30 junho 2010

Para trás, com inalterada confiança

Falamos de economia.
Outra vez? Sim mas este é post curto. Afinal é só um gráfico mas muito interessante.

Intermarket & More teve a boa ideia de combinar alguns indicadores da economia americana num único gráfico, o seguinte:


Vamos descodificar.

Secção superior:

Em azul claro o índice ECRI.
Não sabem o que é o ECRI? Não faz mal, podem ler este post.
Que faz o ECRI? Cai. Como antecipado agora fica em negativo: -6,9%. O que não é bom.

Em viola o índice BCFIUS.
O U.S. Financial Conditions (este o nome completo) é um conjunto de taxas de juro de curto prazo, taxa de câmbio e preços dos imóveis.
Que faz o BCFIUS? Cai. -25.234%. O que não é bom.

Em branco o SP 500.
Este é um indicador histórico da economia americana e reune os preços de 500 acções ordinárias negociadas nos Estados Unidos.
Que faz o SP 500? Cai. -4.06% nos últimos 5 dias. 

Secção inferior:

Em amarelo: índice de produção, ainda em fase de crescimento mas em evidente abrandamento (e não esquecemos o efeito dos estímulos governamentais...)
Em vermelho: taxa de criminalidade, além de 10%. No comment.
Em branco: taxa de desemprego, sempre perto de 10%. No comment.

Estes dois últimos índices apresentam uns desenvolvimentos assustadores: no prazo de 2/3 anos duplicaram (e até algo mais) os próprios valores.

Temos que admitir: é uma retoma anómala, a única na qual os dados económicos pioram em vez que melhorar. Será esta afinal a tão falada New Economy?

Ipse dixit.

Fonte: Intermarket&More

Portugal eliminado! Bancos espanhóis tristes!

Ronaldo ontem, numa das suas acções mais imperiosas
Afinal o que se passou ontem?

Duas desgraças.
A primeira, a mais grave sem dúvida: Portugal afastado do Mundial de Futebol. A segunda, menos importantes: queda abrupta das Bolsas.

A notícia grave

No primeiro caso podemos falar de azar e injustiça: após ter obrigado Espanha a jogar fechada no seu meio-campo ("seu" de Portugal, óbvio), após ter rematado inúmeras vezes (2 no total), após ter gasto uma fortuna no gel de Ronaldo (cujo peso limitou os movimentos do jogador ex-melhor do mundo), os Lusos capitularam por culpa duma vetusta lei do futebol segundo a qual ganha o jogo quem marcar mais golos.

Agora a defender o honor lusitano sobrou só o Brasil. Força Escretes!


As notícias menos importantes

O segundo caso, pelo contrário, é muito mais simples.
O mercado é frágil (e este é um elegante eufemismo), pelo que são suficientes algumas notícias um pouco menos positivas para que as Bolsas entrem em sofrimento.
Quais foram estas notícias?

Em verdade não são coisas assim importantes, mas sabemos como são os investidores: têm medo de tudo e mais alguma coisa.


Notícia nº 1: Consumidores americanos desconfiados

É muito esquisito. Estamos no meio duma fulgurante retoma económica e os cidadãos dos Estados Unidos que fazem? Perdem a confiança.

O índice de confiança dos consumidores compilado pelo Conference Board caiu abaixo de todas as expectativas: de os 62,7 pontos em Maio para 52,9 pontos em Junho.
As previsões eram de uma queda suave, mais ou menos 62,5 pontos.

Tudo isso é muito injusto: se já estão desconfiados agora, o que vão fazer na próxima Sexta-feira ao ver os dados relativos à ocupação? Breve antecipação:-100.000 empregados e taxa de desemprego na ordem do 9,80%.


Notícia nº 2: o BCE fecha as torneiras

O Banco Central Europeu anuncio o fim do programa LTRO, com o qual os contribuintes do Velho Continente financiaram ao longo dum ano o portfolio os Títulos dos Bancos.

Como? Não sabiam de estar a financiar os bancos? Acontece, sobretudo quando os media não falam de certas coisas.

Mesmo assim os bancos vêm nessa decisão uma enorme injustiça: ao longo de um ano as instituições financeiras adquiriram no mercado valores que a seguir foram dados em garantia ao BCE para financiar-se, lucrando com a diferença entre a taxa de juro (1%) e a dos títulos comprados.

Agora acabou a festa e os bancos, justamente, perguntam "Mas como? Não vivemos num sistema capital-comunista, com a socialização das perdas mas não dos lucros? Então porque o BCE acaba com este jeitoso joguinho?".
O que é verdade. Neste aspecto a decisão do Banco Central não faz muito sentido: pretender que a partir de agora os bancos privados trabalhem sem a ajuda dos contribuintes europeus significa voltar atrás, ao tempo em que as empresas privadas arriscavam o próprio capital num livre mercado. Um autêntico anacronismo. E a Bolsa sofre.


Notícia nº 3 (várias): a China cresce menos e os bancos espanhóis ficam tristes

O índice dos indicadores económicos avançados da China subiu 0,3%, em Abril, ganho inferior a quanto reportado no dia 15 de Junho. Paralelamente, na vizinha Espanha os bancos ficaram triste: o fim do programa do BCE para eles não significa o fim da festa mas o regresso dos medos. Jornal de Negócios:
Em declarações ao “Financial Times” e sob anonimato, os responsáveis da banca espanhola classificam esta postura do BCE de “absurda”, uma vez que o mercado interbancário não está normalizado.
A ministra das Finanças espanhola, Elena Salgado, já apelou ao BCE para que tenha consciência das necessidades de financiamento da banca e renove este programa de refinanciamento a 12 meses, que expira esta semana.
De facto, acrescentamos nós, estamos a falar duns miseráveis 452 mil milhões de Euros que os cidadãos europeus seriam bem felizes de poder continuar a pagar.


A notícia mais ou menos boa

Hoje as Bolsas estão a recuperar (pelo menos até agora). Mas atenção: os analistas apontam para uma tendência negativa, em particular na área bancaria e da construções.

Continuamos a seguir a evolução dos mercados. E os toques de Kaká também.

Ipse dixit.


Fonte: Jornal de Negócios
Fotografia: Jornal i

A CIA, a Jamaica e Bob Marley

Que tem a ver a CIA com a Jamaica?
E com Bob Marley?

Talvez muito.
Não será o melhor artigo de Global Research, mas ajuda a perceber qual o clima na ilha das Caraíbas.

Esqueçam o reggae ou o atletismo: na Jamaica há outra realidade, feita de violência e droga. E a Shower Posse é só uma na constelação das posses e gangs que disputam o controle do mercado da droga.
Na página Wikipedia inglesa podem encontrar uma lista não exaustiva de todas as bandas em circulação na ilha.
Como possam existir e conviver todos estes criminosos numa ilha de apenas 240 quilómetros de comprimento e 85 de largura é um mistério. Mas assim é.

Poderia faltar a CIA no meio de tudo isso?

Como a CIA criou a mais notória organização criminosa

Com a recente onda de violência na Jamaica (passada quase despercebida aqui na periferia do Império, NDT) e da controvérsia sobre o alegado senhor da droga, Christopher "Dudus" Coke, muitas pessoas falam da famosa jamaicana Shower Posse e do bairro Tivoli Gardens, onde tem a sua base. O que tem sido praticamente ignorado pelos meios de comunicação é o papel que o governo americano e a CIA têm no treinar, armar e conferir poder aos Shower Posse.

É interessante que os Estados Unidos estão a acusar Christopher "Dudus" Coke, o actual líder dos Shower Posse, de tráfico de drogas e de armas, tendo em conta que a CIA foi acusada de contrabando de armas na Jamaica e facilitou a venda de cocaína da Jamaica para os Estados Unidos na década de '70 e '80. Duma certa forma, Dudus estava apenas a continuar uma tradição de corrupção política, tráfico de drogas, armas e violências que começou com a ajuda da CIA.

O pai de Christopher "Dudus" Coke era Lester Coke, também conhecido como Jim Brown, um dos fundadores do Shower Posse e uma pessoa campeão e protector do bairro pobre de Tivoli Gardens, em Kingston. Coke era um guarda-costas e partidário político de Edward Seaga, o líder do Partido Trabalhista da Jamaica.

O adversário Seaga, Michael Manley, tinha começado a tomar posições "socialista", tinha começado a criticar abertamente a política externa americana e tinha encontrado o inimigo dos Estados Unidos, Fidel Castro, nos anos '70. Tendo em conta a Guerra Fria dos EUA com a Rússia, a CIA não quis uma Jamaica amiga dos comunistas.

De acordo com o livro de Gary Webb, "Dark Alliance", Norman Descoteaux, o chefe da CIA estacionado na Jamaica começou um programa de desestabilização do governo de Manley no final dos anos '70. Parte deste plano eram os mortos, o dinheiro para o Partido Trabalhista da Jamaica, o descontentamento dos trabalhadores, a corrupção e o tráfico de armas para o inimigo de Manley, Lester "Jim Brown" Coke.

