23 abril 2018

Ar novo?

Genova
Algumas breves impressões sobre a Itália, dado que me encontro nestas bandas.

O governo não está lá há mais de um mês e a impressão é que as coisas estejam a melhorar. Dado que o mesmo aconteceu na Espanha no ano passado (e ao longo de vários meses), talvez seja bom começar a fazer algumas perguntas sobre o real papel desempenhado pela classe política nas economias nacionais. Não que os governos sejam inúteis, nada disso, mas também é verdade que às vezes a ausência deles é benéfica. E isso é bem capaz de significar algo...

Quanto ao resto: Genova, a minha cidade, parece estar um pouco melhor. Muito turistas estrangeiros, não me lembro de ter visto tantos e todos juntos. Bom sinal: significa que mesmo no resto da Europa há dinheiro para ser gasto em viagens.
Durante a semana, uma breve visita a Brescia, não longe de Milão: Ferrari, Porsche e Ducati nas estradas. Pequenos sinais, sem dúvida, mas algo parece estar melhor.

Por outro lado, é verdade que as perspectivas políticas parecem boas. O próximo governo deverá ver subir ao poder o Movimento Cinco Estrelas, o partido mais votado nas últimas eleições políticas, provavelmente com a ajuda da Lega antieuropeia. Com Berlusconi fora dos jogos e o Partido Democrático (teoricamente de Esquerda, na realidade uma emanação das políticas de austeridade da União Europeia) que tem de digerir a pior derrota de todos os tempos, parece que algo realmente possa mudar.

Sobretudo a eleição dos 5 Estrelas tem um sabor importante: movimento anti-sistema, atacado continuamente pelos órgãos de comunicação oficiais, reúne hoje um eleitorado que é difícil descrever.  de certeza já não é possível tratá-lo como um simples "partido do descontentamento" ou "de protesto": nas últimas eleições o programa foi muito claro e bem estruturado, há um projeto, há uma organização bem estabelecida.  O mesmo pode ser dito em relação à Liga.

Portanto, duas forças anti-Europa, anti-Euro, uma a favor da introdução do "rendimento de cidadania" (5 Estrelas), outra favorável a um rigoroso controle das fronteiras para limitar os imigrantes ilegais.
É óbvio que esses pontos programáticos estão muito distantes dos ideais de Bruxelas, em alguns casos até contrários. Isto é algo que a União deve levar em consideração: já não é possível esconder as forças desagregadoras sob o manto do simples "protesto". Tais forças são hoje fortes na Catalunha e constituem a maioria na Itália.

Há todavia outro discurso que deveria ser feito: se é sabido quem fica atrás da Lega, menos conhecido é quem está a mexer-se atrás dos 5 Stelle. E aqui a coisa pode ficar bem interessante: a minha curta viagem em Itália deveria servir para entender se certas vozes que circulam possam ou não ser verdadeiras. E' o que tentarei fazer, se for possível.


Ipse Italia!

20 abril 2018

Leonardo acha que... (woof nº 1)

- Tomamos o ataque de 11 de Setembro de 2001, - diz Leo enquanto a meseta espanhola corre pelas janelas do carro. - Tu sabes que a versão oficial apresenta falhas, a Comissão de inquérito foi obrigada a ignorar a demolição dum inteiro prédio, o nº 7, porque não havia (e ainda não há) maneira de enquadra-la na reconstrução oficial. Sabes disso, não sabes?
- Sim, sei...
- Seja como for, e independentemente de quem foram os verdadeiros responsáveis (partindo do princípio que não foram os terroristas, que nem sabiam pilotar), temos que admitir: foi uma operação bem planeada e bem executada. Horrível e desumana, mas bem executada. Sobretudo, foi uma operação que atingiu em cheio os objectivos: após o 9/11 o mundo não foi mais o mesmo. Isso porque havia um plano, havia um projecto abrangente que ia muito além do atentado em si: havia um grupo de indivíduos que tinham uma ideia (má ou boa, isso agora não interessa), que puseram as pessoas certas no lugar certo, com um timing que foi respeitado.

