda nuvens bem negras. E não podemos baixar a guarda.

Dois gráficos:

O primeiro representa o crescimento do riscos dos bancos europeus.




Feio, não é? Calma, falta ainda o segundo. É o risco dos bancos portugueses:


Caso não fosse claro, baixo é bom, alto é mau. Pois.

E agora uma leitura pedagógica. Milano Finanza:


Espanha e Portugal, risco contagio no sector privado

UBS olha com preocupação para o crescente nível de endividamento da famílias, empresas e sobretudo bancos dos dois Países Ibéricos. Embora a situação seja diferente entre os vários Países, o risco de contagio da crise grega é real.

Espanha e Portugal parecem estar em condições melhores da Grécia mas, segundo os analistas da Ubs, a realidade é muito diferente, sobretudo em relação ao sector privado: enquanto a dívida dos Governos destes dois Países é sem dúvida inferior quando comparado ao grego (61% do PIB em Espanha, 85% em Portugal, 125% na Grécia), o banco realçou que "famílias, empresas e instituições bancárias têm um nível de endividamento muito elevado".

Famílias e empresas viram duplicar as dívidas ao longo da última década (89% e 150% do PIB) e a dívida agregada em Espanha e em Portugal ultrapassa 350% do PIB, acima do grego.
Os analistas da Usb [...] realçaram a necessidade de cortar de forma decidida o budget. O aumento do custo da dívida dos Países Ibéricos implicará, segundo Ubs, uma contracção das margens dos bancos e o consequente aumento do custo da liquidez. [...] Os custos de reestruturação pode ser muito eleva para os bancos.

O risco que o contagio se difunda é real.

E mais nada.

Ipse dixit.

Fonte imagens: Il Grande Bluff

Coisa ruim

Nenhuma racha pode ser tolerada no dique, caso contrário cai tudo.
O plano de ajuda para a Grécia estaria perto de (talvez) chegar : falamos de 45 bilhões, aliás 90, ou seja 120, se calhar 135 mas já lemos 155 bilhões...

Obviamente este remendo não resolverá os problemas estruturais da Grécia; por isso, a médio e longo prazo, quase com certeza o risco é que este dinheiro seja como deitado no lixo.

Mas a especulação em alta (pois agora é esta) é como uma verdadeira mãe.

Assim a bolsa helénica festeja com um pirotécnico salto de +9% (embora permaneça com níveis muito abaixo das médias europeias).
Portugal festeja com +4%.
E assim em frente mas com ordem invertida: quem mais perdeu mais salta, quem menos tinha perdido menos festeja.

Todas coisas que acontecem segundo esquemas já vistos.
Os especuladores que tinham apostado (antes em baixo logo em alta) agora recebem. As apostas com os assets-lixo são uma mina.

Os bancos exultam e oferecem pérolas de sabedoria. Reuters:
Grécia, bancos alemães: reestruturar a dívida não é a solução

Só uma mente doente ou um banco podem fazer uma afirmação como esta.

Reestruturar? Claro, Deus nos valha! Com a reestruturação também eles teriam pago a conta. Melhor refinanciar, com novas dívidas, numa espiral em que só há um vencedor: o banco, cujos lucros e poder sobre o devedor sobe.

Do Moral Hazard já vimos. E das consequências sistémicas e estruturais, bom, melhor fazer de conta que nada acontece.

Quem paga a conta helénica? Sempre os mesmos. E se agora exultamos por causa do +9% da Bolsa de Atenas, é só fazer as contas para exultar muito menos.

Quanto era suposto pagar? Portugal 700 milhões? Isso era antes, muito antes, quando ainda a ajuda era de 45 bilhões. E agora que a ajuda atingiu os 90 ou 120 ou 135 ou 155 bilhões? Boa pergunta.

Pessoal, estamos contentes e felizes porque Portugal (entre outros, claro) terá a ocasião de ajudar a Grécia?
Portugal, um País que ainda ontem esteve perto do colapso, com a Bolsa em pânico, os indicadores que não paravam de descer e os políticos que rezavam para que algo acontecesse, ajuda um País que nada fez pelas  próprias contas?

É este um sistema normal?

Mas, dizem, é um empréstimo.
Perguntem aos economistas alemães se este será um empréstimo ou uma prenda que não será restituída. Verdade, os teutónicos não podem ser juízes imparciais nesta altura. Mas sabemos também que as possibilidades de rever o dinheiro são mínimas.

Assim, após a invasão dos bancos-zombie que ainda trepam pelo mundo, agora teremos um estado-zombie:
a Grécia, extraída à força do pântano, subsidiada ao longo de 3 anos (no mínimo), terá que trabalhar e sofrer só para pagar a dívida, com um horizonte de crescimento reduzido ao mínimo (se crescimento houver).
E, sobretudo, a Grécia será refém dos credores. 

Enquanto ficamos à espera de conhecer os pormenores desta manobra de socorro, vamos entreter-nos com dois gráficos e uma breve análise da situação de Portugal e de Espanha.

Mas não já. No próximo post.

Ipse dixit.

Fonte: Il Grande Bluff.

Dia de festa

Breve actualização acerca da tragédia grega que só grega não é.

Voltou o sol na economia da Europa.
- A Bolsa de Lisboa ganha.
- Juros e riscos da dívida lusa em queda.
- Atenas voa.
- Madrid, Paris, Milão, Londres abrem em alta. Ganhos mínimos mas sempre ganhos. Terá sido o efeito do telefonema de Obama para Angela Merkel? Como podemos recusar um pedido dum Prémio Nobel?
- A UE achas que a ajuda para a Grécia é uma questão de dias.
- A União Europeia reagiu tarde ao problema grego e não estava preparada para enfrentar uma crise como esta.
    Quem é este desmancha prazeres? É o vice presidente da Comissão Europeia, Joaquín Almunia.

    Mas, mesmo assim, a euforia domina. Eu teria esperado ainda alguns dias para festejar. A ver vamos.

    Ipse dixit.

    Fonte: Jornal de Negócios

    As Três Irmãs

    Agências de rating: quem são estas?

    Empresas privadas que emitem juízos acerca de bancos, finanças públicas. Um juízo que pesa, que condiciona de maneira fundamental os mercados e as escolhas de nações ou continentes.

    Mais um A, menos uma A e milhões de pessoas e empresas podem ver as próprias contas bancárias alteradas, o futuro hipotecado.

    Tudo isso, repetimos, está nas mãos das agências de rating, empresas privadas americanas fora de qualquer controlo. Elas avaliam, elas decidem.

    Se fossem constituídas por seres incorruptíveis e acima de qualquer suspeita seria uma paraíso. Mas assim não é: quem julga as nossas contas são seres humanos. E com alguns interesses também.

    Vamos conhece-las um pouco melhor?

    As agências de rating nascem no início do século passado, nos Estados Unidos, com a tarefa de analisar a situação financeira de estados, entes, governos, empresas, bancos, seguradoras. As principais são três, todas com sede nos EUA: Moody's, Standard & Poor's, Fitch.

    A primeira surpresa é esta: as agências de rating não são compostas por juízes imparciais mas por entidades que têm interesses nos mercados. O mesmo tipo de interesse de quem é julgado.
    Reparem no pormenor: o mesmo tipo de interesse, não o mesmo interesse.

    Vamos dar uns rostos? Pois atrás do nome da agência é possível encontrar homens.
    Mas avisamos desde já: não são umas companhias aconselháveis.


     Quem é Standard & Poor's

    Standard & Poor’s (S&P) é subsidiária da multinacional McGraw-Hill Companies, com sede em New York: um colosso das comunicações, do sector editorial, das construções, presente em quase todos os sectores económicos.
    O presidente da McGraw-Hill è Harold McGraw III, que, entre outras coisas, é também membro do Board of Directors da United Technology (uma multinacional dos armamentos) e da ConocoPhillips (petróleo e energia).
    Foi membro do “Transition Advisory Committe on Trade” do presidente George W. Bush Senior.