O escritor Daurius Figueira escreve no seu livro, "Tráfico de cocaína e heroína nas Caraíbas": de facto significativa que o tráfico ilícito de drogas ligado ao Partido Trabalhista da Jamaica tinha sido integrado num canal ilícito e  criminoso de armas e de drogas da CIA" .

O ex-agente da CIA Philip Agee, disse que "a CIA estava a usar o Partido Trabalhista da Jamaica como um instrumento na luta contra o governo de Michael Manley, eu diria que a maioria da violência veio do Partido Trabalhista da Jamaica, e atrás dela estava a CIA para a aquisição de armas e investimento de dinheiro."

Um dos colegas de Lester Coke, Celil Connor, declarou que ele tinha sido levado pela CIA para combater as guerras políticas para o Partido Trabalhista da Jamaica com assassinatos e espionagem. Connor teria manipulado as urnas e intimidado os eleitores para ajudar o Partido Trabalhista da Jamaica em ganhar as eleições. Connor teria continuado a ser um criminal político como parte do cartel jamaicano internacional de cocaína conhecido como Shower Posse. Ele testemunhou contra Lester Coke e o seu seguidor Vivian Blake, apenas para voltar à sua terra natal, St. Kitts, e tornar-se o líder da droga que mantinha a maioria do País como refém.

O pai de Christopher "Dudus" Coke, Lester Coke, também tinha sido acusado de colaboração com a CIA. Timothy White especula na sua biografia de Bob Marley, "Catch a Fire", que Jim Brown fosse parte dum grupo de homens armados que tentou matar Bob Marley, grupo liderado por Carl "Byah" Mitchell, apoiante do Partido Trabalhista. Os autores Laurie Gunst e Vivien Goldman fazem as mesmas declarações nos livros "Born Fi Dead" e "The Book of Exodus". O manager de Marley disse que um dos assaltantes de Marley foi capturado e confessou que a CIA havia concordado em pagar-lhe cocaína e armas, desde que Marley tivesse morrido.

Lester Coke foi executado mais tarde numa cela da prisão Jamaicana, enquanto aguardava a extradição para os Estados Unidos. Muitas pessoas declararam que foi morto para que não pudesse revelar os seus segredos que tinham a ver com a CIA, o Jamaican Labour Party e as suas actividades criminosas.

Nos seus esforços para desestabilizar o Governo da Jamaica nos anos '70, a CIA criou um grupo de contrabando de drogas, armas e criminosos políticos. Através do tráfico de drogas, estes criminosos acabariam por tornar-se mais poderosos dos políticos com que estavam ligados. O programa de desestabilização da CIA não só desestabilizou a Jamaica dos anos '70, mas também a Jamaica dos 40 anos que se seguiram.

Considerando o sigilo da CIA e da sociedade da Jamaica, não é possível saber ao certo qual foi o papel da CIA na criação das Shower Posse. Entregaram armas? Cocaína? Instrucções acerca de como contrabandear drogas? A CIA usou as Shower Posse para tentar matar Bob Marley? A CIA deveria responder à estas perguntas.

Se o que foi alegado sobre a CIA for verdade, então eles são parcialmente responsáveis pelo ciclo de tráfico de armas, contrabando de armas e violência que afligem hoje a Jamaica. Se os EUA podem extraditar o filho dum dos apoiantes políticos da CIA com a acusação de tráfico de drogas e cocaína, não deveria a CIA ser investigada por ter ensinado aos Jamaicanos como conduzir uma guerra política, ter dado armas, cocaína e ajuda-los a vende-la?
Tendo em conta a revelação segundo a qual a CIA permitiu aos traficantes de drogas do Nicarágua de vender nos Estados Unidos para financiar a revolução deles contra o governo comunista, não é assim forçado acreditar que tivesse armado os Jamaicanos para combater os comunistas da Jamaica.

Fonte: GlobalResearch
Tradução: Informação Incorrecta

A colocação geopolítica do Irão - Parte III

Terceira e última parte da conferência dedicada ao Irão.
A primeira parte pode ser encontrada aqui enquanto a segunda é disponível aqui.

Boa leitura!

As eleições presidenciais de 2009
Vamos então a segunda parte desta exposição, que abrange as eleições presidenciais iranianas de 2009. Em particular, tentamos compreender se é que foram manchadas pela fraude ou se a vitória de Ahmadinejad pode ser considerada como verdadeira. Apoiamos os resultados numa minha pesquisa pormenorizada, da qual serão apresentados só os dados mais importantes, omitindo os cálculos intermédios e outros argumentos auxiliares.



Estes são os resultados oficiais das eleições disputadas. A primeira coisa que salta aos olhos são os mais de 11 milhões de votos de diferença entre Ahmadinejad e o segundo classificado, Musavi. Num País onde cada mesa de votação tem visto vários observadores independentes e candidatos (incluindo os derrotados: em particular, Musavi tinha mais observadores do que Ahmadinejad) parece altamente improvável, senão impossível, pensar numa intervenção maciça dos boletins de voto já nos assentos. Não por acaso, os mesmos críticos que denunciaram a suposta fraude de Ahmadinejad estão mais inclinados a considerar que os resultados foram simplesmente reescritos pelas autoridades. Mesmo que a re-contagem parcial dos votos em alguns dos distritos mais controversos tenha confirmado os resultados iniciais, a possibilidade de fraude manteve um amplo crédito em todo o mundo.



No entanto, os resultados das eleições foram em linha com o que tinha sido previsto pela maioria dos observadores e das sondagens. Mesmo sem confiar nas sondagens iranianas, há uma, muito significativa, que foi efectuada com todo o rigor científico por três importantes organizações dos Estados Unidos: o centro Terro Free Tomorrow (não suspeitos de "ser bom" com Ahmadinejad, tendo entre os seus conselheiros também o senador John McCain), o prestigiado instituto New America Foundation e a empresa de pesquisa KA, entre os líderes mundiais do sector. Este inquérito, apesar de registar um elevado número de indecisos, mostrou uma tendência de voto relativamente a Ahmadinejad superior daquela de facto foi verificada nas eleições.



Há um outro dado muito importante. Ao substituir Musavi de 2009 com o candidato Rafsanjani, que em 2005 desafiou Ahmadinejad nas urnas, poderíamos descobrir que os resultados das duas últimas eleições presidenciais no Irão são quase coincidentes. Repare-se que em 2005 governava Khatami o qual, nas últimas eleições apoiou Musavi, tal como Rafsanjani.

Segundo alguns comentadores, uma "prova" da fraude sistemática nas eleições de 2009 seria a excessiva uniformidade de votos nas várias províncias. A evidencia aritmética, no entanto, mostra que a votação de 2009 foi mais "deformada" localmente do que em 2005 (que, lembre-se, realizou-se sob um governo de "reforma", governado pelos adversários políticos de Ahmadinejad).

As discrepâncias locais na votação do Irão em 2009 é significativamente superior, por exemplo, a registada nas eleições italianas de 2008, as quais nem por isso foram acusadas de estar falsas.

Ali Ansari, um pesquisador da Chatham House de Londres, identificou 10 províncias (de um total de 30), em que os votos obtidos por Ahmadinejad seriam improvável em relação aos resultados de 2005. Ansari, como muitos defensores da tese de fraude, adopta como referência para comparar a primeira rodada de 2005. Isso é incorrecto, porque o contexto político era completamente diferente. Primeiro, em 2005 não houve um candidato presidente cessante, que em 2009 foi o mesmo Ahmadinejad, e assim a competição parecia ser mais plural: cinco candidatos em 2005 ultrapassaram o 10% dos votos no primeiro turno. A situação registada em 2009, com apenas quatro candidatos e uma aguda polarização dos votos em dois dos candidatos, faz lembrar o segundo turno e não o primeiro de 2005. Ao refazer os cálculos de Ansari com base precisamente na comparação com o escrutínio de 2005, e reconhecendo a Ahmadinejad 61,75% de novos eleitores (ou seja, a percentagem que obteve em 2005), observamos que em duas das 10 províncias Ahmadinejad até está em declínio .

Em um outra 4 teve aumentos inferiores a 10%; em apenas quatro os seus votos aumentaram em mais de 10%, com um pico de 17,72% em Lorestan. É preciso esclarecer aqui dois pontos: os votos obtidos nestas quatro províncias, mesmo admitindo que todas fossem fraudulentas, somam pouco mais de meio milhão de votos no total, em comparação com um deficit de Musavi de mais de 11 milhões de votos. Em segundo lugar, não há garantia de que, mesmo assim, ganhos significativos não possam ser verdadeiros. Os fluxos eleitorais existem e não significam automaticamente fraudes.

Acaba aqui a transcrição da intervenção de Daniele Scalea, editor de "Eurasia" e autor de O Desafio Total (Ed. Fuoco, Roma 2010), na conferência "O Irão e a estabilidade do Oriente Médio", realizada em Trieste (Italia) na Quinta-feira 3 de Junho de 2010.