19 abril 2018

Blog em pausa durante uma semana

Como podem ver na fotografia ao lado, já estou no típico traje italiano, o mesmo com o qual cheguei em Portugal e aquele que costumo utilizar ao voltar para a terra natal.

Isso porque vou ausentar-me ao longo duma semana: os deveres italiotas chamam por mim.

Nestas ocasiões prometo sempre tentar escrever algo, depois nunca escrevo, pelo que melhor ficar calado.

Por isso, peço aos Leitores que não estranhem: o blog fica parado ao longo duma semana.

As minhas humildes saudações para todos os Leitores.


Ipse foi-se!
 

18 abril 2018

Ataque anti-semita no coração da Europa

O anti-semitismo avança e continua a fazer vítimas nesta Europa cada vez mais populista e fora de controle.

O último episódio, diligentemente relatado pelos órgãos de comunicação social, aconteceu na Alemanha, onde um grupo de assassinos atacou dois jovens hebraicos, que agora lutam entre a vida e a morte.

Pronta a intervenção do governo alemão: como explicou a porta-voz de Angela Merkel, Ulrike Demmer, a partir de 1 de Maio um delegado será responsável pelo anti-semitismo:
Queremos que se sintam seguros na Alemanha.
A ministra da Justiça, Katarina Barley, twittou:
É insuportável que judeus na Alemanha sejam atacados nas ruas de Berlim, é uma vergonha para o nosso País, o anti-semitismo nunca mais deve encontrar um lugar na Alemanha: devemos fazer todo o possível para proteger as vidas dos judeus na Alemanha.

17 abril 2018

O discurso de Emmanuel Macron

Fui procurar na gaveta o meu lado mais masoquista e com ele conseguiu ler (traduzido) boa parte do discurso que o Presidente francês Macron deu no palco central do Grand Cirque Européen de Strasbourg, também conhecido como "União Europeia".

Valeu a pena? Não.

Introduzido pelo Grão Mestre de Cerimonia, Jean-Claude "Garrafa" Juncker, o simpático Emmanuel dirige-se para o pequeno púlpito: a plateia está esgotada, as bandeirinhas todas em ordem, os jornalistas prontos para gravar cada sílaba. Afinal é o primeiro discurso do Petit Napoléon no palco do Grande Cirque.

Após o ataque: as consequências

Berzah depois do ataque
Há uma parte da imprensa internacional que fica insatisfeita com o ataque perpetrado contra a Síria.
"Mais, mais!" é a palavra de ordem.

Que, não por mero acaso, é quanto pede israel, porque a tentativa de Netanyahu de arrastar EUA e a Europa para uma guerra decisiva na Síria parece falida.

O ataque dos três agressores, EUA, França e Grã-Bretanha, parece ter-se resolvido num dano político, militar, psicológico e de imagem. E confusão. Muita confusão.

16 abril 2018

Síria: as contas do Pentágono

Nada melhor do que a matemática (que eu sempre odiei).
Quantos mísseis foram lançados? Mais duma centena? Muito bem.

Segundo o Pentágono, as defesas da Síria não conseguiram acertar numa única destas armas.

E mais: o General McKenzie foi muito claro em determinar quais alvos foram centrados, quantos e por quantos mísseis cada um. Lamento, há algo que não bate certo. Mas vamos seguir as declarações do simpático McKenzie.

1. Os mísseis lançados visavam "fábricas e armazéns de armas químicas". Com nenhuma preocupação sobre a possível libertação das substâncias químicas nas áreas vizinhas, que bem podem ser povoadas (como exemplo: uma das fábricas atingidas, Barzeh, fica na zona norte de Damasco). Pensamos nisso: gasificar inocentes numa retaliação contra Assad por este ter gaseificado inocentes? Realmente? A não ser que os EUA soubessem um coisa muito simples: não havia nada no interior dos alvos. Pois o importante era despachar-se: no prazo de poucos dias teria tido início uma nova visita dos inspetores das armas químicas.