    Temos de admitir: como premissa para imparcialidade não é grande coisa.
    Mas ao ler os nomes dos membros da Board of Directors da McGraw-Hill, que decidem também as escolhas de Standard & Poor's, as suspeitas não diminuem. Bem pelo contrário.

    Vamos ver qual a razão.:
    • Sir Winfried Bishoff, presidente da Citigroup Europa e homem forte da Henry Schroder Bank de Londres;
    • Dougals N. Daft, presidente da Coca Cola Co.;
    • Hilde Ochoa-Brillenmbourg, responsável da Credit Union do FMI-World Bank;
    • James H. Ross, da British Petroleum;
    • Edward B. Rust Jr., presidente da seguradora State Farm Insurance Company,  director da Helmyck & Payne, colosso no sector petrolífero, e antigo membro do Transition Advisory Team Committee on Education de George W. Bush (sempre o pai);
    • Sidney Taurel, presidente da farmacêutica Eli Lilly, director do IBM e já antigo membro do Homeland Security Advisory Council (sistema anti-terrorismo).

    Bom, se calhar com a Fitch as coisas estão melhores. Será?


    Quem é Fitch

    A agência Fitch de New York é subsidiária da multinacional dos serviços financeiros Fimalac, com sede principal em Paris.
    Olha, um europeu!

    Em 2005 a multinacional americana de comunicações Hearst Corporation adquiriu 20% da propriedade.
    Tá bom, quase europeu...

    O presidente é Marc Ladreit de Lacharriere, homem da Renault e da Banque Suez.
    Entre os membros do Board of Directors encontramos:
    • David Dautresme do banco Lazard Freres;
    • Philippe Lagayette da JPMorgan & Cie;
    • Bernard Mirat da Cholet-Dupont (finança);
    • Bernard Pierre da Fremapi (metais, preciosos obviamente).
    A Fimalac apresenta também um International Advisory Board que em 2002 podia contar com as contribuições de:
    • Felix Rohatyn da Lazard Freres
    • Sholley da UBS Warburg
    • Reimnits da Kommerz Bank
    • Peberan da Parisbas
    mais representantes da Nestlè (a Nestlè é omnipresente), da Bentelsmann e também do ex presidente da Federal Reserve Paul Volker e Lamberto Dini.

    E a imparcialidade? Está assegurada, não tenham dúvidas.
    Talvez com Moody's...


    Quem é Moody's

    A agencia Moody's é subsidiária da Moody’s Corporation, com sede central em New York.
    O presidente é Raymond W. McDaniel Jr., acerca do qual não podemos dizer nada de mal (excepto o facto de ser presidente da Moody's, óbvio)

    Entre os membros do Board of Directors encontramos:
    • Basil L. Anderson da Stables Inc. e da Hasbro Inc (gigantes do sector das vendas e dos serviços)
    • Robert Glauber da ING Group (sector bancário e seguros)
    • Henry Mc Kinnell, da multinacional farmacêutica Pfizer e da Exxon Mobil (petróleo)
    • Nancy S. Newcomb da Citigroup (outra vez?) e da Sysco Corporation (sector alimentar)
    • John K. Wulff, da multinacional química Herculer, da KPMG (multinacional financeira e certificação dos balanços), da Sunoco (petróleo) e da Fannie Mae (não faz lembrar nada este nome? Subprimes, bolha imobiliária...?).
    Se o vosso filho perguntar: mas quem manda nesta casa? é boa ideia apresentar este elenco.

    E, claro, com chefias assim os resultados não podem falhar. Eis a demonstração.
     
    Em 2006 a Adusbef, associação italiana que opera na defesa dos utentes nos serviços bancários e financeiros, realizou uma avaliação de mais de 1.000 "reports" emitidos pelas agências de rating: 91% estavam errados, 9% de eficiência.

    Quando as agências difundem os comunicados acerca de sociedades ou aconselhamentos, 9 em cada 10 vezes estamos perante verdadeiras minas que implicam perdas maiores quando comparadas com a normal capacidade de investimento.

    A razão? Simples: as agências são pagas pelos comitentes, não pelos investidores e trazem com elas o conflito de interesses.


    Consequências: onde estavam e o que disseram Moody's, Fitch, S&P nos casos Lehman Brothers ou Bear Stearns? No caso Enron, Worldcom ou Parmalat? No quase default do Dubai? No caso dos sub-primes americanos?
    Não estavam. E se estavam, dormiam.

    O caso Lehman Brothers deveria entrar nos manuais: o banco faliu no dia 15 de Setembro de 2008, após uma agonia de cerca de um ano. Até o dia 14 de Setembro incluído Moody's, Fitch e S&P identificaram o titulo Lehman com o máximo da pontuação.
    Um titulo seguro, no qual apostar com a certeza de ter concluído um bom investimento.
    No dia a seguir o banco faliu e as Três Irmãs baixaram o rating. O titulo já não era tão seguro.
    Até a minha avó poderia ter feito avaliações desta forma.

    Então é assim que trabalham as "Três Irmãs"?
    Nãoooo, as coisas são bem piores.

    Nas páginas de Bloomberg é possível encontrar um artigo muito interessante.
    Franck Reiter, ex manager da S&P especialista nas avaliações de títulos baseados nos mútuos, explica da melhor forma a atitude imparcial das agências.

    Em 2001 um superior pediu-lhe para assinar uma avaliação que nunca tinha feito. E isso para facilitar a S&P na aquisição de novos contratos.

    Reiter não assinou mas o rating foi emitido na mesma.
    O rating não foi inventado: foi simplesmente copiado, sendo o original na posse da concorrência.
    Reiter continua afirmando que S&P não teria percebido os prejuízos causados. Afinal tinham encontrado uma maneira de fazer dinheiro de forma fácil, convencidos que os danos estariam diluídos para ninguém poder reparar.


    Estas são as agências de rating. Seria possível continuar, pois episódios simpáticos não faltam. Mas já é possível perceber nas mãos de quem estamos.

    As Três Irmãs não só são a expressão dum emaranhado esquema entre bancos, multinacionais e interesses privados; são também uma estrutura que controla o sistema financeiro das nações e todos os sectores da economia pública e privada.
    Se hoje o mundo está no meio duma crise sistémica  não podemos culpar as agências de rating quais únicos responsáveis. Mas como cúmplices activos sim, sem dúvida.

    Soluções?
    Sim, uma agência de rating para avaliar as agências de rating. Não americana. Melhor ainda, com participação internacional. Para limitar o imenso poder e/ou para prevenir abusos.

    Avaliar as avaliações, e desculpem a redundância, com juízos "a posteriori".

    Mas para isso é precisa vontade. E não vale a pena acrescentar mais nada.

    Ipse dixit.



    Fontes: Adusbef, Bloomberg

    Moral Hazard

    Moral Hazard. Nunca ouviram?

    Vamos ver a definição de Wikipedia:
    O conceito de risco moral (ou Moral Hazard) se refere à possibilidade de que um agente econômico mude seu comportamento de acordo com os diferentes contextos nos quais ocorre uma transacção económica.
    Dito de outra forma: compramos um carro com bom aspecto e bom desconto. É uma ocasião, pois temos também o livro das revisões e o carro sempre teve uma vida cuidada. Passados poucos dias o carro já não funciona. Azar. Ou talvez não. Talvez o vendedor tenha tido acesso a informações que faziam pressupor este desfecho. Mas podemos provar isso?

    No mundo dos carros existe a garantia. No mundo da economia e da finança não. por isso acontecem coisas feias, como explica Il Grande Bluff:

    Tudo como antes, aliás, pior que antes.
    E porque pior?
    Por causa do Moral Hazard: porque com o custo do dinheiro muito baixo (nunca foi assim baixo) todos tentam alcançar rendimentos melhores com investimentos mais arriscados.
    Por causa do Moral Hazard induzido pela "salvação garantida": todos estão convencidos que já todos salvam todos.
    Por isso as atitudes arriscadas multiplicam-se.
    As apostas são ousadas, pois uma salvação está sempre por perto.
    As mentes dos gestores abraçam sem hesitação o jogo da roulette russa, convencidos que a pistola não tenha a bala: cada vez um click, nunca um bang.