Ainda uma vez, os links para a primeira e a segunda parte:

A colocação geopolítica do Irão - Parte I
A colocação geopolítica do Irão - Parte II

Fonte: Eurasia 
Tradução: Informação Incorrecta

Maré negra: já não é notícia

Vamos falar de economia? Das Bolsas que precipitam?

Não. Vamos falar ainda uma vez da maré nega e do desastre ambiental do Golfo do México.
Porquê? Porque a notícia já não é notícia.

Do site da agência Lusa (Portugal) desapareceu por completo.
No site da Ansa é preciso ir à procura para encontrar algo. Mesma coisa com Yahoo Italia. No Yahoo Brasil nada, a notícia foi substituída com um assunto muito mais empolgante: Porque temos pelos de comprimentos diferente no corpo?

Começamos a ser acostumados a este buraco negro que cospe petróleo, como se este fosse um acontecimento inevitável.
Entretanto, a cada dia, qualquer coisa como 60 ou 100 mil barris de petróleo entram no mar. E já atingiram a Corrente do Golfo. Quais as consequências? Silêncio.

Comenta Petrolio:
As únicas pessoas que ainda tentam ser ouvidos são os cidadãos de Louisiana, Flórida, Mississippi, que inundam a rede com centenas de vídeos para mostrar o colapso das costas e das praias, enquanto a televisão, agora completamente divorciada da realidade, continua a transmitir spot onde as celebridades convidam para ir em férias no Golfo.
As pessoas falam de crianças com tosse, duma costa que cheira como uma estação de serviço, de plantas queimadas, de poças oleosas após a chuva, de pessoal de limpeza que ficam maldispostos a cada noite.

E os vídeos no Youtube? A resposta é simples: a televisão não passa nada disso, por isso é tudo falso ou exagerado ou inatendível ou uma brincadeira.

A impressão é que haja bem poucas pessoas com vontade de brincar à beira do Golfo do México.
O seguinte vídeo é duma senhora de Pensacola, na Florida. A ideia é simples: imergir um normal filtro de cozinha na água do mar e ver o que acontece:




Pensacola, uma cidade de 50 mil almas, vive de turismo e  pesca, como a maior parte das pequenas e médias localidades da Florida.
As autoridades locais agora lançaram a primeira proibição de banhos. Motivo: há petróleo e há também jornais com fotos de crianças com as mãos enquanto jogam na praia.

O director do Parque Nacional das Ilhas do Golfo tenta tranquilizar:
As praias continuam a estar abertas e é possível tomar banhos de sol.

Com certeza. E para atestar nem é preciso deslocar o carro até a bomba de gasolina: é só inserir uma sardinha no depósito.

Fonte: Petrolio, Youtube, AGI

29 junho 2010

Big Brother

Não gostam das últimas decisões do vosso governo?
Cuidado: nada de expressões tipo "Aqueles ladrões..." ou pior ainda "Seria precisa outra revolução!".
Porquê? Porque o Grande Irmão europeu ouve.

Não, não é uma brincadeira. Quarto Poder relata uma decisão da União Europeia. A ideia das mentes pensantes era a de controlar o terrorismo islâmico, com um intuito de prevenção. Só que algo não correu como planeado (ou correu demasiado bem, pontos de vista) e o texto final vai muito além disso.

Afinal Bin Laden pode estar morto. Mas a ameaça do terrorismo continua a dar uma grande jeito.
Entre as realizações da Presidência espanhola da União Europeia, passou praticamente despercebida a aprovação dum programa de vigilância e recolha sistemática de dados pessoais de cidadãos suspeitos de sofrer um processo de "radicalização". Este programa pode ser dirigido contra grupos de indivíduos envolvidos na "extrema-esquerda ou de direita, nacionalista, religiosa ou anti-globalização", segundo quanto consta nos documentos oficiais.
Gostas de Lenine? És um extremista. Gostavas de ver voltar o Rei? Também. Rezas muito? És um fanático e por isso perigoso. És anti-globalização? Ahiahiahiahi...
No passado 26 de Abril, o Conselho da União Europeia, no Luxemburgo, discutiu o tema da agenda, intitulado "A radicalização na União Europeia", que terminou com a adopção do documento 8570/10.
A iniciativa faz parte da estratégia de prevenção do terrorismo na Europa e foi inicialmente concebida para grupos terroristas islâmicos. No entanto, o documento amplia a suspeita de tal forma e em termos tão genéricos que abrange a vigilância policial de qualquer indivíduo ou grupo com suspeita de radicalismo.
Assim, uma organização activista civil, política ou de cidadãos sem vínculos com o terrorismo, pode ser espiada no âmbito de um programa que convida à investigação do "grau de comprometimento ideológico ou político" do suspeito, até se a sua situação económica é de "desemprego, deterioração, perda de ajuda financeira."
É normal que uma pessoa desempregada seja também um pouco deprimida, até zangada. Aliás: "era normal" pois agora é preciso enfrentar a falta de emprego com o sorriso nos lábios. Caso contrário: investigação.

"Porquê estás a rir?"
"Porque acabei de ser despedido"
"Ah, pois é, sorte tua!"
"Não, sorte nossa em ter um governo assim!"

Interessante também o grau de comprometimento ideológico ou político.

"Gostaria de dar um pontapé a este primeiro ministro" Grau 1.
"Gostaria de estrangular este primeiro ministro" Grau 2.
"Este primeiro ministro deveria ir a trabalhar" Grau 3, o mais perigoso.
O documento aprovado recomenda que os Estados-Membros compartilhem informações "sobre os processos de radicalização."
O que entende a UE com o termo de radicalização? O texto deveria definir o conceito, porque isso permitiria restringir a área de fiscalização ao terrorismo islâmico, mas não. Convida, pelo contrário, a considerar entre os objectivos todos os tipos de defensores de ideias heterodoxas.
O acordo também põe sob controlo da polícia os cidadãos que defendem clássicas ideias radicais, tal como os adeptos do reformismo democrático. Poderia ainda ser aplicado contra aqueles que são "radicais" no sentido etimológico radical, como "radical" é nem mais nem menos, quem aborda os problemas na sua raiz.
Por exemplo: em Lisboa há uma escola de condução cujo nome é "Radical". O Estado Português deveria comunicar isso aos outros Estados membros?
E o canal televisivo "Sic Radical"? Será suprimido ou posto sob administração controlada?
O que significa afinal ser "radical"? Com um pouco de boa vontade esta categoria pode incluir boa parte da população.
O acordo pulveriza o espírito europeu de tolerância para todas as ideias, sempre que sejam defendidas com a palavra porque, no seu zelo para prevenir o terrorismo, amplia a gama de suspeitos para diluir a diferença marcante entre os meios com que se defendem as ideias e as próprias ideias.

O programa de monitorização global está contido num documento anterior, 7984/10, intitulado "Instrumento para o armazenamento de dados e informações sobre a radicalização violenta", de Março deste ano. Casualmente, a este texto foi dado carácter confidencial, e só foi conhecido através da organização de defesa das liberdades civis statewatch.org que teve acesso ao documento e tornou-o público. A ONG afirma que este programa "não é dirigido principalmente para pessoas ou grupos que pretendem cometer atentados terroristas, mas às pessoas que têm opiniões radicais, quem é definido como propagador de mensagens radicais."
O que é uma mensagem radical? A definição é muito ampla.
"Os adeptos do FC Porto são uma cambada de XXXXX!" é uma mensagem radical?
"Os adeptos do SL Benfica são uma cambada de XXXXX!" é uma mensagem radical?
Segundo Informação Incorrecta, a segunda é sem dúvida uma afirmação radical que merece investigação, enquanto a primeira não, pois limita-se a descrever uma evidência.
A ideia de "mensagem radical" é subjectiva.

Atenção: o programa da UE ainda não inclui o desporto, é claro; mas o facto grave é da ideia ter passado. Quanto às aplicações sucessivas, isso não é um grande problema. Será suficiente um Mundial de Futebol qualquer, o País distraído, e eventuais modificações mais abrangentes serão introduzidas sem obstáculos.
Entre os objectivos do documento secreto figura a  "luta contra a radicalização e o recrutamento", e inclui referências relativas à perseguição daqueles que incitam ao ódio ou à violência e parecem destinadas a grupos terroristas ou filo-terroristas. No entanto, estas são desnecessárias pois são já puníveis nos termos da legislação penal dos Países europeus. O texto fala alternadamente de "radicalização" e "radicalização violenta", associando assim o uso da violência com todos os tipos de ideias extremas ou anti-sistema. O programa convida a controlar o público para qual as mensagens são orientadas pelos radicais, se apoiam ou não a violência, se existem outros grupos com as mesmas ideias que recusam a violência, como as mensagens radicais são transmitidas, etc.
À medida que desce no detalhe, a monitorização individual deve investigar até mesmo os sentimentos das pessoas que são activas nos grupos suspeitos, através de abordagens como a que visa obter informações sobre os sentimentos "da pessoa em relação à sua nova identidade colectiva e aos membros do grupo". E com perguntas como "Será que a pessoa fez comentários sobre as questões, principalmente de natureza política, utilizando argumentos baseados numa mensagem radical? Fez comentários sobre a sua intenção de participar num acto violento? ". 
Política. Afinal o que assusta Bruxelas são principalmente as opiniões políticas.
E aqui voltamos ao mesmo problema. A politica não é limitada ao parlamento, é muito mais do que isso.
"Desgraçados, subiram o preço da auto-estrada (da gasolina, do correio, do pão, etc.)" é uma afirmação política. Pode não parecer mas é assim.