"Nova visita"? Sim, pois os inspetores da OPCW (a Organização para a Proibição das Armas Químicas) já no passado dia 22 de Novembro tinham inspecionado o centro de Barzah e excluído a produção de armas químicas: resultados confirmados também em 23 e 28 de Fevereiro deste ano. Neste link é possível ler um dos relatórios frutos das inspeções, neste caso do 13 de Março de 2017.

15 abril 2018

EUA 110 - Síria 71 (resultado final?)

No início da manhã de 14 de Abril, os Estados Unidos, a França e o Reino Unido realizaram um maciço ataque de mísseis contra a Síria, justificando suas ações com o suposto envolvimento do governo de Assad no "ataque químico" de 7 de Abril em Douma.

O Ministério da Defesa da Rússia afirmou que 103 mísseis ar-terra foram lançados contra alvos diferentes em toda a Síria, acrescentando que 71 deles foram interceptados pelas Forças de Defesa Aérea da Síria (SADF). O chefe do departamento de operações, o General Sergei Rudskoi:
De acordo com as informações disponíveis, um total de 103 mísseis de cruzeiro foram lançados. [...] Os sistemas de defesa aérea da Síria, que incluem essencialmente armas soviéticas, podem repelir com sucesso os ataques de aviões e navios militares. Um total de 71 mísseis foram interceptados.
Rudskoi disse que a SADF usou os sistemas de defesa aérea S-125, S-200, Buk, Kvadrat e Osa para repelir o ataque.

14 abril 2018

O ataque na Síria em directo

Mísseis sobrevoam  Damasco
O bom blogueiro está a ir para a caminha para gozar do merecido descanso quando decide espreitar os canais televisivos via internet. E eis que de repente aparece o simpático Donald Trump numa conferência de imprensa. Pergunta o Presidente: "Que tipo de País ataca os inocentes?". E o bom blogueiro pensa: "Esquisito, uma conferência de imprensa para fazer autocrítica? Ou estará a ralhar contra os atiradores israelitas que disparam contra os manifestantes palestinianos desarmados?". Mas não: o assunto era o ataque de EUA, Reino Unido e França contra a Síria.

Assim, há pouco começou o ataque. É muito cedo, ainda nada é sabido. Testemunhos afirmam ter ouvido boatos na zona norte de Damasco, mas a confirmação mais importante chega da televisão de Estado da Síria que anuncia ter respondido ao ataque.

13 abril 2018

A Europa precisa da Rússia

A épica e antiga viagem da Rússia para o Ocidente acabou, tal como as suas repetidas tentativas de
tornar-se parte da civilização ocidental. É uma frase que soa como um julgamento, uma vez que a escreve-la é Vladislav Surkov, provavelmente o estratega mais próximo de Vladimir Putin: Surkov é creditado como sendo o arquiteto da "democracia administrada" que é o estilo do governo de Putin.

Sanções, ameaças de guerra, mentiras e insultos levaram Surkov (e certamente o seu ambiente) a concluir que "a Rússia enfrenta 100 anos de solidão geopolítica. O 200? 300?". Não é uma escolha feita de ânimo leve, mas um facto melancólico confirmado pela realidade.

A Rússia é parte da Europa, não apenas do ponto vista geográfico. Mas o facto de ser uma ponte entre o Velho Continente e a Ásia, mais razões histórica, condenaram o País a uma infinita marcha para ser aceite: a Europa sempre olhou para Moscovo com uma irracional desconfiança. A Guerra Fria e, por último, a loucura norte-americana cavaram um fosso entre a Rússia e Ásia. O castelo de mentiras e idiotices dos últimos meses fizeram que Moscovo entendesse: a marcha acabou.

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