    Nesta grande crise ninguém descontou os riscos dos próprios investimentos, das próprias escolhas. Pelo contrário: mais risco, mais ganhos.

    A conta, todavia, acabou nas costas das dívidas públicas, isso é, nas costas de nós todos.
    E a conta, cedo ou tarde, terá que ser paga, e a chiadeira das dívidas públicas indica mesmo isso.

    Estamos perante um mercado anestesiado, com uma percepção de perigo alterada por causa da cobertura dos Estados.
    É o Moral Hazard que desliga o medo; mas mesmo o medo é indispensável para perceber e evitar os riscos.
    Com o medo anestesiado pego no meu carro e vou contra-mão na autoestrada sem aperceber o perigo: já sei que cedo ou tarde alguém do banco central irá ressuscitar-me. Mas os prejuízos provocados? Bom, estes ficam.
    Até agora quem foi em contra-mão foi premiado e a curto prazo continuará a ser premiado.
    Mas se esta mentalidade não mudar, o colapso é apenas adiado.

    Por isso Angela Merkel falou em haircut, corte de cabelos. Na prática avisou: meus senhores, a conta não pode ser paga só pelo Estado. De facto, tentou uma saída da espiral do Moral Hazard.
    Resultado: acusações, insultos, pressões, telefonemas de Obama & C., FMI, UE...

    Mas, acrescentam nós, o mercado ainda não é maduro e quer continuar com as mesmas regras. Até quando? Até quando alguém não tocar o despertador. E não podem ser só as palavras da Merkel, será preciso algo mais. Já acordaram por causa dum balde de água fria? O conceito é o mesmo.

    E, para concluir num dia no qual tudo parece ter voltado à normalidade (a Bolsa de Lisboa até ganha), um economista que o leitores de Informação Incorrecta já conhecem: Nouriel Roubini.

    Nouriel Roubini, professor da Universidade de Nova Iorque que previu a crise no crédito, considera que a crise na Grécia representa apenas a “ponta do iceberg” do problema da dívida soberana, que irá provocar uma alta na inflação e falências e pode chegar aos Estados Unidos.

    Os investidores estão “a sair da Grécia, Espanha, Portugal, Reino Unido e Islândia”, afirmou Roubini durante uma conferência na Califórnia, acrescentando que “infelizmente, nos Estados Unidos os investidores ainda não estão a sair”.

    O economistas mostra-se preocupado com a subida da dívida soberana em diversos países e adianta que se o problema não for combatido, os países vão entrar em incumprimento ou registar uma forte subida da inflação, uma vez que os governos irão monetizar a sua dívida e imprimir moeda para combater os défices orçamentais.

    “Os mercados hoje estão preocupados com a Grécia”, mas a “Grécia é apenas a ponta do iceberg, ou o canário na mina de carvão, para problemas orçamentais de escala muito maior”, refere Roubini, acrescentando que aumentar impostos “não será suficiente” para resolver o problema.

    Reiterou que a Grécia poderá ser forçada a sair do euro, o que tornará a moeda única uma divisa com menor liquidez e considerou que “fará sentido” constituir uma zona euro mais pequena.

    Roubini prevê também que o problema da dívida chegue aos Estados Unidos. “O risco de algo de sério acontecer aos Estados Unidos no espaço de dois ou três anos vai ser significativo”, uma vez que “em Washington não há vontade de fazer nada”, a menos que sejam forçados pelos mercados.(Fonte: Jornal de Negócios)

    Pois. Esperando o balde...


    Ipse dixit.

    Fontes: Il Grande Bluff, Jornal de Negócios

    28 abril 2010

    O carrossel em pausa

    Acaba assim um dia que poderia ter sido épico e que na realidade não passou de mediano.

    A grande reunião entres os iluminados do FMI e da Alemanha trouxe um nada de facto.

    Os únicos com razões de queixa são os Espanhóis que viram a própria avaliação ser baixada pela Standard & Poor's.

    Cedo ou tarde teremos que falar destas empresas de rating, instituições rigorosamente privadas que tanto poder têm nos destinos de inteiros Países. Umas autênticas aberrações, possíveis só num sistema doentio.

    Mais no geral: a Grécia ainda não faliu; a ajuda chega, talvez sim, pode ser que não; os valores em causa variam entre os 45 bilhões de Euros, todos e já (proposta inicial), 120 bilhões espalmados em três anos, 155 bilhões não se sabe bem como.
    O que é certo é que serão bilhões. De quem? Eheheh...de facto não podemos esquecer este insignificante pormenor: não recolha debaixo das couves, os bilhões são mesmo os nossos.

    Boas notícias para quem, afinal? Para Portugal.

    A Bolsa começou mal, continuou bem, fechou assim assim: pouco mais de 1 ponto percentual negativo.

    Mas as verdadeiras boas novidades estão num outro lugar.

    O Primeiro Ministro de Portugal, José Sócrates, encontrou o leader da oposição, Pedro Passos Coelho após este último ter pedido uma reunião para discutir os graves problemas económicos do País.

    Eis o relatório do Público:
    No final do encontro entre Sócrates e Passos Coelho, o primeiro-ministro anunciou que “o PSD e o Governo decidiram trabalhar em conjunto”, numa iniciativa convergente para antecipar para este ano três medidas do Programa de Estabilidade e Crescimento (PEC) para responder à situação de crise internacional e de “ataque especulativo” ao euro e à dívida soberana portuguesa.

    Uma das medidas a antecipar para 2010 é a “nova lei de condição de recursos” que tem por objectivo “estabelecer um quadro de justiça para aqueles que recebem prestações sociais”.

    O executivo vai ainda propor alterações ao subsídio de desemprego de modo a “garantir que ninguém tem vantagem em ficar no subsídio de sempre apenas por ser uma situação mais vantajosa do que estar a trabalhar”
    Uma terceira medida é “avançar já” com “auditorias e fiscalizações às prestações sociais”.
    “Este governo está absolutamente determinado em fazer tudo para responder à situação internacional, para que os objectivos do PEC sejam cumpridos”, disse José Sócrates.

    Mais em pormenor:
    Os desempregados subsidiados vão ser obrigados a aceitar, no primeiro ano, uma oferta de emprego cujo salário seja 10% superior ao valor do subsídio. A partir do 13º mês, basta que a oferta iguale o valor do subsídio, para que os beneficiários sejam obrigados a aceitar a oferta.

    O regime actual é bem mais generoso. A lei estabelece que os desempregados são apenas obrigados a aceitar um salário 25% superior ao subsídio nos primeiros seis meses. A partir do sétimo mês o acréscimo é de 10%.[...]
    O governo pretende, além disso, flexibilizar o regime de subsídio de desemprego parcial, que permite acumular rendimentos de trabalho, como prestações de desemprego.

    No âmbito do combate à fraude, está ainda previsto o encurtamento dos prazos dos processos que conduzem ao corte do subsídio por recusa de emprego conveniente. As faltas de comparência são uma das situações que podem conduzir à cessação.

    Além disso, a inscrição de trabalhadores na Segurança Social passará a ter que ser feita no início da prestação de trabalho, com excepção dos contratos de trabalho de muito curta duração.

    Metade das entrevistas de emprego passarão a ser acompanhadas por técnicos do Estado e os métodos e procedimentos para as sanções serão flexibilizados.[...]

    Recorde-se que ainda hoje o Governo anunciou que vai acelerar as medidas de fiscalização de atribuição do subsídio de desemprego.[...]
    O Governo adiou também a assinatura do contrato para a construção da auto-estrada do Pinhal Interior. A assinatura do contrato, com a Mota-Engil, estava agendada para amanhã, mas foi adiado.
    (Fonte: Jornal de Negócios)

    Além da boa mossa política do leader do PSD, o que mais conta é que nesta altura Portugal pode responder aos ataques especulativos com coesão política. É já um primeiro passo.