Por isso é preciso desenvolver o autocontrole e treinar. Comecem em casa, frente dum espelho.
Já não é
"Cambada de parasitas, viajam com o motorista os malandros!"
mas
"Em vez de arriscar um acidente, escolhem viajar com o auxílio dum profissional da condução, isso sim é que dar o exemplo, abençoados sejam!".

As primeiras vezes pode ser complicado, admitimos, mas a seguir, com um pouco de esforço...

Ipse dixit.


Fonte: Quarto Poder

Lições do passado

Qual será a solução?

Cortar tudo e mais algumas coisas, como sugerem as mentes pensantes de Bruxelas?

Ou gastar mais e ainda mais, como predica Barack Obama?

A redução do deficit público como objectivo central da vida de centenas de milhões de pessoas ou um deficit em segundo plano?

É o que pergunta Dave Cohen, no seu Decline Of The Empire:

Quais são as lições de 1937?
Diz-se que as decisões políticas importantes irão determinar a vida económica dos Estados Unidos nos próximos anos. O economista liberal Paul Krugman acha que hoje podemos repetir este pensamento do anos 30: de repente, a criação de empregos é out, infligir sofrimento é in. Condenar os deficits e recusar ajudar uma economia que ainda está a lutar pela sobrevivência é a nova moda em todo o mundo, incluído nos Estados Unidos; aqui, de facto, 52 senadores votaram contra a proposta de estender as ajudas aos desemprego, embora a taxa de desemprego hoje seja a maior já registada a partir dos anos '30.

A colocação geopolítica do Irão - Parte II

Segunda parte da transcrição da conferência dedicada ao Irão. 
A primeira parte pode ser encontrada neste link.
Boa leitura. 

  Eurasia: concentração dos recursos energéticos

Agora vamos tratar do quadro energético. O mapa resume a situação da energia na Eurásia, identificando quatro regiões de importação (Europa, Ásia Oriental, Ásia Meridional e Sudeste Asiático) e quatro regiões exportadoras (Rússia, Ásia Central, Irão, Médio Oriente). As quatro regiões produtoras poderiam ser substancialmente reduzidas a duas: a Ásia Central não tem acesso ao mar, depende dos Países vizinhos para vender os próprios recursos, nomeadamente a Rússia devido à rede de gasodutos e oleodutos herdados da época soviéticas; o Irão exporta muito menos do seu potencial, como veremos em breve. Por isso sobram a Rússia e o Médio Oriente, mas este último é dividido em várias nações, muitas vezes politicamente, economicamente e socialmente frágeis. É por isso que a Rússia pode ser identificada como a maior potência energética do continente eurasiático (e mundial).
 Eurasia: oleodutos e gasodutos

Esta imagem mostra como a rede de energia existente tenha centro no território da Federação Russa. Em particular, a Ásia Central depende quase inteiramente da Rússia para a exportação de seu petróleo até a Europa.
 O oleoduto Baku-Tbilisi-Ceyhan

Os EUA tentaram inserir-se na conexão Ásia Central - Rússia - Europa. Na verdade, esta ligação cria uma relação de interdependência entre as três partes. Em particular, Moscovo recebe importantes alavancas estratégicas inerentes os Países europeus e da Ásia Central. O plano de Washington é construir novas rotas energéticas da Ásia Central para a Europa que contornem a Rússia. O primeiro projecto importantes nesse sentido foi o oleoduto Baku-Tbilisi-Ceyhan. Inaugurado em 2006, teve um efeito perturbador menos importante de quanto previsto pelos Estados Unidos: de facto recebeu o petróleo do Azerbaijão, mas apenas marginalmente o dos Países da Ásia Central.
 Os projectos de gasodutos rivais com destino Europa

Nos últimos anos o gás natural tornou-se cada vez mais importante no cabaz energético, e por isso os projectos mais recentes têm incidido sobre o transporte do "ouro azul". Os EUA lançaram o ambicioso projecto Nabucco que, desde a Turquia, deve chegar na Áustria, representando um canal alternativo para o trânsito no território russo. Moscovo não ficou a olhar: os Russos já começaram a construção do Nord Stream e estão a preparar o lançamento do South Stream: e os dois gasodutos, passando respectivamente sob o Mar Báltico e o Mar Negro, ignoram a Europa Oriental (que criou vários problemas para o trânsito do gás russo) e irão aumentar significativamente o volume de fornecimentos da Rússia para a Europa Ocidental.
 O Nabucco e o Irão

O Nabucco tem uma grave deficiência: a incerteza sobre as explorações a partir do qual captar o gás. Além do gás do Azerbaijão, é provável que receberá o do Egipto e do Iraque. No entanto, isto pode ser insuficiente em relação às ambições com as quais será criado. Além disso, a sua óbvia finalidade geopolítica é a de roubar gás da Ásia Central (Turcomenistão em particular), ao trânsito russo. Mas o gás do Turcomenistão tem apenas duas maneiras de chegar até Erzurum: uma conduta hipotética trans-Cáspio (que tem a oposição de duas nações ribeirinhas , a Rússia e o Irão, e acerca da qual permanecem muitas dúvidas técnicas), ou o trânsito através do território iraniano.

Mas o papel do Irão com relação ao Nabucco não pode ser apenas de um simples canal de trânsito de gás do Turcomenistão. O País persa já é um grande exportador de petróleo, mas mostra um potencial ainda maior em relação ao gás natural, com reservas provadas que são as segundas maiores do mundo. E embora seja o quinto maior produtor do mundo de gás, o Irão é pouco mais de vigésimo nono enquanto exportador. Isto porque a maioria do gás produzido é consumido internamente. Esta é uma das principais razões para o programa nuclear iraniano: satisfazer a necessidade de energia interna com o nuclear e a libertar grandes quantidades de gás para a exportação. Exportações que poderiam passar mesmo pelo Nabucco, se houvesse uma distensão com a Nato.
 O gasoduto Irão-Paquistão-Índia

Também para evitar essa eventualidade, a Rússia esforçou-se para patrocinar o gasoduto Irão-Paquistão-Índia. Dirigindo para Oriente o gás iraniano, Moscovo pode continuar a ser a principal e essencial fornecedor de energia da Europa. Teheran e Islamabad já começaram a construir, enquanto a Nova Deli, também cúmplices as pressões de Washington, ainda é hesitante. Os paquistaneses têm oferecido aos chineses o lugar dos indianos, mas por enquanto Pequim não aceita nem rejeitada.
 Médio Oriente: a situação atual

Nesta fase, o Médio Oriente parece estar a experimentar uma nova polarização. Em comparação com a Guerra Fria, o papel estratégico dos actores externos é menor do que o dos País local, mas não desprezível. A ascensão do Irão assusta muitos Países árabes, especialmente os do Golfo, que junto com a Jordânia e o Egipto já formaram uma aliança "não oficial" com Israel, obviamente, abençoada pelos EUA. O Irão, além do aliado Síria e um par de Países incertos (Iraque e Líbano) também parecem poder contar com a Turquia: um País que tem ambições de hegemonia regional, mas que nesta fase escolheu a cooperação com o Irão. Este segundo bloco cultiva boas relações com a Rússia e a China.
E aqui acaba a segunda parte.
A primeira pode ser lida aqui, enquanto a terceira está disponível aqui.


Fonte: Eurasia
Tradução: Informação Incorrecta

Ninguém mexa nos bancos!

Quanto custaram até agora os planos de ajuda dos bancos?

Muito, mas muito mesmo: cerca de 4.000 biliões de Euros no total, ao considerar os bancos europeus e americanos.

Um oceano de dinheiro público (isso é, dinheiro dos contribuintes, de todos nós) que não evitou nacionalizações, falências dum lado, mega-salários e bónus do outro.

E tudo isso enquanto a bolha especulativa continua como se nada tivesse acontecido.

Após da França, Alemanha e Grã-Bretanha terem proposto uma taxa com base nos lucros dos bancos, a ser aplicada com características diferentes, dependendo das condições económicas e fiscais de cada País, e com a União Europeia que ainda explora a possibilidade dum imposto global para as operações financeiras, pode ser útil fazer o ponto da situação sobre as intervenções públicas nos bancos e nas instituições financeiras ao longo dos últimos dois anos, na Europa e nos Estados Unidos, com base no último relatório semestral preparado pela RS-Mediobanca.