    Serão suficientes as quatro medidas para arrefecer a Bolsa de Lisboa? Depende.

    A previsão é simples: se a União Europeia der um sinal forte, isso é, ajuda para Grécia em tempos reduzidos, então esta operação que implica magros resultados pode até bastar. Mesmo assim seriam precisas outras decisões "já" e sabemos que a classe política está a trabalhar nisso.

    Caso contrário (sem ajuda) a resposta é não. É óbvio que a causa de todos os males não são os desempregados ou as autoestradas. Caso este segundo cenário venha a confirmar-se (hipótese mais provável), nos próximos dias serão tomadas outras medidas. Medidas que podem doer.

    Mas por enquanto é tudo. Amanhã há mais.

    Ipse dixit.

    Sorry!

    Em primeiro lugar pedimos desculpa: Informação Incorrecta é um blog que trata também de economia mas não só. Acontece, pelo contrário, que nos últimos dias a maior parte dos post foram dedicados aos problemas da Grécia, de Portugal e da Europa em geral.

    Sabemos que há leitores do Brasil, dos Estados Unidos, do Canada. De Angola, de Moçambique. Até da Austrália. E, se calhar,  o desejo deles seria ver tratadas outras realidades.

    O facto é que quem escreve vive em Portugal (mesmo não sendo português); Muitos dos nossos leitores são Portugueses também. Mas, coisa ainda mais importante, achamos que os últimos acontecimentos possam ter uma recaída para outros campos.

    O que está em jogo, nestes dias, não é só o destino da Grécia, mas o da moeda única europeia, o Euro, e o futuro da mesma União. Que, não podemos esquecer, representa 761 milhões de habitantes.

    Além disso, é um inteiro sistema que está em discussão. Não sabemos qual o desfecho da tragédia grega (mas a ajuda chegará, esta é uma aposta!), mas de qualquer forma é óbvio que as regras são para ser mudadas.
    E as regras actuais da Europa são as mesmas que regulam o Sul América, por exemplo. Ou a África.

    A União Europeia é, nesta altura, um teste de primaria relevância: terá o actual sistema as forças para corrigir erros genéticos do mesmo sistema? A resposta pode ter influências muito além dos limites do Velho Continente.

    Esta foi a razão principal pela qual escolhemos dedicar a maior parte dos artigos aos problemas "locais". Porque, afinal, assim locais não são.

    Mesmo assim, Informação Incorrecta não é só um blog de economia ou exclusivamente europeu.

    Por isso pedimos desculpa e prometemos dedicar mais espaço ao que acontece "lá fora" (expressão muito portuguesa esta).

    E, para demonstrar a nossa boa vontade, é para breve o próximo post que fala de Portugal :)

    Ipse dixit.

    As armas gregas

    Pausa.

    Deixamos que as notícias cheguem e, entretanto, vamos ler o que conta Debora Billi cujas intervenções, no blog Petrolio, nunca são supérfluas.

    E falamos de...Grécia!

    Calma, nada de ajudas comunitárias ou birras alemãs: desta vez falamos do petróleo grego. Porque no mar da Grécia há petróleo e se calhar não pouco.

    A Grécia é lixo. Petróleo e armas não

    Oficialmente seriam só 10 milhões de barris. Não muito, de facto. Mas o petróleo do Egeu é causa de conflitos há mais de 20 anos, quando, no longínquo 1987, Grécia e Turquia ficaram muito perto duma guerra.
    Desde sempre os dois Países lutam pelos direitos de exploração no Mar Egeu, onde a suspeita é que haja muito mais ouro negro.

    Talvez alguém lembre a bonita ilha de Kastellorizo, donde há poucos dias o premier grego fez o apelo oficial para a ajuda à Grécia. Kastellorizo fica muito perto das costas turcas e é a ilha onde os turcos querem retomar a procura para novo petróleo. Os Gregos, no meio da tempestade financeira, declararam que nunca irão permitir uma tal coisa e que os próprios navios de pesquisa irão também à procura de novas explorações.

    Bonito problema na altura errada, ou talvez na altura certa, pontos de vista.

    Na óptica turca o drama grego é uma linda oportunidade de negócios e na próxima semana o Primeiro Ministro turco Erdogan voará até Atenas com nada menos que 10 dos seus ministros, coisa nunca acontecida antes. E o limite de 6 milhas à volta das próprias ilhas pode tornar-se um boomerang pois a Grécia hoje não pode dizer "não".

    Mas não há só petróleo offshore na mesa das grandes oportunidades que oferece um País de rastos. Existem também as armas. Enquanto a UE aponta o dedo contra os gregos gastadores, os mesmos Países pressionam para que a Grécia adquira os favores deles. Como? Com as armas.

    A Grécia precisa de tudo e todo, mas não de armas. Mesmo assim, França e Alemanha pressionam para que Atenas possa comprar aviões e navios militares.


    Este é Ekatimerini, suplemento do Herald Tribune edição grega, não uma folha qualquer:
    Alguns oficiais gregos contam que Paris e Berlim tentam usar a crise para promover contratos de armas ou receber pagamentos enquanto a Grécia tenta reduzir as despesas.

    "Ninguém diz compras as nossas armas ou nada de ajuda mas a clara implicação é que eles seriam muito mais amigáveis ao fazer o que desejam no assunto armas.", declarou um consultor do Primeiro Ministro que pediu o anonimato.
    A França pressiona para vender 6 fragatas, 15 helicópteros e 40 caça topo de gama. [...] A Alemanha pressiona para obter o pagamento dum submergível eléctrico Thissenkrupp.

    O total para a França é de cerca 6 bilhões de Euros, enquanto a Alemanha pede (para um submergível que não funcionou) mais de 700 milhões.

    Nos bolsos de quem acabará, então, o empréstimo do Fundo Monetário Internacional? A "salvação" da Grécia é afinal um jogo para favorecer os mesmos do costume?
    (Fonte: Petrolio)

    Acaba com esta pergunta o post de Petrolio.

    A ser verdade (e a fonte é de todo o respeito) esta notícia é...bah, cada um pode preencher o espaço com o adjectivo que achar mais apropriado.
    Mas é impressão nossa ou destas coisas não se fala nos jornais? É normal: nestes dias circulam números bem maiores: 45 bilhões, 120 bilhões...lógico que uns miseráveis 6 bilhões (mais o troco alemão) passem despercebidos.
    Pena, não é?


    Ipse dixit.

    Na corda bamba

    Situação complicada e confusa.
    As agências escrevem notícias por vezes contrastantes.

    O que é certo é que a Bolsa de Lisboa está em queda após ter melhorado consideravelmente ao longo do dia.

    Vamos com ordem.

    Dominique Strauss-Kahn, Jornal de Notícias:
    O director-geral do Fundo Monetário Internacional (FMI) mostrou hoje confiança na resolução da crise na Grécia, mas admitiu que, se tal não acontecer, existe o risco de a crise ser amplificada a toda a União Europeia.
    "Estamos a trabalhar muito rapidamente e é preciso que na Zona Euro a solidariedade funcione também com rapidez. Estou confiante de que o problema [grego] vai ser resolvido", começou por afirmar Strauss-Kahn, para logo alertar: "Se não, a situação na Grécia poderá ter amplas consequências em toda a União Europeia".
    O antigo ministro francês das Finanças disse ainda que o povo grego não pode ser "iludido". "A situação é difícil, as derrapagens foram consideráveis, mas é por isso que estamos lá, para ajudar a que o reequilíbrio seja o menos penoso possível".
    Strauss-Kahn falava em Berlim ao lado de Jean-Claude Trichet, presidente do Banco Central Europeu (BCE) e do ministro alemão das Finanças, Wolfgang Schaüble, que voltou, por seu turno, a frisar que o que está a acontecer "não é um problema da Grécia, é um problema da Europa, é um problema da Alemanha".

    Então há um problema e vamos trabalhar depressa para resolve-lo?
    Talvez não.

    Agência Asca:
    Dominique Strauss-Kahn, trava. Atenas necessita de um empréstimo do fundo (mínimo 10-15 bilhões de Euros) para não entrar em bancarrota, mas o FMI quer impor condições precisas acerca do percurso para sanar as contas públicas gregas. ''Não posso garantir que Atenas aceite todas as nossas condições" declarou o Director do Fundo.

    Não, a situação ainda não está resolvida.

    E na Alemanha há quem continue a deitar gasolina na fogueira.

    Agência AFP, (via Yahoo)
    A Grécia jamais reembolsará a ajuda financeira que a Alemanha pretende destinar para o mecanismo de apoio europeu a Atenas, alertou nesta quarta-feira o influente economista alemão Hans-Werner Sinn.
     
    Indagado se acreditava no pagamento da Grécia, Sinn, presidente do instituto de pesquisas económicas Ifo, que aconselha o governo, respondeu à rádio MDR: "para dizer a verdade, não".
    "A Grécia não estará em condições de levar adiante a política de rigor que necessita e, no final, chegará a pedir uma anulação da dívida com a Alemanha", afirmou, pedindo que Berlim não se deixe pressionar por outros países.
    "Que os italianos, os espanhóis façam pressão para que paguemos sem condições agora é compreensível, pois este é um precedentes que será importante para eles", destacou.

    Simpático o homem.
    Responde Herman Van Rompuy, Presidente do Conselho Europeu. ADN Kronos
    O ex Primeiro Ministro da Bélgica diz estar "totalmente confiante" acerca da hipótese "da Grécia receber por tempo a assistência financeira da qual precisa para acabar o próprio programa e para preservar a estabilidade da área Euro".
    Mas em Atenas as coisas não estão assim tão bem. Asca:
    A Grécia recusa o pedido avançado pela União Europeia e pelo FMI para introduzir, entre as medidas de austeridade para a redução da dívida, um corte dos ordenados.
    E enquanto esperamos pela possível ajuda, a vertente económica portuguesa fica "na corda bamba". Jornal de Negócios das horas 15, 20:
    A bolsa nacional tem variado entre perdas e ganhos ao longo do dia, tendo chegado a deslizar mais de 6% e a subir mais de 1,5%. O PSI-20 segue a ceder 1,38%, numa altura em que as quedas da banca se sobrepõem à subida de quase 4% da Brisa.

    O PSI-20 recua para 7.054,04 pontos, com 16 acções em queda e quatro em alta. Entre os congéneres europeus também estão a oscilar entre ganhos e perdas. Durante a manhã, as bolsas registaram perdas acentuadas depois da S&P ter reduzido o “rating” da dívida para Portugal e Grécia, aumentando os receios em relação a incumprimentos e necessidade de acelerar as ajudas.

    Mais tarde, BCE, FMI e o ministro das Finanças alemão convocaram uma conferência de imprensa e o mercado começou a especular que iriam ser anunciadas medidas de ajuda à Grécia, com o objectivo de desbloquear o pacote de ajudas financeiras. Contudo, da reunião não saíram declarações que apontassem datas ou valores. Apenas foi dito que estavam a tentar acelerar o processo.

    Está ainda em cima da mesa a possibilidade de aumentar o pacote de ajudas à Grécia, inicialmente estabelecido em 45 mil milhões de dólares. De acordo com notícias avançadas esta tarde, as ajudas poderão ascender a 120 mil milhões de euros, um número que não foi confirmado, nem desmentido pelo responsável do FMI, que preferiu não adiantar qualquer estimativa de financiamento, antes das negociações terminarem.
    Ponto da situação: o mercado não fica satisfeito com 120 bilhões de promessas, quer 10 ou 15 bilhões de Euros já.

    Uma coisa é clara: já antes era difícil encontrar um acordo acerca dos 45 bilhões de ajuda. Agora que os bilhões são 120 a coisa fica ainda mais complicada. A Alemanha, por exemplo, antes deveria ter contribuído com 8 bilhões, agora os bilhões de Berlim são 25. Verdade que agora está em causa em empréstimo a 3 anos, mas mesmo assim...

    Moral da história: salvar a Grécia significa socorrer quem falsificou as contas para entrar na Zona Euro e a seguir nada fez para as próprias finanças. Não salvar a Grécia pode significar o colapso do Euro.

    E, para acabar, as boas notícias.

    Governo e oposição portugueses encontraram um entendimento para acelerar a aplicação das medidas do PEC. Algo se mexe e isso é bom.

    Nos próximos post mais detalhes acerca de Portugal e, óbvio, o relato das últimas novidades da tragédia grega.

    Ipse dixit

    As bolsas e o salva-vida

    Quando a situação é dura os duros entram em jogo. E o Correio da Manhã não foge perante o desafio.

    Numa altura tão complicada para o País, com a bolsa que queima milhões de Euros portugueses, o diário aposta no jornalismo de investigação e na qualidade.
    Eis os títulos da primeira página da edição online:

    Misseis protegem Papa em Fátima
    Jovem violada durante assalto
    Esventrado por 20 Euros
    Amy Winehouse caiu e magoou os seios

    E a economia? Duas linhas num cantinho:
    Pânico. Pacto de regime contra a austeridade.
    Isto, repetimos, no jornal mais lido do País.
    A esperança é que Standard & Poor's não consiga um cópia, caso contrário o rating cairia até o ZZZ- causa manifesta incapacidade.

    Antes duma vista de olhos nos outros diários (mais prosaicos, verdade seja dita), actualizamos a situação:
    Outro dia dramático nos mercados das acções europeus após a queda de ontem. Vendas generalizadas no Velho Continente Hoje a lanterna vermelha é a Bolsa de Lisboa com uma queda de 5,90%. Depois da Grécia, Portugal é indicado como o próximo País que poderia acabar na mira da especulação internacional.
    "Pesada" também a Bolsa de Madrid, com o Ibex a -3,40%. Em Milão o indicador Ftse all share cai 2,80, Bruxelas marca -3,50%. Baixas mais leves em Londres, com o Ftse 100 que perde 1% enquanto Paris e Frankfurt deixam o 2%.(Fonte: Asca)
    Uma autêntica chuva de vendas. Em Portugal, mais em pormenor:
    Continua a queda dos títulos de Estado dos Países financeiramente mais fracos da Eurozona. Sofrem em particular Grécia e Portugal. [...] Esta manhã os rendimentos dos bonds helénicos a dez anos viajam ao 9,54%, para títulos a dois anos subiu até 23%.[...]
    O rendimento dos títulos a 10 anos de Lisboa subiu até 5,57%, o dos títulos a 2 anos 5,51%. A curva das taxas da dívida pública de Lisboa fica cada vez mais horizontal com taxas iguais a curto e longo prazo. É uma situação sintomática  dum forte aumento do risco de insolvibilidade de Lisboa. Se a curva ficasse invertida, com taxas curtas maiores das longas, Portugal entraria na mesma espiral da Grécia e para Lisboa o capitulation day estaria atrás da esquina. (Fonte: Asca)
    Situação perigosa. No entanto os economistas querem distinguir as várias situações. A crise não é a mesma em todos os Países.

    Explica Jean Pisani-Ferri do Instituto Bruegel de estudos europeus:
    .
    "Há efeitos de contágio, mas a situação grega é realmente de uma natureza diferente"

    Além disso, "o problema central da Grécia é orçamentário", enquanto o da Espanha, por exemplo, "afecta principalmente a competitividade" de sua economia e procede directamente à explosão da bolha imobiliária.
    Portugal, por outro lado, enfrenta problemas tanto orçamentário como de competitividade, enquanto a Irlanda "correu riscos importantes ao desenvolver sua esfera financeira" antes da crise económica mundial.

    No entanto, esses países também estão vinculados de certa forma: as decisões "para gerir a crise grega terá efeito nos outros países", segundo esse especialista.