Ao que parece a ajuda total, em termos de injecções de capital e de prestação de garantias, atingiu 1.518,7 bilhões (de Euros) para a Europa e 2.593,2 bilhões (de Dólares) nos EUA.

Em detalhe, é interessante notar como no Velho Continente os mais atingidos pela crise financeira foram a Alemanha e a Grã-Bretanha, com uma média de 362,5 e 792,5 bilhões de Euros de ajuda pagos, com a segunda também protagonista da nacionalização de dois bancos, Northern Rock e The Bradford & Bingley. Considerando também as operações no capital social feitas pelo Governo britânico em favor do Royal Bank of Scotland e Lloyds TSB Group (totalizando cerca de 700 bilhões de Euros), falar de um livre mercado na casa de Adam Smith e David Ricardo, fundadores da economia política, parece agora muito surreal.

Nos Estados Unidos o apoio governamental, pelo contrário, concentrou-se em cinco grandes grupos financeiros, os gigantes do crédito imobiliário Fannie Mae e Freddie Mac, Aig, Bank of America e Citigroup.

Para as duas primeiras, colocadas em administração controlada a partir de Setembro de 2008, foram concedidas ajudas directas que ascenderam aos 200 bilhões e garantias de 1.450 bilhões de Dólares. Aig, agora chamada Aiu, conta com quase 70 bilhões em ajuda, enquanto o Bank of America e Citigroup são os únicos casos significativos de dinheiro (47 bilhões) e garantias (419) que foram devolvidos quase completamente ao governo, respectivamente em Setembro e Dezembro de 2009.

Mais do que pelos desembolsos totais, o que diferencia a situação na Europa e nos EUA é o número de instituições financeiras e de crédito envolvidas nos planos de resgate, onde na primeira atingem o total de 115, enquanto nos EUA são bem 1.095, dado que testemunha uma crise profunda e generalizada no sector.

Enquanto isso, a Federal Reserve realizou um estudo sobre o comportamento de 28 dos maiores bancos americanos, concluindo que incentivos e bónus concedidos aos executivos permanecem aos níveis exorbitantes de antes e que os gestores das operações especulativas de alto risco continuam a operar normalmente. Pena que essa relação provavelmente não seja tornada pública antes do próximo ano, enquanto no final de 2009 a bolha dos produtos financeiros derivativos, depois de uma redução nas fases iniciais da crise, chegou a 213 triliões (615 triliões em todo o mundo, com um aumento anual de 12%). O medo da insolvências está a minar a confiança entre os próprios bancos que hesitam até perante a concessão de crédito entre eles: a prova é o aumento constante e progressivo da taxa LIBOR, a taxa de referência para os créditos de curto prazo entre os bancos.
Tudo isso, óbvio, com os bancos. Pois aos cidadãos são pedidos austeridade e sacrifícios.
Parece justo.

Ipse dixit.


Fontes: CPEurasia

28 junho 2010

A guerra está perto

O aviso foi lançado no dia 21 de Junho: navios dos EUA rumo ao Golfo Pérsico.

Poucos dias depois (23 de Junho) é a vez de Kafe Kultura que relança:
As Guardas da Revolução iranianas e outras unidades estão a ser concentradas na região do Mar Cáspio contra o que o Irão alega ser uma concentração de forças israelitas e americanas nas bases aéreas do Azerbaijão, prontas para atacar as instalações nucleares iranianas.
Temos que esperar uma guerra? A resposta é sim.

Israel não aceita outras potências nucleares no Médio Oriente e está disposta a arriscar um ataque contra o Irão na tentativa de parar o programa nuclear de Teheran.
No artigo de 22 de Junho escrevemos que uma invasão estava fora de questão:
Uma guerra-relâmpago? Esta é uma opção mais credível, mas muito arriscada.
De facto uma invasão não seria viável nesta altura. Mas, embora os riscos permaneçam intactos, parece que Tel Aviv opta por um ataque relâmpago, com objectivos as instalações nucleares do Irão.

Para nós uma coisa está certa: o Médio Oriente nunca voltará a ser o mesmo.

Vamos com ordem.
Watch International propõe uma análise de Ruben Weizman:
[...]Sempre em relação aos preparativos para a guerra, um site islâmico informou que, segundo várias testemunhas, nos últimos dias aviões de transporte C130 descarregaram material e tropas israelitas na cidade saudita de Tabuk, uma confirmação dos acordos secretos entre a Arábia Saudita e Israel para um ataque às centrais nucleares do Irão.
Os planos Israelitas começam a ser claros. Se fossem confirmados os aviões de Israel no Azerbaijão, isso teria resolvido o problema da distância dos alvos, enquanto que o apoio dado pela Arábia Saudita (e, de forma indirecta, pelo Egipto) confirma que os Países árabes são a favor de um ataque militar. Os navios de guerra no Golfo Pérsico poderiam lançar salvas de foguetes contra instalações nucleares iranianas mais longínquas. Dentro de minutos tudo estaria terminado e o programa nuclear iraniano completamente apagado.
Se assim for, seria muito provável uma reacção das tropas iranianas e as aeronaves presentes na Arábia Saudita e no Azerbaijão estariam acima dos objectivos em questão de minutos. Para completar a estratégia de Israel existe a notícia divulgada ontem pelo comando do IDF duma "importante" deslocação de tropas ao longo da fronteira de Israel com o Líbano, outra frente quente especialmente na expectativa de uma resposta do Irão.[...]
O que parece claro é que a operação "atacar o Irão" agora começou e não será fácil para ninguém impedi-la.
Não acaso ontem o chefe da CIA, Leon Panetta, disse que o Irão estaria na posse de urânio suficiente para construir duas bombas atómicas e definiu esta como uma notícia "chocante".
Chocante só se for para ele, pois é sabido há vários meses nos círculos perto da CIA e do Mossad que o Irão tem suficiente urânio enriquecido, com uma percentagem muito elevada, que pode ser usado para construir bombas atómicas.

O significado dessa declaração é bem outro: a CIA pela primeira vez em muitos meses faz abertamente essa revelação, o que só pode significar uma coisa: a política terminou o trabalho, e agora a palavra passa a outras instituições. Quais? Fácil imaginar.

E não seria uma ideia nova. O seguinte artigo é de Março de 2009:
É certo que, se um ataque for actuado fará com que, por parte do Irão, haja uma resposta descrita como "terrível" pelas autoridades religiosas iranianas, uma resposta que poderia levar a uma reacção enérgica de outras potências nucleares que poderiam, por sua vez, entrar em cena.
Segundo Loyd Rudmin "os Estados Unidos têm cerca de 10.000 alvos no Irão. As principais instalações nucleares, incluindo a central nuclear de Bushehr, na costa do Golfo Pérsico, perto do Kuwait, e a central de enriquecimento de urânio em Natanz, em Isfahan. Bushehr é uma cidade industrial que tem quase 1 milhão de habitantes. Nada menos que 70 mil engenheiros estrangeiros que trabalham neste concelho, que inclui um grande depósito de hidrocarbonetos. Natanz é o principal local de enriquecimento de urânio para o Irão, ao norte de Isfahan, que também possui instalações de pesquisa nuclear. Isfahan é uma cidade património mundial, com uma população de 2.000.000 habitantes.
Sabemos, de facto, que o Irão não é um alvo novo para os Estados Unidos.
De acordo com a opinião de Peter Symonds, analisando os resultados dum estudo publicado por cientistas britânicos, os EUA preparam um terrível ataque contra o Irão.
Num artigo publicado em Agosto de 2008, esses pesquisadores "fazem uma estimativa que gela o sangue pela violência destrutiva que os Estados Unidos usariam em ocasião dum ataque ao Irão". Concluem que "os EUA fazem preparativos para destruir as armas de destruição maciça, o Irão, o seu poder nuclear, o seu regime, o seu exército, o seu aparelho de Estado e as suas infraestruturas económicas, em poucos dias ou algumas horas".
Os EUA põem agora à disposição de Israel os próprios conhecimentos e planos? Sem dúvida.

Oficialmente a opção diplomática ainda não chegou ao fim.
Ainda segundo o Chefe da CIA, Israel está disposto a dar tempo aos EUA para explorar a diplomacia:
Eles sabem que as sanções terão um impacto, eles sabem que se nós continuarmos a pressionar o Irão teremos um impacto e nós queremos que haja tempo para mudar o Irão diplomaticamente, cultural e politicamente, em vez duma mudança militar.
Mas a verdade é que as margens de manobra são extremamente reduzidas.