    Para Jesus Castillo, economista do banco francês Natixis, os "mercados questionam actualmente a reestruturação da dívida grega", ou seja, a possibilidade de modificação de seus vencimentos, suscitando "questões sobre os países que poderão vir depois".

    Contudo, a deflagração grega tem também efeitos virtuosos sobre os países mais afretados pela crise económica da zona do euro, ao empurra-los - assim como Atenas - a tomar medidas para reduzir seus deficits e realizar reformas para resolver problemas estruturais de sua economia.

    "Até agora, desde o lançamento do euro, não se tinha feito uma diferenciação significativa no mercado entre bons e maus alunos (na zona do euro). Mas a partir do momento em que se estabelece" uma primeira comparação, cada país "se vê forçado a empreender esforços", observa Pisani-Ferry.(Fonte: JBOnline)

    E a Europa? Que acontece com a ajuda?

    Os governos da zona do euro disseram estar prontos para fornecer à Grécia 30 bilhões de euros no plano de emergência de três anos, em empréstimos, enquanto o Fundo Monetário Internacional pode fornecer entre 10 bilhões e 15 bilhões de euros a mais

    Ainda bem. É que Atenas tem uma certa pressa...
    Mas o quão rápido a Grécia receberá o dinheiro dependerá dos procedimentos legais em cada um dos 15 outros países da zona do euro e do FMI. O tempo da Grécia é limitado, porque precisa pagar 8,5 bilhões em dívidas que vencem no dia 19 de maio.
    Por isso, pode ser que a Grécia tenha que sair da Zona do Euro por um tempo, se não conseguir apertar o cinto o suficiente para se qualificar para receber o pacote de ajuda, disse um especialista orçamentário de um partido da coligação alemã nesta terça-feira.

    Um alemão? Mmmhhh, isto é suspeito...

    Uma saída temporária do euro poderia beneficiar Atenas se for acompanhada por uma desvalorização, disse Juergen Koppelin, dos Democratas Lives (FDP) à rádio Deutschlandfunk. 
    Pois. Caso não tivesse ainda ficado claro, a Alemanha não tem muita vontade de entregar o dinheiro. Desconfia. E se calhar com razão. Mas é esta a altura certa para um debate? Ficamos com o salva-vidas na mão e perguntamos ao homem que afoga: "Vais portar-te bem?".

    O problema é que há mais pessoas na água: além da Grécia, Portugal e Espanha não estão muito bem e o Euro está em sofrimento.

    Mas os Teutónicos não brincam. Não acaso são Teutónicos:

    O ministro das Finanças da Alemanha, Wolfgang Schäuble, afirmou em entrevista ao jornal económico "Handelsblatt" que o país quer oferecer ajuda à Grécia, mas insiste que, para activar o plano de auxílio europeu, é necessário esperar o projecto de ajuste do FMI.
    "Se o pacote do FMI for convincente, e eu não espero outra coisa, podemos adoptar na segunda-feira uma resolução no Conselho de Ministros", diz Schäuble. Com isso, teria início o processo para aprovação parlamentar.
    Schäuble rejeita, além disso, a impressão de que a Alemanha está frenando a activação do plano de ajuda à Grécia.
    "O Governo alemão não está pisando o freio. Queremos decisões rápidas. Mas nossa meta é um plano de saneamento sustentável para que Grécia possa voltar a se sustentar nos mercados a médio e longo prazo", assinala o ministro. (Fonte: EFE)
    Tradução: sim, de facto travamos. Vamos tentar perceber a razão desta atitude? Em parte, já vimos, motivos eleitorais. Mas há mais:
    Se além da Grécia, também Portugal e Espanha precisarem de programas de apoio europeu, “o valor será astronómico”, diz Piero Ghezzi, do Barclays Capital: 480 mil milhões de euros no mercado. “Agora estamos a falar de dinheiro a sério”.
    Piero Ghezzi é economista do Barclays Capital e explica hoje na edição do “The New York Times” que o problema grego passou a ser português e pode passar a ser espanhol: os três países precisam de refinanciar muita dívida este ano e, se entrarem em colapso de crédito, poderão precisar de fortes programas de apoio internacional: “90 mil milhões de euros para a Grécia, 40 mil milhões para Portugal e 350 mil milhões para Espanha”, contabiliza Ghezzi. (Fonte: Jornal de Negócios)
     480 mil milhões de Euros? Por isso os Alemães não têm vontade de brincar...

    Ipse dixit.

    Do PEC e de outras amenidades

    Vamos ver mais em pormenor a situação portuguesa após o "terrível dia" de ontem.

    Começamos com as reacções em terra lusa:
    “Eu acompanho de perto o evoluir da turbulência nos mercados financeiros internacionais naquilo que respeita à dívida soberana de Portugal e as vicissitudes diárias por que passa essa turbulência, mas entendo que neste momento não devo fazer qualquer comentário”, afirmou Cavaco Silva (Fonte: Público)
    O Presidente observa e não comenta. Vamos em frente.

    Teixeira dos Santos:
    O ministro das Finanças veio hoje alertar que Portugal está a atravessar "um momento decisivo” e que o “país tem que responder a este ataque dos mercados”.
    Sim, de facto já tínhamos intuído a gravidade da situação. Mas obrigado na mesma.
    “É tempo de o Governo e os partidos, em especial o PSD, se entenderem quanto a isto: há que executar as medidas necessárias. Não é tempo para querelas inúteis”, sublinha.
    Aqui poderia realçar-se o facto que medidas necessárias poderiam ter sido tomadas há muito, sem esperar que a situação piorasse até este nível. Talvez um pouco menos de medo pelos resultados eleitorais tivesse ajudado. E isso vale para o Governo como para os partidos que agora estão na oposição e que já tiveram responsabilidades na condução deste País. Mas pode ser que esta seja uma querela inútil, por isso avançamos:
    Em comunicado, o ministro – que se encontra neste momento em Angola– diz que é preciso “focar a atenção naquilo que é e deve ser prioritário para o país pois as dificuldades da crise ainda não acabaram e o que importa é ultrapassa-las o mais rapidamente possível a bem da robustez e solidez da recuperação económica e do reforço da competitividade da economia portuguesa”.
    Isso é que é falar. Mas quais as medidas para ultrapassar a crise?
    Acerca disso é o silêncio.


    Pode ser que outros interlocutores sejam mais específicos.

    Faria de Oliveira:
    O presidente do conselho de administração da Caixa Geral de Depósitos (CGD) defendeu hoje "um juntar de esforços" entre as "forças políticas, empresariais e sociais" para "mostrar ao mundo que a descida dupla" do 'rating' português é "injusta".
    "Injusta"...continuamos:

    "Não vou comentar se o corte do 'rating' é justo ou injusto (acabou de faze-lo, Nota de I.I.), ele foi feito e portanto agora temos de enfrentar uma situação difícil e temos de saber enfrenta-la, em primeiro lugar, com uma grande coesão nacional", afirmou Faria de Oliveira.

    Fernando Faria de Oliveira apontou como "fundamental" a aceleração "do reequilíbrio das finanças públicas" e considerou o Programa de Estabilidade e Crescimento (PEC) "um elemento essencial" que pode merecer "eventuais ajustamentos que melhorem a nossa imagem no exterior".
    O presidente da CGD defendeu ainda medidas de curto prazo com efeitos no "crescimento económico", como "a integração das empresas em redes de produção e distribuição internacionais que facilitem a exportação" e uma "nova abordagem dos mercados e dos modelos de negócio das empresas".

    A longo prazo, disse que deve ser procurado "um novo modelo de crescimento económico, baseado nos sectores em que Portugal tem vantagens competitivas".
    O último período não significa nada de concreto. Antes disso temos o reequilíbrio das finanças públicas (excelente ideia, mas como?) e o PEC. Só isso? Não, temos ainda as empresas integradas numa rede internacional e uma nova abordagem dos mercados. Resumindo: nada.