Não esquecemos um pormenor: quem quer esta guerra agora é basicamente Israel. Enquanto declarar uma guerra teria consequências importantes no eleitorado norte-americano, o governo de Tel Aviv não tem que responder a ninguém pois a oposição interna é muito fraca. Os dirigentes de Israel querem eliminar de uma vez por todas o risco iraniano. E se Israel quer, Israel obtém.

Quando e a que preço são as únicas incógnitas.


Fonte: Kafe Kultura, Watch International, Voci dalla Strada, Il Corriere della Sera

A colocação geopolítica do Irão - Parte I

A seguir a transcrição da intervenção de Daniele Scalea, editor de "Eurasia" e autor de O Desafio Total (Ed. Fuoco, Roma 2010), na conferência "O Irão e a estabilidade do Oriente Médio", realizado em Trieste (Italia) na Quinta-feira 3 de Junho de 2010 e organizada pela Associação Cultural "Estradas da Europa" e "Eurasia - Revista de estudos geopolíticos".

É um longo discurso que decidimos dividir em 3 partes:
  • a primeira trata da colocação geopolítica do Irão
  • a segunda dos recursos energéticos da região
  • a terceira é uma análise das últimas eleições no Irão.
Vale a pena ler para perceber as razões profundas dos recentes acontecimentos no Médio Oriente e os possíveis desenvolvimentos próximos.
As imagens são as mesmas que foram projectada na sala e acompanharam a intervenção original, obviamente traduzidas por Informação Incorrecta.

A colocação geopolítica do Irão

Esta intervenção é composta de duas partes distintas. A primeira, e principal, é uma visão geral do Irão no ambiente geopolítico global e da Eurásia em particular. O segundo irá abordar o problema das últimas e contestadas eleições presidenciais na República Islâmica.

Começamos com a primeira parte e, portanto, com a posição geopolítica do Irão.

 O mundo segundo a geopolítica clássica

Este mapa, retirado dum volume do geógrafo britânico Halford John Mackinder, mostra como os clássicos geopolíticos, especialmente anglo-saxão, costumassem vir o mundo. A geopolítica clássica focaliza a própria atenção no continente euro-asiático: de facto, na Eurásia, se encontram a maioria das terras, da população e dos recursos; e sempre na Eurásia surgiram as grandes civilizações da história.

O mundo está dividido em três faixas, cada uma das quais irradia concêntrica  a partir do centro da Euroásia. Aqui é a área "pivot" ou "terra-coração" (Heartland), cuja característica é ser impermeável ao poder do mar. Não tem litoral (excepto para o Árctico, que todavia não pode garantir as ligações com o resto do mundo), nem há ligação fluvial com o mar, pois os principais rios acabam no Árctico ou em mares fechados. No Heartland, portanto, o poder continental não é combatido por via marítima.

Heartland é envolta por uma segunda faixa, a "crescente interior" (Inner Crescent), que percorre toda a margem continental Eurasiática, desde a Europa Ocidental até a China através do Médio Oriente e o Sul da Ásia: por esta razão é chamada também "terra-margem" (Rimland). Aqui os poderes continental e marítimo tendem a compensar-se mutuamente.

Por fim, fora da Eurásia, está a terceira e última faixa, a "crescente externa" (Outer Crescent), que compreende as Américas, África, Oceania e também a Grã-Bretanha e Japão. Esta é a sede natural da potência marítima, onde a continental não pode ameaça-la.

Segundo Mackinder, que escreveu no início do século XX, o advento da ferrovia teria compensado a maior mobilidade do transporte marítimo, equilibrando a situação do poder em favor da potência terrestre (continental). John Spykman, meio século depois, diminuiu o peso das ferrovias, argumentando que a potência marítima manteve a sua vantagem: Heartland é difícil para a talassocracia (a hegemonia sobre os mares), mas não pode ameaçar esta última se ocupar primeiro a terra-margem (a segunda faixa). Tarefa da talassocracia, que, naqueles anos, assim como hoje, eram os EUA, é de excluir Rimland do poder continental (então a URSS).
 Guerra Fria: a estratégia da contenção

A estratégia de contenção durante a Guerra Fria corresponde à visão do mundo da geopolítica clássica. Contra um adversário que ocupava a Heartland (a referência é obviamente para a URSS), os talassocráticos EUA têm operado um dispositivo para manter sob controle Rimland, impedindo a Moscovo de chegar à costa e projectar-se no mar. Deste dispositivo fazem parte a Nato na Europa Ocidental, a Cento no Médio Oriente, a Seato no Sudeste Asiático e a aliança com a Coreia do Sul e o Japão (e mais tarde com a China) no Extremo Oriente.
 
CENTO (Pacto de Bagdade)

Da Cento, ou Pacto de Bagdad, fazia parte também o Irão, assim como Turquia, Iraque, Paquistão e Grã-Bretanha (como ex dono colonial). Com o mapa é fácil identificar CENTO como um elo da cadeia de confinamento que corre ao longo do Rimland.
 O Médio Oriente durante a Guerra Fria: décadas '50 e '60

Este mapa mostra, simplificando um pouco, a situação: as partes em jogo nas primeiras décadas do conflito bipolar no Médio Oriente. Se Egipto, Síria e Iraque aproximaram-se à URSS, na região os EUA baseavam-se na tríade das potências não-árabes: Israel, Irão e Turquia.
O Médio Oriente durante a Guerra Fria: situação post 1979

A Revolução Islâmica de 1979 encerra a aliança entre o Irão e os EUA, sem deslocar Teheran para o campo soviético. Isso reforça o peso dos dois pinos sobreviventes, Turquia e Israel, e também o crescente apoio que Washington fornece a ambos os Países, especialmente a Tel Aviv. Por seu lado, todos os Países árabes, excepto a Síria, o Iraque e o Yeêmen do Sul, após a mudança egípcia tomam mais ou menos uma posição morna a favor dos Estados Unidos da América. Esperam que uma aproximação com Washington possa quebrar o "relacionamento especial" entre a Casa Branca e Tel Aviv, e, portanto, receber uma mediação mais justa em relação ao estado judeu. Esperança que ficar não atendida.
 O tabuleiro eurasiático segundo Z. Brzenzinski

Esta imagem, tirada do The Grand Chessoboard de Zbigniew Brzezinski, mostra a visão do continente eurasiático pelos herdeiros do clássica geopolítica norte-americana. A Federação da Rússia continua a manter uma posição central, embora menor do que o regime soviético, enquanto a terra-margem (Rimland)  é dividida em três áreas. Para cada uma Brzezinski recomenda uma política regional de Washington.

O Ocidente, na Europa, é o que Brzezinski chama de "uma ponte para a democracia", que a o pied-à-terre da talassocracia dos EUA na Eurásia. A integração europeia constitui um desafio para os EUA: se tivesse que falir e devolver uma Europa fragmentada e briguenta, ou se pelo contrário, tivesse um grande sucesso através da criação de um Espaço Europeu monolítico e estrategicamente independente, em ambos os casos a presença americana na região seria colocada em discussão. A solução proposta por Brzezinski é de chefiar a integração europeia e direcciona-lo para que não prejudique os interesses dos EUA; exactamente o que aconteceu com a expansão da Nato para preceder e dirigir a da UE, que demandou a própria segurança e orientação estratégica para as chefias americanas.

No Oriente os EUA têm bases avançadas no Japão e na Coreia, que devem manter a qualquer custo. Mas Brzezinski, levando em conta um dos movimentos que decidiu a Guerra Fria, também aconselha a cultivar as relações com a China, que poderia tornar-se um segundo ponte americano na Eurásia.

Finalmente há o Sul, correspondente ao Médio Oriente, desde o Mediterrâneo até a Índia.
 O Médio Oriente segundo Z. Brzenzinski

Nesta área, Brzezinski considera que os aliados naturais, embora muitas vezes não intencionais, da geo-estratégia dos EUA são o Irão e a Turquia. Podem contrabalançar a influência russa e frustrar a tentativa de reconquistar as regiões na sua área de influência. Esses interesses "competitivo" entre Turquia, Irão e Rússia, identificados por Brzezinski, mais reflectem a situação da década de 90 do que da última década na qual os três Países têm-se centrado na solução "cooperativa" e não "competitivo".
Acaba aqui a primeira parte.
A segunda parte está disponível nesse link, enquanto a terceira aqui.

Fonte: Eurasia
Tradução: Informação Incorrecta

Os Prémios Nobel é que sabem

E depois dizem o caso...

Barack Obama falou no G8 e no G20: os Estados Unidos não concordam com a política de austeridade adoptada no Velho Continente.

Aliás, segundo o presidente americano o fantasmagórico deficit orçamental dos EUA não pode ser considerado um problema agora, pois a prioridade é estimular a economia.

O dono atirou o osso e os perdigueiros já estão lançados. Alguém tem que fazer o trabalho sujo.
Dois Prémios Nobel, ambos americanos, atacam as escolhas europeias.