    Pedro Silva Pereira:
    O ministro da Presidência afirmou hoje que Portugal "precisa de dar sinais de toda a determinação na execução do Programa de Estabilidade e Crescimento", apelando a uma "co-responsabilização" de todos no sentido de credibilizar a economia portuguesa no exterior.
    Ainda o PEC? Toda a economia portuguesa agarrada a esta tábua de salvação a partir de amanhã? Qual a ideia? Os operadores da Bolsa com um colete e as letras "PEC" para acalmar os mercados? Não, claro que há mais além do PEC:

    Pedro Silva Pereira lembrou que o PEC foi "aprovado" em Bruxelas e foi "elogiado como sendo credível", salientando também que os sinais actuais, "quer na frente da execução orçamental nos primeiros três meses do ano e das receitas do mês de Abril, quer "os dados relativos à economia portuguesa do primeiro trimestre são dados positivos e que são convergentes com os cenários e estimativas do Governo".
    Talvez o Ministro não tenha tido ainda ocasião de ler o relatório de Standard & Poor's , mas foram estas mesmas estimativas que levaram a agência (e Fitch também, no dia 24) a baixar o rating. O problema, agora, é quebrar o cerco dos mercados internacionais, a começar pelos especuladores. Os quais já conhecem o PEC mas, pelos vistos, não ficam assustados com isso.


    O Ministro de certeza sabe que se os ataques à economia continuarem Portugal terá cada vez mais dificuldades em encontrar empréstimos com preços razoáveis e terá também de oferecer os próprios bond com taxas de interesse que irão hipotecar um futuro desenvolvimento da economia.

    Não é preciso ter uma fantasia fenomenal para imaginar cenários desta natureza: é só abrir um jornal e ler o que acontece com a Grécia.

    Inútil acrescentar que nestas condições todas as previsões e estimativas do Governo evaporam como neve ao sol.

    "Nós temos uma estratégia para a consolidação das contas públicas e também para a recuperação da economia, é o PEC, ele foi aprovado em Bruxelas, foi elogiado como sendo credível...[...]"
    Tá bom, já percebemos.


    Voltamos ao títulos de Estado. Qual a actual situação?

    É Costa Pina, Secretário de Estado do Tesouro e Finanças, que numa entrevista à Reuters explica que Portugal ainda precisa de emitir entre 11.000 e 13.000 milhões de euros de OT, tendo já realizado emissões de 9.000 milhões de euros este ano, que registaram uma forte procura.

    Estas são más notícias, pois significam que o País nem chegou a emitir a metade das obrigações previstas antes de ficar debaixo do ataque.

    "Do lado do Governo português serão adoptadas todas as medidas necessárias tendentes a garantir a confiança na nossa dívida pública", frisou o secretário de Estado. 
    Também do lado da oposição as ideias não são propriamente originais.

    Passos Coelho pediu uma reunião (prevista para hoje) com o Primeiro Ministro tendo em vista uma possível antecipação das medidas...do PEC.

    Moral: ninguém arrisca previsões. Fala-se em "medidas" mas, além do PEC, nada de mais concreto.
    A verdade é que não vai ser fácil encontrar uma solução de curto prazo. Admitindo que esta solução seja ainda possível. As próximas horas serão fundamentais para estabelecer uma táctica de defesa que aponte para a redução dos prejuízos; ganhar esta batalha parece impossível, limitar os danos já seria oxigénio para a economia de Lisboa.

    E que os próximos dias não estejam simples é coisa óbvia:
    "O dia de amanhã [quarta feira] vai ser a continuação do dia de hoje. A bolsa reagiu de forma muito negativa a estas notícias, como seria de esperar, e, neste contexto, em que os mercados têm revelado uma turbulência significativa (...) não vão serenar",
    Palavras de Teixeira dos Santos.

    Infelizmente, nos mercados contam os factos. E, na ausência de medidas concretas, são as palavras de Standard & Poor's que contam.
    A Standard & Poor’s considera que o maior entrave à subida do “rating” da República portuguesa é o fraco crescimento económico e não a ausência de uma maioria partidária no Parlamento.

    Numa conferência de imprensa dada hoje por telefone, a agência de “rating” defende que o principal problema reside na falta de competitividade da economia, que deverá fazer com que o PIB estagne em 2010, depois de ter recuado 2,7% no ano passado.

    “Num mundo perfeito, seria ideal haver uma maioria parlamentar”, disse David Beers, responsável pela divisão de Finanças Públicas Internacionais. Contudo, acrescentou, “pensamos que é possível o Governo negociar cada medida individualmente no Parlamento”, recorrendo a “acordos partidários”.

    A maior pressão vem, portanto, do crescimento económico, que foi um dos mais baixos da Zona Euro na última década. É esta variável, à qual se soma “uma elevada dívida externa do sector privado”, que explica um corte do “rating” de A+ para A-.

    A S&P acredita que o Governo português vai conseguir diminuir o seu défice orçamental, mas aponta para um valor superior à previsão do Governo: 8,5% do PIB este ano, mais 0,2 décimas do que o número inscrito no Programa de Estabilidade e Crescimento. “O Governo tem tomado algumas medidas” mas, segundo os analistas da agência, “estas podem não chegar para atingir o objectivo”.(Fonte: Jornal de Negócios)
    Temos que esperar. Alguém irá extrair o coelho da cartola? Talvez já a partir de hoje...

    Ipse dixit.

     Fontes: Jornal de Negócios, Público

    Água engarrafada? Não, obrigado!

    É verdade, é verdade: prometemos que este post seria dedicado aos problemas económicos de Portugal.
    Mas encontrámos isso: uma genial apresentação acerca da água engarrafada. E os problemas que isso implica.
    E, olha o acaso, falam da Nestlé!

    Um pequeno break antes de voltar à crua realidade. Falado em Inglês e legendado em Português.
    Boa visão!



    27 abril 2010

    Atenas queima (e Lisboa é muito quente)

    Dia feio para a Grécia. Dia feio para Portugal.

    Em geral, dia feio para toda a zona Euro.

    Podemos estar perante um dos piores cenários para um País: o cenário do default, isso é, da bancarrota.
    E não é uma mera hipótese: a Grécia está muito perto disso.

    Hoje foi fechada a contratação dos títulos de Estado. A razão? O rendimento tinha atingido um inacreditável 7%.

    Isso significa que por cada 100 € que o governo de Atenas consegue arrecadar no mercado financeiro, terá que pagar 7% de juros. Valores que pertencem ao mundo da usura, não da Bolsa.

    Vamos ver os dados.
    E começamos com os principais mercados do continente:

    Reino Unido FOOTSIE -0,54
    Alemanha DAX -2,73%
    Italia MIB -3,38%
    França CAC -3,82%
    Espanha IBEX -4,19%
    Portugal PSI20 -5,36%
    Grécia ATHEX 20 -6,85% 

    Não é preciso muito para observar que todo os valores são negativos. O que acontece?
    Simples: as bolsas ficaram deprimidas porque toda a Zona Euro entrou em sofrimento. E o horizonte da moeda única não é nada prometedor.


    A liderar esta corrida para baixo encontramos a Grécia que acabou de viver um dia dramático. Tão dramático que há quem veja nisso o prólogo do default.

    Os factos:
    O rating de Atenas cai até o BB+/B. [...] Os títulos de estado helénicos perto do crack, os bond a 2 anos tratados ao 80% do nominal. (Fonte: Wall Street Italia)
    Com causa na total incapacidade mostrada pela Europa na resolução dos graves problemas financeiros de casa, Standard & Poor's baixou o rating (crédito de longo e curto prazo) dos títulos de estado da Grécia de bem 3 degraus consecutivos.
    É assim: enquanto a Europa discute, duvida, avança e não avança (situação que Informação Incorrecta já tinha realçado), os mercados financeiros não querem esperar mais. O sinal é claro: ou existe esta ajuda ou não existe, não há outras soluções. E, por enquanto, o êxito é negativo: a ajuda não existe.

    É claro que as primeiras a tomar medidas sejam as agências de rating as quais, é bom não esquecer, têm sede nos Estados Unidos. Porque deixar escapar uma ocasião como esta para desviar as atenções do mercado interno e focaliza-las nas desgraças do Velho Continente?