Stiglitz: nova recessão em Grã Bretanha

A lei financeira de emergência aprovada pelo governo britânico do primeiro-ministro conservador David Cameron está "completamente errada": a dizer isso, conforme relatado pelo semanal The Independent on Sunday, é o Prémio Nobel da Economia Joseph Stiglitz.
Segundo Stiglitz, a medida assinada por George Osborne, Ministro das Finanças inglês, vai tornar a recuperação mais lenta e difícil, enquanto o aumento do IVA pode até causar uma nova recessão; a receita correcta seria estimular o crescimento económico, uma política também apoiada pela administração de Barack Obama, contrariamente à Europa que prefere a consolidar os orçamentos:
Não temos de cortar a despesa, mas re-canaliza-la. Basta cortar a guerra no Afeganistão e um par de centenas de bilhões de gastos militares desnecessárias como os subsídios para a indústria do petróleo. Existe uma longa lista de itens a ser cortado, mas deve ser aumentada a despesa em outras áreas como a investigação e o desenvolvimento, as infraestruturas e a educação.
Stiglitz sugere aos governos de criar os seus próprios bancos para estimular o crédito às empresas e salvar as famílias ameaçadas por hipotecas.


Krugman: efeito dominó na Grécia, Italia, Portugal, Espanha

O prémio Nobel da Economia Paul Krugman rejeita de maneira firme  o plano de saneamento de por 80 bilhões de Euros aprovado na Alemanha porque agora, afirma, "não é tempo de preocupar-se com o deficit orçamentário, mas com o crescimento." O economista, entrevistado pelo jornal alemão Handelsblatt, argumenta que um País pode muito bem apontar para um orçamento equilibrado dentro de 5-10 anos:
A questão é saber se devemos começar quando a economia está 7-8% abaixo das suas capacidades e os juros estão a zero....
De acordo com Krugman, nesta situação as preocupações acerca do deficit devem ficar em segundo lugar.
O pacote de austeridade alemão é realmente uma má ideia porque a política de consolidação na Alemanha não afecta só a economia domésticos, mas também retarda o crescimento de outros Países.
A outra rejeição de Krugman é para a nomeação de Axel Weber, actual governador do Banco Central Alemão, como presidente do BCE.
Se o BCE tivesse que acabar com um presidente tão conservador o risco de um efeito dominó a partir da Grécia para a Itália atravesso Espanha e Portugal seria muito maior.
Em especial, o Prémio Nobel critica o banqueiro central, que de acordo com as indiscrições da imprensa é apoiado por Angela Merkel, por ser demasiado focado nos riscos da inflação e não o suficiente sobre um possível período prolongado de estagnação.

Wof.

Ipse dixit.

Fontes: Rassegna, Mobile

O neurónio perdido: turbosalmão e Iphone 4

Uma rápida olhada nos jornais e duas notícias vindas do nova secção intitulada "O neurónio perdido."

O turbosalmão
Um turbosalmão no prato é uma cura para alimentar os pobres do planeta? A chegada nos pratos norte-americanos do salmão geneticamente modificado, que pode crescer ao dobro da velocidade dos outros, divide outra vez os EUA, provocando um debate acalorado.
A Food and Drug Administration já deu luz verde a 5 dos 7 dossier apresentado pela AquaBounty Technologies, que nos últimos dez anos tentou introduzir no mercado o seu salmão transgénico: uma espécie do Atlântico que tem dentro de si um gene do salmão Chinook, e um dos Zoarces americanus, um parente distante do salmão. Se o FDA der a sua aprovação, a chegada nas mesas é questão de dois ou três anos.
 O que fez a AquaBounty Technologies? Fez isso:

Salmão Chinook
+

Zoarces americanus
  =
 
 Turbosalmão (em cima) 
confrontado com um Salmão normal (em baixo)

A modificação do DNA dos peixes provoca a produção da hormona do crescimento mesmo no Inverno para atingir assim o peso adequado para a venda em 18 meses, em vez de três anos.

Diz a AquaBounty Technologies:  
O nosso objectivo não é fazer um salmão enorme, mas o tamanho do salmão normal em menos tempo. Podemos dar uma contribuição significativa para atender à demanda global dos alimentos, usar menos recursos.
Para resolver a fome no mundo nada melhor dum turbosalmão.

Contraindicações? Nenhuma.

Sim, é verdade que não são conhecidos os efeitos de longo prazo para um ser humano que entre em contacto com este "coiso" modificado geneticamente (palavras de Margaret Mellon, porta-voz da Union of Concerned Scientists, não uma fanática vegetariana qualquer).
Verdade também que no ambiente natural o turbosalmão come mais do que um salmão natural, o qual fica com pouca comida disponível.
E não podemos esquecer que o turbosalmão, quando a comida é mesmo escassa, torna-se até canibal.

Mas enfim, ninguém é perfeito, nem o turbosalmão.


Iphone4 e canhotos

Na passada Sexta-feira dedicamos um post ao novo Iphone4, destacando o facto que nenhum ser humano digno desta definição possa hoje viver sem o novo aparelho da Apple.

Entretanto chegaram as primeiras recomendações da empresa americana.

O Iphone4 é um telemóvel especial e especial tem que ser a maneira como pegamos nele.
Por exemplo: costumam pegar o aparelho pelo canto esquerdo? Nem pensar! O Iphone4 não gosta disso e fica sem rede.
Eis um esquema de como agarrar e como não agarrar o vosso novo Iphone4:


E se o dono for canhoto? Simples: terá que mudar radicalmente de hábitos e aprender a utilizar a mão direita.
Depois de ter gasto mais de 600 Euros num telemóvel será uma justa punição.

Ipse dixit.

Fonte: New York Times, Corriere della Sera

27 junho 2010

G8 & G20: os problemas ficam.

Como vimos o G8 acabou enquanto o G20 acabará amanhã.

Enquanto da primeira reunião ninguém sentia falta, sobretudo se considerarmos os resultados, a segunda é mais indicativa e, sobretudo, não é composta unicamente por velhas glórias do passado; pelo contrário, boa parte dos participantes representam o futuro, senão próximo pelo menos a médio e longo prazo.

Já agora quem faz caminhar a economia mundial não são os Países ocidentais mas os pesos pesados da Ásia e o Brasil. As previsões apontam para um crescimento global de 4%; mas só a China apresenta um 10% que diz muito sobre a influência nesta média mundial dos Países "emergentes" face aos cadáveres do Ocidente.

Estes têm outros problemas, entre os quais não podemos esquecer os 30 milhões de desempregados que, segundo o Fundo Monetário Internacional, estão em risco.

30 milhões talvez sejam uma previsão muito pessimista. Mas se continuamos a somar desemprego com desemprego é difícil imaginar quem pode fazer partir a sempre esperada retoma do Ocidente: drogar o mercado, como acontecido nas últimas semanas é um recurso com evidentes limites fisiológicos e temporais.

Vamos ler quais os pontos de maior divergência entre as três áreas macroeconómicas do globo na análise do economista Oscar Giannino que, em colaboração com o Instituto Bruno Leoni, segue de perto os desenvolvimentos económicos mundiais.

EUA e Europa não têm interesse igual na apreciação do Yuan chinês. Para os EUA, que ainda têm um deficit comercial pesado na ordem de 250 bilhões de Dólares por mês, é vital a depreciação do Dólar para ganhar a competitividade dos produtos americanos e reduzir o valor real da enorme massa de dívida das famílias e dos bancos americanos. A Europa em 2009 quase eliminou o deficit comercial com a China. Para nós Europeus, que o Dólar caia livremente significa que simetricamente o preço do barril de petróleo soube.
E mais, acrescentamos: um Euro mais forte do Dólar significa também mercadorias do Velho Continente menos competitivas nos mercados internacionais e queda nas exportações.

Obama chegou ao G20 com o acordo conseguido a Administração, a Câmara e o Senado dos Estados Unidos sobre a reforma do sistema bancário e financeiro.
No entanto este acordo foi pensado, gerido e conseguido sem uma concertação com os outros Países ocidentais. E o objectivo é claro: proteger os interesses dos bancos americanos. Os quais, por exemplo, podem continuar com 3% de fundos especulativos. Uma cooperação para individuar instrumentos de combate à especulação? Já foi.

Ainda mais complexa a situação relativa a uma taxação dos bancos, pois acerca deste assunto nem no interior da União Europeia existe concordância.

Alemanha e França querem um imposto sobre os bancos principalmente para ganhar popularidade perante o respectivo eleitorado, tendo em conta o muito dinheiro público gasto em salvamentos bancários sem que haja uma perspectiva de ganho por parte do Estado. A Itália é pelo contrário ao lado do bloco dos Países emergentes: quem não teve que salvar bancos com dinheiro público é muito mais interessado em reforçar o capital das instituições de crédito, e não tributa-las com o risco de colocar custos adicionais nas contas das famílias e das empresas.
Pois aqui o problema o seguinte: os bancos acabariam por pagar a nova taxa ou descarregariam o custo nas contas dos privados?
Já falámos disso.

Última questão: o rigor.
Obama está irritado com as escolhas europeias. O que é esta coisa do rigor nas contas? Austerity? Mais taxas? Tudo isso é muito pouco EUA. E, sobretudo, não está nos planos da Administração.
Já ligou várias vezes para a chanceler alemã Merkel, mas esta não muda de ideia (o que é normal, não acaso é teutónica): o rigor é para ir em frente.

Para alguns, os EUA empurram o deficit porque têm estudado melhor Keynes dos Europeus. É uma mentira. Podem fazê-lo só porque o Dólar continua a ser o calcanhar monetário do mundo. No nosso caso, o rigor é exigido duas vezes. Porque a saída dos capitais e a desconfiança dos mercados afligem mais a Europa do que a América. E porque temos um Estado que, mesmo antes da crise, pesava sobre a economia muito mais do que nos Estados Unidos.
Sim, o rigor é preciso. Mas...tá bom, este seria um discurso diferente e muito complexo.
Por enquanto paramos aqui.

Ipse dixit.


Fonte: Chicago Blog

A retoma negativa

Há poucos dias publicámos os gráficos do índice WLI (Weekly Leading Index).
O que é o WLI? Está explicado neste post.

Na altura o índice encontrava-se a quota -5,8% e agora? Agora está mais em baixo: o índice piorou!
Eis o gráfico:


O nível atingido na semana de 12- 19 de Junho é -6,9%.
Bom, podem pensar os leitores, não é novidade que a economia dos Estados Unidos não ande tão bem. Verdade.
Mas há um "mas".

Segundo o analista David Rosenberg, existe um  limite, o de -10%, atingido o qual a recessão está garantida. A queda abrandou ligeiramente, mesmo assim com este ritmo a recessão não fica muito longe: duas-três semanas no máximo.
Eis uma síntese:
21 de Maio: +10%
28 de Maio: +0,3%
04 de Junho: -3,7%
11 de Junho: -5,7%
19 de Junho: -6,9%

Existe também um gráfico do índice WLI com duas características: é de longo prazo e é ainda mais assustador.


Sim, viram bem: voltámos aos níveis de Setembro de 2008. Ou, ao olhar para o passado, ao nível de 2001, com a bolha dot.com, de Outubro de 1987 (Black Monday),  de Janeiro de 1973 (Crise do petróleo): é só escolher.

Vamos continuar a seguir o WLI nas próximas semanas.
Nós continuamos com a nossa ideia: como retoma é um pouco esquisita. Deve ser o primeiro caso de retoma negativa.

Ipse dixit.


Fonte: Il Grande Bluff

G8 Canada: um triunfo

Acabou o G8 em Canada. Aproveitamos para fazer um resumo do que aconteceu.

Começamos pelo fim, isso é, a declaração que fechou os trabalhos.
No comunicado é possível ler que a economia global permanece frágil e vulnerável.

Não era preciso ir até Toronto para fazer uma afirmação como esta, mas vamos em frente.

O G8 vislumbra graves ameaças para a paz, em particular por causa do programa nuclear do Irão e os ataques navais da Coreia do Norte. O perigo é a "proliferação das armas de destruição maciça" é possível ler no comunicado.
Ataques navais, armas de destruição maciça, Irão, Coreia...não esqueceram ninguém? Temos a impressão de alguém ter ficado de fora mas quem?
Ah, pois: Israel.

Mas Tel Aviv não passou inobservada: o G8 falou forte e claro.
O G8 pede que seja modificado o regime de embargo em Gaza e a imediata libertação do cabo israelita Gilad Shalit.
Reparem nos tons: "Condenação muito veemente" para a Coreia; efectuar uma "libertação imediata" para os chefes da Palestina; um pedido para que as condições do lager de Gaza sejam melhoradas para Israel.
Também no G8 a lei é igual para todos: o problema é que alguns são mais iguais do que outros.
Em frente.

O G8 espera que o governo de Kabul esteja pronto para demonstrar segurança e poder no vértice de Julho, de forma que os Estados Unidos possam começar o retiro das tropas em 2011.
Após o Iraque, agora é o Afeganistão, finalmente livre de problemas graças à implementação da democracia. Missão acabada com glória...de quem? Esta é a dúvida.
E Bin Laden? Não, agora o inimigo nº 1 está no Irão, palavra de Israel.
E os outros terroristas? Também, todos no Irão. Provavelmente alugaram um autocarro.

Acabou.
Só isso? Sim, nada mais.

Alguém, inocentemente, pode avançar com algumas perguntas: dois dias só para exprimir estas três banalidades? 
Ehhhhh, sim, mas enfim, não foi fácil, foi preciso analisar, discutir, escolher, decidir, voltar a analisar...são coisas complicadas, sem dúvida.

E quanto custou a brincadeira? 770 milhões de Euros?!?!?
Ehhhhh, sim, mas sabem como é, há os convidados, os observadores, os jornalistas, os amigos, os curiosos, é muita gente que trabalha e trabalha e trabalha...

Mas com a tecnologia hoje à disposição não seria possível organizar estas cimeiras duma forma mais prática e também económica? Há as vídeo-conferências, por exemplo, muito utilizadas entre os privados. Seria possível organizar não uma mas duas ou três cimeiras por semana com o custo dum telefonema ou pouco mais.
Ehhhh , sim, também isso é verdade, mas uma coisa é olhar uma pessoa olhos nos olhos, outra coisa é uma vídeo-conferência, as banalidades assim ficam mais "oficiais", com um vídeo tudo fica assim frio...

Mas como é poss...
Eh não, agora basta! Este foi o G8, a cimeira das economias mais desastradas do planeta, não uma brincadeira qualquer. Houve pessoas que trabalharam para redigir um comunicado assim inútil e banal, não foram até Toronto de férias ou só para gastar tempo e dinheiro, foram em Toronto para fazer coisas que poderiam ter feito ficando nos próprios Países, ora essa.

Um pouco de respeito.

26 junho 2010

Vídeo: Análise dos mercados

Uma boa análise dos mercados a de Teresa Lourenço da Orey Financial: dívidas soberanas e Telefonica em destaque:



A PT está com problemas, sobretudo agora que o negócio da Vivo está a concretizar-se.
Teresa Lourenço partilha as preocupações de Informação Incorrecta (ver post aqui): perder uma posição de predomino no mercado brasileiro pode prejudicar o futuro da PT.
Mas para saber coo irá acabar esta novela temos que esperar a votação da Assembleia Geral.

O vingador solitário

Depois de ouvir ao longo de anos que Bin Laden é o Demónio, a causa de todos os males, é lógico que algumas mentes débeis entrem num estado em que os neurónios começam a comunicar entre eles duma forma anómala.
Dito de outra maneira: o sistema entra em crash.

O mesmo aconteceu com Gary Brooks Faulkner: ex carpinteiro de cinquenta anos, agora vingador solitário.

Após ter poupado alguns dinheiros, Gary decide que alguém tem que fechar o dossier Bin Laden.
Quem? O mesmo Gary, obviamente.

Junta uma faca, uma espada (?), uma pistola, uma Bíblia (não podia ter faltado), óculos para a visão nocturna e parte. Destino: Afeganistão.

Gary é esperto: já visitou várias vezes o País asiático, deixou crescer uma barba comprida e utiliza roupa tradicional para confundir-se com os locais. Com um disfarce assim qualquer carpinteiro americano pode passar despercebido nas ruas de Kabul. E se juntarmos os óculos nocturnos a mimetização é total.

E desta vez é a vez: a sexta viagem será a decisiva.
Já tem um objectivo: uma gruta do Nuristan onde, segundo ele, é fácil poder esconder-se. A gruta de Bin Laden, sem dúvida. Pois todos sabemos que o Mal costuma passar a vida longe da Luz.

O irmão de Gary, outro individuo com um QI fora do normal, acompanha o vingador até ao aeroporto de Denver  pois Gary tem um problemazito com os rins. Como Bin Laden! Um sinal do destino?

Sábado, finalmente, Gary pisa a terra onde mora o seu inimigo mortal. Deixa Kabul e encontra um quarto no Ishpata Inn, no vale da cidade de Chitral. Uma terrinha simpática, tórrida no Verão mas gélida no Inverno.

Não sabemos o que pode ter acontecido a seguir. Talvez Gary acabasse por não gostar do clima ou talvez fosse o pequeno almoço do hotel: mas a polícia encontrou o carpinteiro vingador na aldeia de Sheikhanandeh, sozinho e assustado.

Gary nem pensava em entregar-se. Convencido, provavelmente, de ter caído numa cilada dos servos do Mal, ameaçou matar tudo e todo antes de deixar cair as armas, a Bíblia e os óculos. Mas não antes de ter declarado: "Deus está comigo e espero conseguir matar Osama". 

A família de Gary, todos génios evidentemente, afirmam agora: "Se tivesse conseguido acabar a sua missão agora seria considerado um herói".

Ipse dixit.

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