    Só uma pergunta: mas ninguém na Europa tinha previsto uma situação como esta? Claro que alguém pensou nisso, certas coisas não acontecem por acaso.
    Mas continuamos na nossa leitura:
    O rating do País helénico é agora "lixo". Standard & Poor's, que foi criticada ao longo da crise de 2008 pela pouca velocidade no baixar os ratings, desta vez antecipou todos, sinalizando as insustentáveis lentidão, indecisões, dúvidas dos Países Europeus (Alemanha entre os outros) ao enfrentar o "quase-crack" helénico.[...]
    "A Europa demonstra ser impotente perante as dificuldades dos Países mais fracos do Euro" afirma um banqueiro de New York. (Fonte: Wall Street Italia)
    Segundo Bloomberg, os CDS da Grécia saltaram até o valor 814, novo recorde absoluto, em termos negativos obviamente.

    Condensando estas notícias, a Grécia está muito perto da bancarrota e o dia de amanhã já pode ser decisivo.

    O que significa bancarrota? Significa que, neste caso, a Grécia terá de admitir não ter dinheiro suficiente para pagar as dívidas. As consequências são facilmente imagináveis: seria a repetição de quanto acontecido na Argentina no começo do século.

    Para o resto da Europa poderia implicar o fim da moeda única. Ainda é cedo para previsões neste sentido, mas os efeitos da crise grega já são evidentes. E não só da crise grega...
    Alarme vermelho para os mercados com bolsas europeias em forte baixa e abalos sem precedentes [...] após o duplo corte de rating para a Grécia e Portugal.
    Pois.  Já falámos disso: quando acabar a odisseia grega alguém terá que ocupar o seu lugar. E o melhor candidato é o País do fado.
    Standard & Poor's cortou o rating de Portugal com base nas dúvidas acerca da gestão dos altos níveis de endividamento e as fracas perspectivas económicas.
    A agência cortou o rating de longo prazo de dois notch, A- (quatro notch acima do nível "junk")

    "Isso reflecte a nossa visão dos riscos fiscais amplificados que Portugal tem que enfrentar" realça Standard & Poor's.

    "Com base no nosso cenário de crescimento económico achamos que o governo português possa ter dificuldades em estabilizar a questão da dívida até 2013." continua a agência. (Fonte: Reuters)
    Bastante claro. Resultado: Portugal passa a ter o segundo pior rating da Zona Euro, logo após a desastrada Grécia. 

    Áustria AAA
    Finlândia AAA
    França AAA
    Alemanha AAA
    Luxemburgo AAA
    Holanda AAA
    Bélgica AA+
    Espanha AA+
    Irlanda AA
    Eslovénia AA
    Chipre A+
    Italia A+
    Eslováquia A+
    Malta A
    Portugal A-
    Grécia BBB+

    No próximo post mais notícias acerca de Portugal.


    Ipse Dixit

    Portugal cai, Papandreou tem piada

    A situação da Grécia é grave, Espanha e Irlanda também vêem as próprias contas ser prejudicadas. E Portugal? Não tem muitas razões para rir.

    O dia de ontem foi mau.

    O custo dos CDS subiram ontem para 3.166%. O que significa isso?

    Os CDS (Credits Default Swap) são instrumentos para gerir a dívida do Estado: se o valor sobe significa que os mercados internacionais não acreditam na possibilidade de Portugal honrar os próprios compromissos.

    Dito de forma ainda mais simples: acreditam que Portugal não pague.

    É por isso que os CDS gregos por exemplo, disparam: cada vez menos pessoas acreditam que a Grécia possa ter o dinheiro para pagar a enorme dívida que apresenta.

    E o facto dos CDS portugueses aumentar o valor indica que as dúvidas crescem também em relação a Lisboa.

    A suposta ajuda europeia, ou melhor a já tardia ajuda para a Grécia, é fonte de preocupação: há ajuda? Não há? A Zona Euro tem uma atitude incerta e isso aumentas as dúvidas dos mercados.

    E se a ajuda não está a funcionar para Atenas porque deveria funcionar para Lisboa? Dúvida mais que legítima.

    As taxas de juro para as obrigações a dez anos da dívida pública portuguesa subiram para 5,141 por cento hoje de manhã, face a 4,958 por cento na sexta-feira. As taxas a dois anos estavam nos 3,595 por cento, face a 2,937 por cento na sexta-feira.

    Os custos de segurar as obrigações da dívida nacional contra um eventual incumprimento também estavam a subir. 
    As taxas das obrigações gregas a dez anos atingiram hoje um novo recorde, ultrapassando o limiar dos nove por cento, e alcançando o nível mais elevado desde o lançamento do euro, em 2001. Alcançaram os 9,385 por cento, face a 8,68 por cento na noite de sexta-feira. (Fonte: Público)

    Eis o que se passa na bolsa valore de Lisboa:
    A bolsa nacional está a perder mais de 3%, registando a segunda maior desvalorização entre as congéneres europeias, logo a seguir à Grécia, que afunda mais de 7%. O PSI-20 deprecia 3,28% com seis cotadas em mínimos. 
    O principal índice da bolsa nacional (PSI-20) negoceia nos 7.309,50 pontos com todas as cotadas em terreno negativo à excepção da EDP Renováveis. Uma empresa cai mais de 7%, três mais de 6%, 4 mais de 4% e seis mais de 3%.


    No resto do Velho Continente, a tendência é igualmente de queda, num ambiente de grande incerteza em torno da atribuição do pacote de ajuda à Grécia por parte da Zona Euro e do FMI, depois de a Alemanha exigir que Atenas endureça as medidas que visam o corte do défice nos próximos três anos.


    Segundo um estratega do BNP Paribas, Mehernosh Engineer, “o efeito contágio [da crise grega] está decididamente a disseminar-se, estando a estender-se muito rapidamente Portugal, Espanha, Irlanda e Itália”.”O mercado tem estado em modo ‘mostra-me o dinheiro’ há mais de três meses e a falta de ‘guidance’ está a plantar as sementes de uma recessão em forma de W”, comentou o estratega à Bloomberg.


    A Bolsa de Atenas é a que mais cai na Europa, a ceder 6,79%, seguida pela lisboeta e pela madrilena (-2,61%). As restantes praças europeias estão a cair cerca 1%.


    Portugal está a ser mais castigado devido à forte subida dos juros da dívida pública portuguesa, que estão hoje no nível mais elevado desde Março de 2001 e perto dos 6%. (Fonte: Jornal de Negócios)

    Recessão em forma de W? Olha, olha...onde é que os leitores de Informação Incorrecta já tinham lido isso?

    E se alguém ainda pensa que o que se passa na bolsa afinal na bolsa fica:  

    Os três maiores bancos portugueses perderam um total de quase 1,2 mil milhões de euros, com as desvalorizações que sofreram desde a passada segunda-feira, altura em que se agravaram os juros da dívida portuguesa, devido aos receios de que a crise orçamental grega contagie outros países da Zona Euro.

    Desde segunda-feira da semana passada os juros das obrigações portuguesas a dez anos subiram 70,5 pontos base para 5,285%, o que poderá vir a implicar um crescimento dos custos de financiamento dos bancos portugueses. (Fonte: Jornal de Negócios)

    Eis a situação dos três maiores bancos portugueses: 


    E se os bancos pagam mais para obter empréstimos, adivinhem agora quem irá pagar a conta... 
    Pensado? Resposta exacta. 

    Sim, é verdade: as condições de Atenas são mais graves, Portugal não é assim tão mau, estamos fartos de ler esta consideração nos diários: mas isso adianta alguma coisa? Mostra-me o dinheiro é o lema actual. E aqui começam os problemas. 

    Por enquanto, o único com vontade para brincar parece o Primeiro Ministro da Grécia: 

    As nossas decisões corajosas tornaram-nos num exemplo 

    No comment.

    Ipse dixit.

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